Extremos climáticos elevam mortalidade infantil no Brasil

Estudos inéditos revelam que mudanças climáticas ampliam em até 364% o risco de morte de bebês

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
10 Min

Atualmente, 37,4% das crianças brasileiras de até quatro anos vivem em situação de insegurança alimentar

Com informações da Agência Brasil
A crise climática deixou de ser uma ameaça distante para se transformar em uma realidade que já cobra seu preço mais alto: a vida e o desenvolvimento pleno de bebês e crianças pequenas. Dois estudos divulgados recentemente expõem dados alarmantes sobre como os extremos climáticos impactam diretamente os brasileiros mais vulneráveis, aqueles com idade entre zero e seis anos. Os números não deixam margem para dúvidas: estamos diante de uma emergência silenciosa que compromete o futuro de milhões.

Uma pesquisa encomendada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal ao Datafolha revela que mais de 80% dos brasileiros demonstram preocupação com os efeitos das mudanças climáticas sobre bebês e crianças na primeira infância. O levantamento "Panorama da Primeira Infância: o impacto da crise climática" ouviu 2.206 pessoas, incluindo 822 responsáveis por crianças, entre os dias 8 e 10 de abril de 2025. Os dados evidenciam que a população já reconhece a gravidade da situação, embora as políticas públicas ainda estejam distantes de oferecer respostas adequadas à magnitude do desafio.

Paralelamente, cientistas brasileiros e internacionais publicaram no periódico científico Environmental Research um estudo que analisou mais de 1 milhão de mortes de crianças menores de cinco anos ao longo de duas décadas. Os resultados são devastadores: bebês em período neonatal, entre 7 e 27 dias de vida, apresentam risco 364% maior de morrer em condições de frio extremo quando comparados a dias com temperatura amena. No calor intenso, o perigo aumenta conforme a criança cresce, atingindo 85% mais chance de óbito entre aquelas com 1 a 4 anos.

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Saúde infantil: principal preocupação da população

Quando questionados sobre quais seriam os principais impactos das mudanças climáticas sobre as crianças, 71% dos entrevistados apontaram problemas de saúde como a maior ameaça. As doenças respiratórias lideram as preocupações, seguidas por questões como desidratação, insolação e complicações renais. Esta percepção popular encontra respaldo científico robusto.

Crianças pequenas são particularmente vulneráveis às oscilações de temperatura porque seus organismos ainda não desenvolveram plenamente os mecanismos de regulação térmica. Durante ondas de calor, esses pequenos corpos enfrentam dificuldades para dissipar o excesso de temperatura, levando a quadros que vão desde o desconforto até condições potencialmente fatais. No frio intenso, a situação não é menos grave: a hipotermia desencadeia complicações respiratórias e metabólicas, além de favorecer o surgimento de infecções que podem evoluir rapidamente.

Além dos riscos à saúde, 39% dos brasileiros manifestaram preocupação com o aumento de desastres naturais como enchentes, secas e queimadas. Outros 32% apontaram a dificuldade crescente de acesso a água potável e alimentos seguros como consequências diretas da emergência climática. Esses números refletem uma compreensão cada vez mais clara de que a crise ambiental não se restringe a questões ambientais abstratas, mas afeta concretamente o dia a dia das famílias.

Desigualdades regionais amplificam tragédia climática

O Brasil, com suas dimensões continentais e profundas desigualdades socioeconômicas, funciona como um verdadeiro laboratório para compreender como os extremos climáticos afetam populações vulneráveis de formas distintas. O professor Ismael Silveira, do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia e colaborador do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde da Fiocruz Bahia, explica que essa diversidade geográfica e social permitiu preencher lacunas importantes no conhecimento científico sobre países de clima tropical.

Os dados revelam padrões regionais preocupantes. A mortalidade infantil relacionada ao frio extremo registrou aumento de 117% na região Sul do país, onde as temperaturas mais baixas representam desafio adicional para famílias que muitas vezes não dispõem de aquecimento adequado em suas residências. Já no Nordeste, a mortalidade associada ao calor intenso cresceu 102%, refletindo ondas de calor cada vez mais frequentes e prolongadas que atingem uma região historicamente vulnerável à seca.

As regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste concentram as taxas mais elevadas de mortes infantis em geral, situação agravada pela vulnerabilidade socioeconômica e pelo acesso precário à infraestrutura básica. Saneamento inadequado, moradias sem condições térmicas apropriadas e serviços de saúde insuficientes transformam o aumento das temperaturas em ameaça adicional para populações que já enfrentam múltiplas privações.

Primeira infância: quando vulnerabilidade e desenvolvimento se encontram

Os 18,1 milhões de crianças brasileiras na primeira infância representam 8,9% da população nacional e estão no centro de uma tempestade perfeita. Essa fase da vida, caracterizada por desenvolvimento cerebral acelerado e formação de conexões neuronais fundamentais, coincide com extrema fragilidade física. Quando eventos climáticos extremos se somam a vulnerabilidades socioeconômicas preexistentes, os danos podem se estender por toda a vida.

Mariana Luz, diretora da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, sintetiza a injustiça inerente a essa situação: "As crianças na primeira infância são as menos culpadas pela emergência climática e, ainda assim, são o público mais afetado. Essa injustiça exige que cada medida tomada considere a vulnerabilidade de quem depende da proteção dos adultos". A declaração ressalta não apenas a urgência, mas também a dimensão ética do problema.

