Professor da Unesp aponta falhas na governança de desastres climáticos

Especialista aponta contradição entre ambição diplomática climática e falhas na governança de desastres, às vésperas da COP-30 em Belém.

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
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Área atingida por enchente ficou completamente destruída no Rio Grande do Sul

A menos de dois meses da COP30 em Belém, o Brasil enfrenta uma contradição paradoxal: enquanto se prepara para liderar o debate climático global, continua demonstrando despreparo diante de desastres ambientais que devastam o país. A crítica vem do professor Enner Alcântara, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em artigo publicado na prestigiosa revista Nature Waters.

O docente do Programa de Pós-Graduação em Desastres Naturais questiona como o país pretende exercer protagonismo na maior conferência climática mundial quando falha sistematicamente em proteger sua própria população. As tragédias recentes em Porto Alegre, Petrópolis e São Sebastião exemplificam essa inconsistência preocupante.

As enchentes históricas no Rio Grande do Sul em 2024, consideradas o pior desastre climático da história estadual, resultaram em 183 mortes e afetaram mais de 2,3 milhões de pessoas. O evento custou aproximadamente R$ 8,5 bilhões em perdas agrícolas, segundo dados da Organização Meteorológica Mundial (OMM).

 

Ciência disponível, governança ausente

O especialista enfatiza que a deficiência brasileira não reside na capacidade científica. O país possui instituições renomadas como o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que fornecem previsões e alertas precisos.

"O conhecimento raramente chega ao planejamento urbano, ao licenciamento de obras e à manutenção de infraestruturas críticas", explica Alcântara. A questão central é a transformação do conhecimento científico em políticas públicas preventivas.

Em 2024, o Cemaden emitiu 3.620 alertas de desastres, o maior número desde o início das operações em 2011. Foram registradas 1.690 ocorrências de desastres, evidenciando a crescente vulnerabilidade nacional aos eventos extremos.

COP30: oportunidade de Coerência Climática

A conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas acontecerá entre 10 e 21 de novembro de 2025 na capital paraense. O evento deve receber mais de 50 mil pessoas, incluindo chefes de Estado, diplomatas e representantes de 196 países.

Para Alcântara, a COP30 representa uma oportunidade única para o Brasil demonstrar coerência entre liderança internacional e práticas internas. "Um país que pretende liderar a diplomacia climática precisa mostrar consistência entre discurso e ação", argumenta.

O governo federal investiu R$ 4,7 bilhões na preparação do evento, incluindo recursos do Orçamento da União, BNDES e Itaipu. Os investimentos abrangem infraestrutura urbana, transporte, segurança e sustentabilidade.

Desafios logísticos preocupam especialistas

A organização da COP30 enfrenta obstáculos significativos. A crise de hospedagem em Belém, com preços considerados "extorsivos" por delegações internacionais, tornou-se um dos principais desafios. Alguns países chegaram a pressionar por transferência do evento para outra cidade.

O governo disponibilizou uma plataforma com 2,7 mil quartos e 2,5 mil quartos individuais prioritariamente para países menos desenvolvidos. Atualmente, Belém conta com 53.003 leitos disponíveis para receber as delegações.

As obras estruturantes incluem reformas do Complexo Ver-o-Peso, Mercado de São Brás e construção do Parque Linear São Joaquim, totalizando R$ 299 milhões em investimentos municipais.

Adaptação climática como prioridade

O professor destaca que a adaptação às mudanças climáticas deve receber o mesmo peso que a mitigação na agenda da COP30. Isso significa reconhecer que proteger populações expostas a extremos climáticos é tão urgente quanto reduzir emissões de gases de efeito estufa.

Brasil registrou 10 eventos climáticos extremos em 2024, sendo três classificados como sem precedentes: as chuvas no Rio Grande do Sul, a seca na Amazônia e a onda de calor na região central. A situação evidencia a necessidade urgente de políticas adaptativas eficazes.

Para um resultado positivo da COP30, Alcântara propõe compromissos concretos: incorporação de cenários climáticos aos planos urbanos, investimentos em infraestrutura resiliente e criação de mecanismos de financiamento preventivo para municípios.

Conjuntura geopolítica desafiadora

A conferência ocorre em contexto geopoliticamente complexo, com posições contrárias ao debate climático em países como Estados Unidos. Questões internas, incluindo limitações de hospedagem e problemas logísticos, podem comprometer a construção de consensos globais.

Apesar dos obstáculos, o especialista acredita que as dificuldades não inviabilizarão os resultados da COP30. "Historicamente, conferências climáticas sempre enfrentaram pressões políticas e barreiras, mas ainda produziram avanços importantes", pondera.

O Brasil tem papel central na conferência, especialmente por sediar o evento na Amazônia. A região amazônica representa território estratégico para estabilidade climática global e construção de sociedades resilientes.

Sistemas de alerta: avanço Insuficiente

Os sistemas de alerta implementados pela Defesa Civil representam progresso importante, mas permanecem insuficientes isoladamente. "Os alertas funcionam, mas se transformam em medidas eficazes apenas quando associados a governança local capaz de transformar previsão em ação imediata", observa Alcântara.

A população recebe informações meteorológicas precisas, mas frequentemente não encontra estrutura organizada de abrigos, evacuação ou transporte seguro. A integração entre produção científica, emissão de alertas e resposta municipal continua deficiente.