ODS 4: educação de qualidade pode transformar o planeta

ODS busca garantir acesso universal à educação de qualidade até 2030, mas desafios globais exigem ações urgentes

Por Por Rosalvo Oliveira-
11 Min

Crianças em sala de aula demonstram o poder transformador da educação de qualidade para construir futuro sustentável e inclusivo. Foto: Canva

A educação de qualidade representa um dos pilares fundamentais para a construção de um futuro sustentável e equitativo. Reconhecendo essa importância, as Nações Unidas estabeleceram o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4 (ODS 4), que visa assegurar uma educação inclusiva, equitativa e de qualidade, além de promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todas as pessoas até 2030. Com abrangência global, esse objetivo não apenas transforma vidas individuais, mas funciona como catalisador para o alcance de todos os outros objetivos da Agenda 2030.

O ODS 4 reconhece que a educação vai muito além da alfabetização básica. Ela é um direito humano fundamental e essencial para o exercício pleno da cidadania. Segundo dados da UNESCO, cerca de 272 milhões de crianças e jovens ainda estavam fora da escola em 2023, número que cresceu 3% em relação a anos anteriores. Esse cenário alarmante demonstra que, apesar dos avanços conquistados nas últimas décadas, o caminho para a universalização do ensino ainda enfrenta obstáculos significativos.

A importância desse objetivo transcende as salas de aula. Uma população bem educada tem maior capacidade de promover inovação, reduzir desigualdades, combater mudanças climáticas e construir sociedades mais justas e pacíficas. A educação capacita as pessoas para tomarem decisões conscientes sobre saúde, meio ambiente e participação democrática, tornando-se instrumento poderoso de transformação social e econômica.

 

Leia Também s dez metas globais do ODS 4 para transformar a educação mundial

O Objetivo 4 estabelece dez metas específicas que abordam diferentes dimensões do processo educacional. A primeira meta busca garantir que todas as meninas e meninos completem o ensino primário e secundário gratuito, equitativo e de qualidade até 2030, conduzindo a resultados de aprendizagem relevantes e eficazes. Esse compromisso representa um desafio monumental, especialmente para países em desenvolvimento.

A meta 4.2 foca no desenvolvimento na primeira infância, reconhecendo que os primeiros anos de vida são cruciais para o desenvolvimento cognitivo e emocional. Estudos comprovam que investimentos nessa fase geram retornos significativos ao longo de toda a vida, impactando positivamente o desempenho escolar futuro e a inserção profissional.

No campo da educação superior e profissional, a meta 4.3 busca assegurar igualdade de acesso para homens e mulheres à educação técnica, profissional e universitária de qualidade, a preços acessíveis. Essa meta ganha relevância especial em um mundo onde as competências técnicas se tornam cada vez mais essenciais para o mercado de trabalho.

A meta 4.4 propõe aumentar substancialmente o número de jovens e adultos com habilidades relevantes, incluindo competências técnicas e profissionais, para emprego, trabalho decente e empreendedorismo. Já a meta 4.5 enfatiza a eliminação das disparidades de gênero na educação e a garantia de igualdade de acesso para os grupos mais vulneráveis, incluindo pessoas com deficiência, povos indígenas e crianças em situação de risco.

Desafios contemporâneos ameaçam avanços na educação global

O Relatório de Monitoramento Global da Educação 2024, lançado pela UNESCO em Fortaleza durante a Reunião Global de Educação, trouxe dados preocupantes sobre a estagnação dos indicadores educacionais em todo o mundo. A Declaração de Fortaleza aponta que os níveis de aprendizagem caíram 3 pontos desde 2018, o número de estudantes fora da escola não está diminuindo e a prioridade governamental para educação também reduziu.

Stefania Giannini, Diretora-Geral Adjunta de Educação da UNESCO, alertou para crises urgentes de equidade e financiamento. Os gastos públicos com educação caíram 0,4 ponto percentual do PIB global entre 2015 e 2022, passando de 4,4% para 4%. Essa redução acontece justamente quando o mundo enfrenta desafios educacionais crescentes, ampliando lacunas e comprometendo a qualidade do ensino oferecido.

A pandemia de COVID-19 agravou ainda mais esse cenário. O fechamento das escolas afetou mais de 1,5 bilhão de estudantes em todo o mundo, aprofundando desigualdades existentes e criando novos obstáculos para o aprendizado. Crianças de famílias vulneráveis foram as mais impactadas, muitas sem acesso a tecnologias digitais para acompanhar aulas remotas.

