Brasileiros lideram práticas sustentáveis com 55% priorizando economia verde
Nova pesquisa revela que consumo consciente cresce entre gerações mais velhas enquanto preços ainda representam barreira para mudanças
Consumidores brasileiros adotam práticas sustentáveis no cotidiano, priorizando produtos ecológicos apesar dos desafios econômicos. Foto: Freepik
A consciência ambiental definitivamente conquistou espaço no cotidiano dos brasileiros, transformando hábitos de consumo e práticas domésticas em todo o território nacional. Uma pesquisa recente divulgada pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) identificou que mais da metade dos brasileiros (55%) considera a sustentabilidade como fator decisivo durante suas compras, enquanto 73% demonstram disposição para migrar para alternativas sustentáveis nos produtos que adquirem. Os dados revelam uma mudança significativa no comportamento do consumidor nacional, especialmente quando comparados aos padrões globais.
A transformação não se limita apenas às intenções de compra. Cerca de 88% dos brasileiros já incorporaram pelo menos cinco práticas sustentáveis em suas rotinas diárias, incluindo evitar o desperdício de água (91%), economizar energia elétrica (88%) e reduzir a produção de lixo (77%). Esses números demonstram que a preocupação ambiental ultrapassou o campo das ideias e se materializou em ações concretas no dia a dia das famílias brasileiras.
A pesquisa também identificou que 75% dos entrevistados acreditam que a transição para uma economia verde gerará novas oportunidades de emprego, conectando diretamente as práticas sustentáveis ao desenvolvimento econômico do país. Projeções do Banco Mundial indicam que a implementação de um mercado de carbono pode resultar em um crescimento de 2,2% no PIB potencial até 2030, gerando receitas adicionais entre R$ 40 bilhões e R$ 120 bilhões.
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Em Belo Horizonte, empreendimentos locais demonstram que práticas ambientais podem ser implementadas independentemente do tamanho do negócio. Uma fábrica de antepastos e geleias na capital mineira exemplifica essa tendência ao adotar colheres de bambu, sacolas de papelão e potes de vidro reutilizáveis, oferecendo descontos para clientes que retornam as embalagens. Os resíduos orgânicos são destinados à compostagem, criando um ciclo completo de aproveitamento.
Apesar do crescimento expressivo da consciência ambiental, obstáculos financeiros permanecem como principal entrave para uma adoção mais ampla de produtos sustentáveis. A pesquisa aponta que 28% dos entrevistados consideram os preços elevados como o maior impedimento para o consumo sustentável, enquanto 79% afirmam que valores altos os impedem de comprar produtos ecológicos.
Em um país onde apenas 8,1% da população recebe três ou mais salários mínimos mensais, a prioridade naturalmente recai sobre o equilíbrio do orçamento familiar. Essa realidade econômica cria um paradoxo: enquanto 60% dos brasileiros acreditam que comprar de forma sustentável é um princípio de vida, 74% admitem só tomar medidas ambientais quando estas resultam em economia financeira.
A situação evidencia a necessidade de políticas públicas e estratégias empresariais que tornem produtos sustentáveis mais acessíveis. Roberto Muniz, diretor de Relações Institucionais da CNI, observa que as empresas perceberam há anos que a combinação entre inovação e sustentabilidade desempenha papel essencial na descarbonização da produção, mas ainda é preciso equilibrar essa transformação com a realidade econômica dos consumidores.
Gerações mais velhas lideram movimento sustentávelUm dos aspectos mais surpreendentes da pesquisa revela que pessoas acima de 60 anos são as mais engajadas em práticas sustentáveis, com 54% adotando cuidados ambientais regularmente, enquanto jovens de 16 a 24 anos apresentam o menor índice, com apenas 26% incorporando essas práticas em suas rotinas. O perfil mais comum de quem separa lixo para reciclagem inclui moradores de cidades do interior, pessoas mais velhas e com menor escolaridade.
Sebastião e Elza, moradores de Belo Horizonte, representam bem esse grupo engajado. O casal mantém um jardim próximo à residência com dedicação especial. "Eu tenho esse cuidado porque eu gosto de apreciar o verde. A gente respira melhor com oxigênio", compartilha Elza Mendes Dias, costureira que exemplifica como a geração mais experiente valoriza o contato com a natureza.
Em Campo Grande, Walmir Martins, aos 71 anos, já plantou centenas de árvores em sua região. "Quando a gente está envolvido nessa ação, mais pessoas se aproximam da gente para trazer uma semente, para plantar ou para levar uma muda, e vai criando um ciclo de proteção à natureza", relata o técnico em serviços ambientais, demonstrando como ações individuais podem inspirar mudanças coletivas.
Regionalização das práticas sustentáveis no BrasilA região Sul destaca-se como a mais engajada em práticas sustentáveis, de acordo com o levantamento . Em Curitiba, a médica veterinária Rhéa Cassuli instalou painéis solares há um ano e já devolve energia excedente para a rede elétrica. "O fato de eu ter colocado energia solar dá uma sensação de estar participando e estar fazendo a minha parte", afirma, representando uma tendência crescente de investimento em energia renovável residencial.
Por outro lado, a falta de infraestrutura adequada, como lixeiras e caminhões de coleta, foi identificada como barreira principal nas regiões Nordeste e Sudeste, enquanto Norte, Centro-Oeste e Sul apontam a falta de acesso a opções sustentáveis como principal desafio. Essas diferenças regionais evidenciam a necessidade de políticas públicas adaptadas às realidades locais.
Economia verde impulsiona transformação de ativos sustentáveisA transição para uma economia verde no Brasil vai além das práticas individuais, representando uma oportunidade estratégica de transformação econômica. A Política Nacional de Transição Energética (PNTE), aprovada em 2024, prevê investimentos de R$ 2 trilhões nos próximos dez anos, direcionados para energia limpa, combustíveis de baixo carbono e mineração sustentável.
Apenas no setor de energia solar, o Brasil gerou aproximadamente 264 mil empregos em 2023, posicionando-se como um dos principais mercados da América Latina. A energia eólica contribui com outros 80 mil postos de trabalho. Esses números demonstram o potencial da transformação de ativos sustentáveis como motor de desenvolvimento econômico e geração de emprego.
O ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, enfatizou durante reunião do G20 que o Brasil quer ser exemplo de transição energética, destacando que o país já ajustou metas climáticas e reduziu o desmatamento da Amazônia. A declaração reforça o compromisso nacional com a criação de empregos verdes e desenvolvimento sustentável.
O cenário atual demonstra que a consciência ambiental dos brasileiros evoluiu significativamente, mas ainda enfrenta desafios para se consolidar plenamente. A combinação entre engajamento popular, especialmente das gerações mais velhas, com investimentos em crédito de carbono e políticas públicas voltadas para a economia verde, aponta para um futuro onde sustentabilidade e prosperidade econômica caminham juntas. O sucesso dessa transição dependerá da capacidade de tornar produtos e práticas sustentáveis acessíveis a todas as camadas da população, garantindo que a ação climática seja inclusiva e transformadora.