Menos de 70 países entregaram metas climáticas às autoridades da COP-30

Apenas 62 países entregaram suas metas climáticas às autoridades da conferência que acontecerá em Belém

Por Por Álvaro Oliveira-
10 Min

Ministra Marina Silva e embaixadores durante coletiva de imprensa sobre a Pré-COP30 em Brasília, destacando os desafios das negociações climáticas antes da conferência em Belém.

A contagem regressiva para a COP30, que acontecerá em Belém do Pará entre 10 e 21 de novembro de 2025, está marcada por uma preocupação crescente entre as autoridades climáticas globais: o baixo índice de apresentação das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs). Esses documentos representam os compromissos de cada nação para reduzir as emissões de gases do efeito estufa e implementar estratégias de adaptação às mudanças climáticas que já afetam o planeta.

Com menos de 30 dias para o início da conferência climática mais importante do ano, apenas 62 países, de um total de 195 signatários do Acordo de Paris, entregaram oficialmente suas metas atualizadas. O cenário se torna ainda mais delicado quando observamos que outros 101 países prometeram apresentar seus documentos até o evento, mas sem garantias concretas de cumprimento desse compromisso. A situação acende um alerta vermelho sobre a capacidade da comunidade internacional de enfrentar a crise climática de forma coordenada e eficaz.

O embaixador Maurício Carvalho Lyrio, secretário de Clima, Energia e Meio Ambiente do Itamaraty, não esconde sua apreensão com o panorama atual. Durante entrevista coletiva sobre a Pré-COP30, realizada em Brasília entre 13 e 14 de outubro com representantes de 67 países, ele destacou com especial preocupação a ausência de grandes poluidores globais nessa lista de entregas. A União Europeia, a Índia e até mesmo a China - que só apresentou seu documento no final de setembro - estão entre os emissores significativos que atrasaram seus compromissos climáticos.

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Impacto do atraso na temperatura global

A demora na apresentação das NDCs não é apenas uma questão burocrática ou protocolar. Segundo Lyrio, esse "quadro complicado" será traduzido em um relatório síntese que o secretariado da Convenção da ONU publicará em breve, convertendo as metas prometidas em projeções de temperatura. O embaixador foi direto ao afirmar que "essa temperatura provavelmente não vai ser das mais tranquilizadoras", indicando que o planeta pode estar caminhando para um cenário de aquecimento superior ao limite de 1,5°C estabelecido no Acordo de Paris.

Os cientistas são unânimes em alertar que cada fração de grau de aquecimento global representa impactos dramáticos para a humanidade e os ecossistemas. Sem o conjunto completo das NDCs atualizadas, torna-se impossível avaliar com precisão se as nações estão no caminho correto para evitar as consequências mais catastróficas das mudanças climáticas. O relatório que será divulgado pela ONU deverá mostrar uma lacuna preocupante entre as ambições declaradas e as ações necessárias para manter o aquecimento sob controle.

A situação é particularmente crítica porque 2025 marca os dez anos do Acordo de Paris, firmado em 2015 durante a COP21 na França. Este tratado internacional estabeleceu o compromisso global de limitar o aumento da temperatura média da Terra a bem abaixo de 2°C em relação aos níveis pré-industriais, com esforços para mantê-lo em 1,5°C. No entanto, os dados recentes mostram que 2024 ultrapassou temporariamente esse limite, sinalizando a urgência de ações mais ambiciosas e imediatas.

Desafios diplomáticos e geopolíticos

O cenário político internacional adiciona camadas extras de complexidade às negociações climáticas. Os Estados Unidos, historicamente um dos maiores emissores de gases do efeito estufa, mantêm oficialmente as NDCs estabelecidas durante o governo de Joe Biden. Entretanto, com o retorno de Donald Trump à presidência em janeiro de 2025 e sua decisão de retirar o país do Acordo de Paris pela segunda vez, há incertezas sobre o real comprometimento norte-americano com as metas estabelecidas.

De forma similar, a Argentina sob a liderança de Javier Milei avalia seguir o mesmo caminho dos Estados Unidos e abandonar o acordo climático global. Essa postura negacionista de governos importantes representa um retrocesso significativo no esforço coletivo de combate às mudanças climáticas, fragmentando ainda mais a já frágil cooperação internacional nessa área crítica.

No entanto, a ministra do Meio Ambiente do Brasil, Marina Silva, apresenta uma perspectiva mais otimista diante desses desafios. Em entrevista coletiva sobre a Pré-COP30, ela defendeu que, mesmo sem orientação dos governos centrais, tanto os Estados Unidos quanto a Argentina podem manter uma agenda climática ativa através de governos subnacionais, empresas e sociedade civil organizada. Como exemplo concreto, citou o acordo de cooperação assinado com o governador da Califórnia, Gavin Newsom, e a participação confirmada do prefeito de Buenos Aires, Jorge Macri, na agenda de ação climática.