Outro desafio crítico identificado pelo relatório é a falta de lideranças escolares qualificadas. Segundo a UNESCO, mais de um quarto da variação nos níveis de aprendizado das escolas pode ser atribuído à atuação desses profissionais. O documento ressalta que líderes escolares precisam de mais tempo para se concentrar no ensino e na aprendizagem, demandando processos de seleção mais rigorosos para recrutar pessoas qualificadas, experientes e com perfis diversos.

Educação para o desenvolvimento sustentável e ação climática

A meta 4.7 do ODS 4 destaca a importância de garantir que todos os alunos adquiram conhecimentos e habilidades necessárias para promover o desenvolvimento sustentável. Isso inclui educação para o desenvolvimento sustentável e estilos de vida sustentáveis, direitos humanos, igualdade de gênero, promoção de uma cultura de paz e não violência, cidadania global e valorização da diversidade cultural.

Essa meta conecta diretamente a educação com a ação climática e outros objetivos ambientais da Agenda 2030. Currículos escolares que incorporam questões ambientais preparam as novas gerações para enfrentar desafios como mudanças climáticas, perda de biodiversidade e degradação ambiental. Estudantes educados sobre sustentabilidade tornam-se agentes de transformação em suas comunidades, multiplicando práticas conscientes e soluções inovadoras.

A integração entre educação e sustentabilidade também abre caminhos para modelos econômicos mais responsáveis. O conhecimento sobre transformação de ativos sustentáveis, economia circular e gestão responsável de recursos naturais capacita profissionais para atuarem em setores emergentes da economia verde. Certificados de Ação Climática em formato NFT, por exemplo, representam inovações que aliam tecnologia e sustentabilidade, criando oportunidades para que empresas e indivíduos contribuam efetivamente com metas climáticas globais.

Iniciativas brasileiras alinhadas ao ODS 4

O Brasil tem implementado diversos programas para atender às metas do ODS 4. O Ministério da Educação desenvolveu ações que cobrem todas as dez metas globais do objetivo. O Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, lançado em 2023, recebeu investimentos superiores a R$ 1 bilhão para formação de articuladores, cantinhos de leitura, formação para educação infantil, materiais didáticos e sistemas de avaliação. Em 2023, o país alcançou 56% de crianças alfabetizadas ao final do segundo ano do ensino fundamental.

O Programa Escola em Tempo Integral ampliou a carga horária escolar e conectou o ensino às necessidades dos estudantes. No ciclo 2023-2024, foram fomentadas mais de 950 mil matrículas em tempo integral para mais de 84% dos entes federativos brasileiros, com investimento de R$ 3,2 bilhões. O programa oferece abordagem integral e integrada do currículo, voltada para o desenvolvimento de bebês, crianças e adolescentes.

O programa Pé-de-Meia representa iniciativa inovadora para promover permanência e conclusão escolar de estudantes do ensino médio público. Os alunos recebem incentivo mensal de R$ 200, que pode ser sacado a qualquer momento, e depósitos anuais de R$ 1.000, disponíveis após conclusão do ano letivo. Essa política combina suporte financeiro com acompanhamento educacional, reduzindo taxas de evasão escolar.

A Ação Saberes Indígenas na Escola merece destaque especial por atender necessidades específicas da educação escolar indígena. Em 2024, a iniciativa conta com investimento de R$ 20 milhões para formar 4 mil professores indígenas cursistas e 400 orientadores de estudos por meio de 50 instituições de educação superior. Esse programa valoriza conhecimentos tradicionais enquanto promove acesso a educação de qualidade.

Infraestrutura e formação docente como pilares estratégicos

A meta 4.a enfatiza a necessidade de construir e melhorar instalações físicas para educação, apropriadas para crianças e sensíveis às deficiências e ao gênero, proporcionando ambientes de aprendizagem seguros, não violentos, inclusivos e eficazes para todos. O Pacto pela Retomada de Obras, coordenado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, garantiu conclusão de 650 obras em 2023 e 265 em 2024, criando 741 mil novas vagas com investimento de R$ 3,9 bilhões.

A expansão da Rede Federal de Educação Profissional vai gerar 140 mil novas vagas por meio do Novo PAC, com investimento de R$ 2,5 bilhões para expansão de novas unidades, além de R$ 1,4 bilhão para consolidação dos campi atuais com refeitórios, ginásios, bibliotecas, salas de aula e equipamentos. Essa iniciativa fortalece a educação técnica e profissional, preparando jovens para inserção qualificada no mercado de trabalho.

