93% dos brasileiros querem que governo faça mais para reduzir desmatamento
Estudo revela amplo apoio populacional para proteção ambiental e confiança em povos indígenas como guardiões.
O estudo, que ouviu 17 mil pessoas em diversos continentes, posiciona o Brasil em destaque na consciência ambiental global. Foto: Canva
Uma nova pesquisa internacional revelou que a população brasileira demonstra apoio massivo às políticas de proteção florestal, com 93% dos entrevistados acreditando que o governo deveria intensificar suas ações contra o desmatamento. O levantamento, conduzido pelo instituto Opinium e divulgado pelo Greenpeace Brasil, chega em momento estratégico, às vésperas da Pré-COP que acontece em Brasília, preparando o terreno para as discussões que dominarão a conferência climática em Belém no próximo ano.
O estudo, que ouviu 17 mil pessoas em diversos continentes, posiciona o Brasil em destaque na consciência ambiental global. Além dos 93% que demandam maior ação governamental, 92% dos brasileiros consideram a proteção das florestas como elemento fundamental no enfrentamento da crise climática. Esses números superam até mesmo a média internacional, onde 82% dos entrevistados globais afirmam que seus governos não fazem o suficiente para combater o desmatamento.
A pesquisa abrangeu uma diversidade de nações, incluindo potências econômicas e países em desenvolvimento. Entre os participantes estavam Argentina, Austrália, Canadá, Colômbia, Dinamarca, França, Alemanha, Indonésia, Quênia, Malásia, Países Baixos, África do Sul, Coreia do Sul, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos. Essa amplitude geográfica oferece um panorama global das percepções sobre a urgência da proteção ambiental, especialmente significativo quando o Brasil se prepara para sediar a maior conferência climática do planeta.
Povos indígenas emergem como protagonistas da conservaçãoUm dos aspectos mais reveladores da pesquisa diz respeito ao reconhecimento do papel dos povos indígenas na proteção florestal. No Brasil, 80% dos entrevistados confiam mais nas comunidades indígenas do que em qualquer outra entidade para defender as florestas . Esse índice supera significativamente a confiança depositada em governos nacionais (49%) e empresas privadas (42%).
Kleber Karipuna, coordenador executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), interpretou os resultados como uma validação do trabalho histórico dessas comunidades. Segundo o líder indígena, os dados confirmam o que a ciência já havia comprovado: os povos originários são os verdadeiros guardiões da floresta, e a demarcação e proteção de seus territórios é crucial para o combate ao desmatamento e à crise climática global.
A pesquisa também identificou um consenso sobre a necessidade de cooperação internacional. Cerca de 77% dos entrevistados apoiam que os países trabalhem juntos através de acordos internacionais para acabar com o desmatamento global . Além disso, 75% concordam que os governos devem se comprometer com um novo plano de ação global para deter a destruição dos ecossistemas.
COP30 mobiliza investimentos bilionários em BelémEnquanto a sociedade civil demonstra seu apoio à agenda ambiental, o governo brasileiro intensifica os preparativos para receber a COP30. Com investimentos de aproximadamente R$ 4,7 bilhões, provenientes do Orçamento Geral da União, BNDES e Itaipu, Belém passa por uma transformação estrutural sem precedentes para receber mais de 60 mil pessoas, incluindo chefes de Estado, diplomatas, empresários, investidores e ativistas de 193 países.
A conferência, programada para ocorrer entre 10 e 21 de novembro de 2025, representa um marco histórico por ser a primeira COP realizada no coração da Amazônia. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou o simbolismo da escolha: pela primeira vez, as discussões sobre a floresta amazônica acontecerão dentro dela própria, permitindo que o mundo veja de perto a realidade dos povos indígenas e ribeirinhos que habitam a região.
A infraestrutura urbana de Belém está sendo completamente modernizada. Entre as principais obras estão o Mercado São Brás, com mais de 90% das reformas concluídas, e o Porto Futuro II, complexo que abrigará um polo de bioeconomia e se tornará novo ponto turístico da cidade. A cúpula de chefes de Estado está marcada para os dias 6 e 7 de novembro, enquanto as demais atividades se estenderão até o dia 21.
