Desenvolvimento sustentável encalha em 60% dos municípios brasileiros

Índice mostra desigualdade regional e desafios para alcançar metas da ONU até 2030

Por Direto da Redação-
8 Min

Desenvolvimento sustentável encalha em 60% dos municípios brasileiros
Jovens brasileiros enfrentam desafios para conciliar estudo e trabalho em contexto de desenvolvimento sustentável estagnado. Foto: Canva

A realidade dos municípios brasileiros revela um cenário preocupante no que diz respeito ao desenvolvimento sustentável. Dados recentes apontam que aproximadamente 60% das cidades do país permaneceram estagnadas ou pioraram seus indicadores socioambientais na última década, expondo desigualdades profundas entre as regiões e comprometendo o cumprimento dos compromissos internacionais assumidos pelo Brasil com a Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas.

O levantamento mais recente do Instituto Cidades Sustentáveis analisou informações de todas as 5.570 cidades brasileiras, utilizando dados oficiais de instituições como IBGE, Datasus e Inep. A pesquisa se baseia nos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecidos pela ONU em 2015, mensurando 100 indicadores que abrangem aspectos socioeconômicos e ambientais fundamentais para a qualidade de vida da população.

Entre os dados mais alarmantes está a situação das juventudes brasileiras. Pedro Lucas Mendonça, estudante de 18 anos, representa milhões de jovens que enfrentam dificuldades similares. Com quase 24 quilômetros separando sua faculdade do antigo local de trabalho, ele precisava utilizar nove ônibus diariamente, tornando impossível conciliar educação e emprego. "Tenho dependido muito dos meus pais, do auxílio que minha mãe recebe e do salário do meu pai", relata o jovem, exemplificando uma realidade compartilhada por cerca de 14,2% dos jovens entre 15 e 29 anos que se encontram desempregados no país.

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Desigualdade regional marca o desenvolvimento brasileiro

A análise territorial demonstra que nenhuma cidade brasileira alcançou pontuação superior a 80 pontos numa escala de 0 a 100, classificação considerada como muito boa pelos especialistas. Entre as 100 cidades com melhor desempenho, 99 estão concentradas nas regiões Sul e Sudeste, sendo 90 no Sudeste e 9 no Sul. Em contrapartida, as 100 piores classificações pertencem exclusivamente às regiões Norte, com 54 municípios, e Nordeste, com 46.

A Amazônia Legal enfrenta desafios particularmente graves. Das 773 cidades que compõem a região, impressionantes 700 despejam esgoto sem tratamento diretamente em rios, mares e córregos, comprometendo drasticamente a qualidade de vida local e os ecossistemas aquáticos. Essa situação contribui diretamente para indicadores preocupantes de saúde pública na região.

Jorge Abrahão, coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis, destaca que a expectativa de vida na Amazônia Legal é significativamente inferior à de outras regiões brasileiras. "A idade média ao morrer na Amazônia é mais baixa em comparação com outras áreas do país. Com a aproximação da COP30, a Amazônia se torna o centro das atenções mundiais. Melhorar as condições das cidades amazônicas significa avançar nos desafios de preservação das florestas e da biodiversidade, fundamentais tanto para nosso país quanto para o planeta", afirma.

Juventude enfrenta barreiras no mercado de trabalho

O desemprego juvenil representa um dos indicadores mais críticos do estudo. Aproximadamente 10,3 milhões de brasileiros entre 15 e 29 anos não estudam nem trabalham, situação conhecida como "nem-nem". Esse contingente representa 21,2% dessa faixa etária, evidenciando um problema estrutural que compromete o futuro de uma geração inteira.

A disparidade social se manifesta de forma ainda mais cruel quando analisada sob a perspectiva de renda e raça. Entre os domicílios com menor rendimento, quase metade dos jovens (49,3%) está fora do sistema educacional e do mercado de trabalho. Nos lares mais ricos, esse percentual cai drasticamente para apenas 7,1%. Mulheres pretas e pardas representam 45,2% dos jovens em situação de vulnerabilidade, seguidas por homens pretos e pardos com 23,4%, enquanto mulheres brancas correspondem a 18,9% e homens brancos apenas 11,3%.

A informalidade também marca a inserção dos jovens no mundo do trabalho. Durante o período entre 2012 e 2018, mais da metade dos jovens de 15 a 29 anos (53%) ingressou no mercado através de empregos informais, comprometendo suas trajetórias profissionais e acesso a direitos trabalhistas básicos. Essa realidade reflete desafios estruturais que exigem políticas públicas específicas e investimentos em educação e qualificação profissional.