Estudos recentes do Núcleo Ciência Pela Infância indicam que crianças brasileiras nascidas em 2020 viverão, ao longo de suas vidas, em média 6,8 vezes mais ondas de calor e 2,8 vezes mais inundações e perdas de safra do que aquelas nascidas em 1960. Essa projeção ilustra como as gerações atuais herdarão um planeta substancialmente mais hostil do que o conhecido por seus pais e avós.

Impactos que transcendem a saúde física

Embora os riscos à saúde física sejam os mais evidentes e imediatos, as mudanças climáticas afetam as crianças de maneiras múltiplas e interconectadas. O desenvolvimento cognitivo e emocional, aspectos fundamentais da primeira infância, sofre impactos profundos quando bebês e crianças pequenas são expostos a situações de estresse prolongado causadas por desastres climáticos.

O deslocamento forçado de famílias atingidas por enchentes, secas ou queimadas interrompe vínculos afetivos essenciais, compromete rotinas de cuidado e expõe as crianças a ambientes potencialmente inseguros. Nas enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em 2024, mais de 3.930 crianças de até cinco anos foram acolhidas em abrigos públicos após serem desalojadas. A ruptura familiar, mesmo que temporária, pode deixar marcas duradouras no desenvolvimento socioemocional.

A educação também enfrenta interrupções crescentes. Em 2024, eventos naturais extremos provocaram a suspensão de aulas para 1,18 milhão de crianças e adolescentes em todo o país. Somente no Rio Grande do Sul, as enchentes resultaram na perda de 55.749 horas-aula. Essas interrupções não representam apenas dias sem atividades escolares, mas comprometem o aprendizado, a socialização e até a segurança alimentar de crianças que dependem da merenda escolar.

Insegurança alimentar: crise climática agrava fome infantil

A relação entre mudanças climáticas e segurança alimentar representa outro elo crítico dessa cadeia de vulnerabilidades. Atualmente, 37,4% das crianças brasileiras de até quatro anos vivem em situação de insegurança alimentar, o maior índice entre todas as faixas etárias do país. Ao todo, 5,4 milhões de crianças pequenas enfrentam algum grau de privação alimentar.

Eventos climáticos extremos intensificam dramaticamente essa realidade. Secas prolongadas destroem safras e encarecem alimentos, enquanto enchentes contaminam fontes de água e interrompem cadeias de abastecimento. A desnutrição na primeira infância não apenas compromete o crescimento físico imediato, mas também afeta o desenvolvimento cerebral de forma muitas vezes irreversível, limitando capacidades cognitivas e potencial de aprendizado futuro.

Infraestrutura inadequada multiplica riscos

A infraestrutura das cidades brasileiras não foi projetada pensando nas necessidades das crianças pequenas diante da crise climática. Levantamento do Instituto Alana revela que 44% das creches e pré-escolas nas capitais brasileiras não possuem nenhuma área verde. A ausência de vegetação não é apenas uma questão estética: áreas sem árvores e cobertura vegetal formam ilhas de calor urbano, onde as temperaturas podem ser até 5°C superiores às de regiões arborizadas próximas.

Crianças que passam horas em creches sem sombra ou ventilação adequada enfrentam riscos elevados de insolação e desidratação. O acesso à natureza, além de proporcionar conforto térmico, é fundamental para o desenvolvimento integral, estimulando habilidades motoras, criatividade e conexão com o ambiente. Quando esse contato é negado, múltiplas dimensões do desenvolvimento infantil ficam comprometidas.

Bairros densamente urbanizados, com excesso de concreto e escassez de áreas verdes, amplificam os efeitos dos extremos climáticos. Moradias inadequadas, sem isolamento térmico apropriado, transformam residências em ambientes perigosos durante ondas de calor ou frio intenso. A combinação de vulnerabilidade social e ambiental cria zonas de risco onde as crianças enfrentam probabilidades muito superiores de adoecimento e morte.

Otimismo cauteloso: 15% veem oportunidade de mudança

Apesar do cenário devastador, a pesquisa do Datafolha identificou um pequeno grupo de otimistas: 15% dos entrevistados acreditam que as mudanças climáticas estimularão maior consciência ambiental nas novas gerações. Outros 6% confiam que a sociedade encontrará soluções tecnológicas ou políticas para reduzir significativamente os danos.

Esse otimismo minoritário não deve ser descartado como ingenuidade. Representa a compreensão de que a crise pode funcionar como catalisadora de transformações necessárias há décadas. No entanto, especialistas alertam que confiar apenas na capacidade adaptativa da sociedade, sem ações concretas e imediatas de mitigação, equivale a apostar o futuro de milhões de crianças em um cenário improvável.

Urgência de políticas públicas integradas

Cientistas e organizações da sociedade civil são unânimes ao defender que proteger a primeira infância diante da emergência climática exige políticas públicas urgentes, baseadas em evidências e que considerem as desigualdades sociais. As medidas precisam ser integradas, conectando urbanismo, educação, saúde e meio ambiente.

Mariana Luz, da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, enfatiza: "A proteção à criança, desde a primeira infância, precisa entrar na agenda climática. Já não podemos mais falar desses assuntos de forma separada. É urgente que as políticas públicas sejam construídas levando em consideração todos os impactos aos quais esse grupo está exposto. Não dá mais para esperar".

Entre as medidas consideradas prioritárias estão o fortalecimento da atenção primária à saúde, a modernização do saneamento básico, a criação de zonas climatizadas em creches e escolas, o reassentamento digno de famílias afetadas por eventos climáticos e o investimento massivo em infraestrutura verde nas cidades. Cada ação precisa ter como princípio orientador a proteção dos mais vulneráveis.