Desafios logísticos e compromissos ambientaisApesar dos avanços, a organização enfrenta desafios significativos. A questão da hospedagem tem gerado preocupações, com grupos de países pressionando o Brasil a oferecer alternativas aos valores considerados abusivos. Em resposta, o governo disponibilizou uma plataforma com 2,7 mil quartos, além de 2,5 mil quartos individuais voltados especialmente para Países Menos Desenvolvidos e Pequenos Estados Insulares.
Carolina Pasquali, diretora-executiva do Greenpeace Brasil, enfatizou a importância do momento para a diplomacia climática global. Segundo ela, o apoio público esmagador envia uma mensagem poderosa aos governos antes da COP30, exigindo que os líderes mundiais ajam de acordo com suas responsabilidades morais, legais e políticas para acabar com o desmatamento e manter a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C.
A Pré-COP, realizada em Brasília nos dias 13 e 14 de outubro, serviu como última grande rodada de negociações antes do evento principal. O encontro resultou no anúncio do Compromisso de Belém pelos Combustíveis Sustentáveis, iniciativa que pretende quadruplicar a produção e uso de hidrogênio, biogases, biocombustíveis e combustíveis sintéticos.
Responsabilidade corporativa e financiamento climáticoA pesquisa também abordou a responsabilidade do setor privado na proteção ambiental. Segundo 72% dos entrevistados, as empresas devem ser legalmente obrigadas a garantir que seus produtos e cadeias de suprimento estejam livres de desmatamento. Essa demanda ganha relevância especial considerando o papel do setor financeiro no financiamento de atividades que impactam as florestas.
O Greenpeace Brasil tem atuado ativamente nessa frente, pressionando instituições financeiras a adotarem critérios ambientais mais rígidos. Após dez meses de mobilização através da campanha "Bancando a Extinção", o Banco do Brasil anunciou novos critérios socioambientais para concessão de crédito rural, incluindo a restrição de crédito para imóveis com qualquer tipo de embargo ambiental.
Ana Toni, diretora executiva da COP30, destacou a repercussão positiva da proposta brasileira de criação do Fundo de Florestas Tropicais para Sempre (TFFF). O fundo de US$ 125 bilhões em investimentos mistos visa finalizar investimentos de financiadores soberanos até a COP30 para começar pagamentos que recompensem a conservação florestal em países tropicais a partir de 2026.
Transformação sustentável como legado permanenteA preparação para a COP30 vai além da infraestrutura física, abrangendo também a capacitação da população local. Cursos profissionalizantes e de idiomas estão sendo oferecidos para preparar os moradores de Belém para as oportunidades que surgirão com o evento. Valter Correia, secretário extraordinário da COP30, enfatizou que os investimentos representarão um legado duradouro para a população, especialmente as obras de macrodrenagem que melhorarão a qualidade de vida em áreas carentes de saneamento básico.
A sustentabilidade permeia todos os aspectos dos preparativos. Projetos de energia renovável, gerenciamento de resíduos e preservação ambiental estão sendo implementados para minimizar o impacto ecológico do evento, transformando Belém em exemplo de desenvolvimento sustentável e infraestrutura moderna. Uma consultoria especializada foi contratada para garantir que as ações de sustentabilidade façam parte de todo o escopo da conferência.
O calendário temático da COP30 foi estruturado para abordar questões transversais. Entre os temas programados estão adaptação, cidades, infraestrutura, água, resíduos, bioeconomia, economia circular, turismo, saúde, empregos, educação, cultura, justiça e direitos humanos. Essa abordagem multidisciplinar reflete o entendimento de que a crise climática demanda soluções integradas que considerem aspectos sociais, econômicos e ambientais.
A escolha de Belém como sede não é apenas simbólica, mas estratégica. A decisão reflete o compromisso do Brasil em posicionar a Amazônia como protagonista no debate climático, destacando sua importância como o maior reservatório de biodiversidade e regulador climático do planeta. A conferência permitirá que o Brasil demonstre seus esforços em áreas como energias renováveis, biocombustíveis e agricultura de baixo carbono, reforçando sua atuação histórica em processos multilaterais.
Os resultados da pesquisa chegam em momento crucial para a diplomacia ambiental brasileira. A retomada do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm) tem sido apontada como principal responsável pela redução de 30,6% no desmatamento na região, demonstrando que políticas públicas efetivas podem gerar resultados concretos na proteção florestal.