Avanços recentes e perspectivas para o futuro

Apesar do cenário desafiador revelado pelos dados anteriores, informações atualizadas do Índice de Desenvolvimento Sustentável das Cidades (IDSC-BR) de 2025 trazem sinais de melhora. A média nacional subiu para 49,9 pontos, representando um avanço em relação aos 46,7 pontos registrados em 2024. Essa elevação marca a primeira inflexão positiva em uma década, segundo especialistas.

Em 2025, 47% dos municípios alcançaram classificação média, enquanto 45,7% permaneceram com índices baixos. Embora nenhuma cidade tenha atingido o nível muito alto, 3% conseguiram classificação alta e 3,8% ainda se encontram com índices muito baixos. São José dos Campos (SP), São Paulo e Brasília lideram entre as grandes cidades, com pontuações de 58,3, 57,9 e 57,6 respectivamente, enquanto Belém, Maceió e São Luís registram os menores índices, variando entre 40,1 e 42,2 pontos.

O Brasil assumiu compromissos importantes com a ONU para alcançar as metas de desenvolvimento sustentável até 2030. Jorge Abrahão ressalta que o desafio é tão complexo que demanda integração efetiva entre diferentes esferas governamentais. "O Governo Federal é responsável por muitos investimentos nos municípios. Os governos estaduais também se relacionam e, finalmente, os governos locais definem seus próprios investimentos. Essa articulação é fundamental para o sucesso", explica.

COP30 como oportunidade de transformação

A realização da COP30 em Belém, entre 10 e 21 de novembro de 2025, representa uma oportunidade histórica para o Brasil demonstrar liderança na agenda climática global. O evento, que receberá mais de 60 mil participantes de 193 países, colocará a Amazônia no centro dos debates sobre mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável.

O investimento federal para os preparativos da conferência ultrapassa R$ 4,7 bilhões, incluindo recursos do Orçamento Geral da União, BNDES e Itaipu. As obras de infraestrutura, mobilidade urbana e saneamento básico deixarão um legado importante para a população local, especialmente em áreas carentes desses serviços essenciais.

Valter Correia, secretário extraordinário da COP30, enfatiza que a sustentabilidade permeia todos os aspectos da preparação do evento. "Estamos contratando consultoria especializada para garantir que as ações de sustentabilidade façam parte de todo o escopo da conferência. As melhorias em macrodrenagem, por exemplo, trarão qualidade de vida duradoura para áreas historicamente negligenciadas", destaca.

A Declaração das Cidades pelo Clima na COP30 elenca dez ações prioritárias para enfrentar a crise climática nos territórios urbanos. Entre elas estão o cuidado com recursos naturais essenciais como ar, água e solo; a gestão eficiente de riscos climáticos; a expansão de áreas verdes; o estímulo a compras públicas sustentáveis; o tratamento adequado de resíduos sólidos; e a promoção da educação ambiental, agricultura local e justiça climática.

Transformação de ativos sustentáveis e bioeconomia

A conferência também destacará o potencial da região amazônica para o desenvolvimento de uma economia verde baseada em ativos sustentáveis. A transformação de ativos ambientais em instrumentos econômicos, incluindo Certificados de Ação Climática em formato NFT, representa uma oportunidade para valorizar a floresta em pé e remunerar comunidades tradicionais pela preservação ambiental.

O Brasil busca se posicionar como protagonista nas discussões sobre financiamento climático, especialmente no contexto do "Mapa do Caminho de Baku a Belém para 1,3T", que propõe mobilizar pelo menos US$ 1,3 trilhão anuais até 2035 para financiar ações climáticas em países em desenvolvimento. Essa iniciativa é fundamental para viabilizar a transição energética e a descarbonização da economia, especialmente na Amazônia Legal, onde a geração de energia ainda depende largamente de combustíveis fósseis.

A integração de políticas públicas surge como elemento crucial para reverter o quadro de estagnação no desenvolvimento sustentável. O desafio passa por equilibrar as necessidades imediatas de desenvolvimento econômico com a preservação ambiental e a garantia de vida digna para os 37 milhões de habitantes da Amazônia. A construção de um novo modelo de desenvolvimento, que valorize a biodiversidade e promova a inclusão social, torna-se imperativa para o cumprimento dos compromissos internacionais e a melhoria efetiva da qualidade de vida nas cidades brasileiras.


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