Multilateralismo climático em teste

"As pessoas, o bom senso, a ética e a ciência não foram sepultadas nesses países", afirmou Marina Silva, ressaltando que empresários e governos locais continuam orientados para o enfrentamento das mudanças climáticas, apesar das posições negacionistas de alguns líderes nacionais. A ministra reconhece que haverá "maior dificuldade" nessas circunstâncias, mas defende que não significa "um apagão da presença desses países" no esforço global.

O embaixador André Aranha Corrêa do Lago, presidente designado da COP30, trouxe números mais animadores sobre a participação no evento. Segundo ele, mais de 160 países já estão oficialmente credenciados para a conferência, superando o mínimo necessário para tornar as negociações válidas. "O último número que a gente tinha é 162. Então nós já estamos acima do número que torna a negociação válida", declarou durante coletiva de imprensa em Brasília.

O presidente da COP30 também destacou os esforços da organização para facilitar a participação do maior número possível de países, inclusive mantendo quartos de hotel a preços favoráveis para aqueles que ainda não conseguiram iniciar suas negociações logísticas. A expectativa é de que mais de 40 mil visitantes cheguem a Belém durante os principais dias da conferência, incluindo aproximadamente 7 mil pessoas que compõem a chamada "família COP", formada por equipes da ONU e delegações oficiais dos países membros.

Infraestrutura e preparativos para o evento na Amazônia

A escolha de Belém como sede da COP30 carrega um simbolismo poderoso: pela primeira vez, a conferência climática mais importante do mundo acontecerá no coração da Amazônia, o maior reservatório de biodiversidade do planeta e um regulador climático fundamental. O governo federal brasileiro investiu cerca de R$ 4,7 bilhões em infraestrutura para preparar a capital paraense, incluindo recursos do BNDES e de Itaipu Binacional.

As obras abrangem desde melhorias em portos e saneamento até ampliação da rede hoteleira e de turismo. O Hangar Centro de Convenções e o Parque da Cidade estão sendo transformados para receber as negociações oficiais, enquanto a Vila dos Líderes, um complexo de 500 quartos, será posteriormente convertida em sede administrativa estadual, garantindo um legado permanente para a região.

A Cúpula de Líderes, que antecede a conferência oficial, está marcada para os dias 6 e 7 de novembro, quando chefes de Estado de diversos países se reunirão para dar o tom político das negociações que se seguirão. Esse encontro de alto nível é considerado crucial para estabelecer compromissos ambiciosos antes que as delegações técnicas iniciem as discussões detalhadas sobre implementação e financiamento das ações climáticas.

O papel do Brasil como anfitrião

O Brasil apresentou suas NDCs atualizadas como um dos primeiros países, estabelecendo uma meta de redução de emissões entre 59% e 67% até 2035, tendo como base os níveis de 2005. Essa ambição coloca o país em posição de liderança moral nas negociações, especialmente considerando a importância da Amazônia para o equilíbrio climático global.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem enfatizado que a COP30 será diferente de todas as anteriores justamente por acontecer na floresta amazônica. "Uma coisa é discutir a Amazônia no Egito; outra coisa é discutir a Amazônia em Berlim", declarou o presidente, destacando que em Belém os líderes mundiais poderão ver de perto a realidade das comunidades indígenas, ribeirinhas e tradicionais que vivem na região e são as principais guardiãs desse patrimônio natural.

A conferência também será um momento decisivo para debater o financiamento climático, tema que ganhou destaque na COP29 realizada em Baku, Azerbaijão. Países desenvolvidos se comprometeram com US$ 300 bilhões anuais até 2035, mas nações em desenvolvimento argumentam que são necessários US$ 1,3 trilhão, incluindo investimentos privados, para viabilizar a mitigação de impactos como secas, inundações e outros eventos extremos que já afetam milhões de pessoas.

Expectativas e desafios para Belém

A Pré-COP realizada em Brasília serviu para mapear os principais pontos de convergência e possíveis impasses nas negociações. Segundo o embaixador André Corrêa do Lago, os países foram "muito claros nos limites do que podem ou não podem aceitar no processo negociador", o que permite uma preparação mais estratégica para a conferência oficial.

A ministra Marina Silva destacou que as sessões sobre clima e natureza evidenciaram consenso sobre a necessidade de novos instrumentos econômicos para valorização da natureza, um tema central para países megadiversos como o Brasil. A expectativa é que a COP30 seja uma "COP de implementação e soluções", conforme enfatizou Ana Toni, diretora-executiva da conferência.

Entidades da sociedade civil, no entanto, apontam que faltou uma sinalização mais contundente sobre proteção das florestas durante a Pré-COP. Considerando que a conferência acontece na maior floresta tropical do mundo, que está à beira do colapso devido ao desmatamento e às mudanças climáticas, há expectativa de que esse tema ganhe protagonismo nas discussões oficiais em novembro.

O sucesso da COP30 dependerá fundamentalmente da capacidade dos países de apresentarem suas NDCs atualizadas e, principalmente, de demonstrarem comprometimento real com a implementação dessas metas. A transformação de ativos sustentáveis e o desenvolvimento de mecanismos inovadores de financiamento, como os Certificados de Ação Climática em formato NFT, representam caminhos promissores para viabilizar economicamente a transição para uma economia de baixo carbono.