A formação docente constitui elemento fundamental para qualidade educacional. A meta 4.c propõe aumentar substancialmente o contingente de professores qualificados, inclusive mediante cooperação internacional. No Brasil, a Política Nacional de Educação Profissional e Tecnológica está sendo desenvolvida por grupo de trabalho composto por diversos ministérios e entidades nacionais, devendo ser implementada até 2025.

O papel da tecnologia na educação do século XXI

A transformação digital impactou profundamente o cenário educacional. Tecnologias educacionais oferecem oportunidades para ampliar acesso, personalizar aprendizagem e desenvolver competências digitais essenciais para o mundo contemporâneo. No entanto, a UNESCO alerta para divisões digitais que podem aprofundar desigualdades se não forem adequadamente endereçadas.

O Relatório Global de Monitoramento da Educação sobre tecnologia e educação examinou desafios para os quais a utilização adequada da tecnologia pode oferecer soluções, incluindo acesso, equidade, inclusão, qualidade, avanço tecnológico e gestão de sistemas. Reconhece, porém, que muitas soluções propostas podem também ser prejudiciais se implementadas sem planejamento adequado ou sem considerar contextos específicos.

Plataformas digitais de aprendizagem, recursos educacionais abertos e ferramentas de colaboração online democratizam acesso ao conhecimento. Estudantes em áreas remotas podem acessar conteúdos de qualidade e interagir com educadores e colegas de diferentes regiões. Essa conectividade amplia horizontes e promove intercâmbio cultural, preparando jovens para atuarem em contexto globalizado.

Educação como catalisador para outros objetivos de desenvolvimento

O ODS 4 funciona como habilitador fundamental para alcance de outros objetivos da Agenda 2030. Educação de qualidade contribui diretamente para erradicação da pobreza (ODS 1), ao capacitar pessoas para melhores oportunidades de emprego e renda. Promove igualdade de gênero (ODS 5), empoderando meninas e mulheres através do conhecimento e da autonomia.

A conexão com saúde e bem-estar (ODS 3) é evidente. Populações mais educadas adotam práticas de saúde preventiva, têm melhor acesso a informações sobre nutrição e cuidados médicos, e demonstram maior consciência sobre saúde mental. Estudos demonstram correlação direta entre nível educacional e expectativa de vida.

No campo da inovação e infraestrutura (ODS 9), a educação forma profissionais qualificados para desenvolver tecnologias, impulsionar pesquisas científicas e criar soluções para desafios contemporâneos. Instituições educacionais funcionam como centros de pesquisa e desenvolvimento, gerando conhecimento aplicável a diversos setores econômicos.

O caminho até 2030 e a urgência de ações coordenadas

Faltando menos de cinco anos para o prazo estabelecido pela Agenda 2030, o cumprimento das metas do ODS 4 exige mobilização global coordenada. Governos, organizações internacionais, sociedade civil, setor privado e comunidades educacionais precisam trabalhar conjuntamente para superar desafios identificados.

Investimentos em educação devem ser prioridade orçamentária. A UNESCO recomenda que países destinem pelo menos 4% a 6% do PIB para educação, com foco em equidade e qualidade. Recursos adequados permitem contratar e capacitar professores, construir infraestrutura adequada, desenvolver materiais didáticos e implementar políticas de inclusão.

Cooperação internacional desempenha papel crucial. A meta 4.b propõe ampliar substancialmente o número de bolsas de estudo para países em desenvolvimento, incluindo programas de formação profissional e científica. Parcerias entre países facilitam intercâmbio de experiências bem-sucedidas e transferência de tecnologias educacionais.

Monitoramento rigoroso e transparente dos progressos alcançados constitui elemento essencial. O Relatório de Monitoramento Global da Educação fornece dados fundamentais para avaliação de políticas e ajustes estratégicos. Indicadores precisos permitem identificar lacunas, reconhecer avanços e direcionar recursos para áreas que mais necessitam atenção.

A educação de qualidade representa investimento com retornos multiplicados ao longo de gerações. Cada criança que aprende a ler, cada jovem que conclui ensino médio, cada adulto que adquire novas competências contribui para sociedade mais justa, próspera e sustentável. O ODS 4 não é apenas meta a ser alcançada, mas compromisso com futuro onde todas as pessoas tenham oportunidade de desenvolver plenamente seu potencial humano.