COP30: presidente diz que meta de US$ 1,3 tri não sai em Belém

Em Brasília, André Corrêa do Lago afirma que o financiamento climático exigirá avanços além da COP30 e aposta em forte participação privada.

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
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mbaixador André Corrêa do Lago ao lado da Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva.Foto: Marcelo Camargo - Agência Brasil

O embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, foi direto: a conferência marcada para novembro, em Belém (PA), não deverá anunciar a mobilização de US$ 1,3 trilhão por ano para ações climáticas. Ao participar do “CNN Talks – COP30”, em Brasília, ele afirmou que a ambição permanece, mas o cronograma realista é mais longo. A sinalização é importante: consolida expectativas e ajusta o foco para medidas concretas que aumentem o fluxo de recursos ao longo dos próximos anos, dentro do chamado Caminho de Baku a Belém.

Segundo o diplomata, o setor privado é peça-chave para fechar essa conta, com potencial de multiplicar em até 25 vezes os aportes em países em desenvolvimento. Em paralelo, bancos multilaterais de desenvolvimento (MDBs) teriam condições de dobrar ou triplicar sua capacidade de empréstimos com reformas e novos instrumentos. O objetivo estratégico permanece: alcançar US$ 1,3 trilhão/ano até 2035, meta que ganhou corpo desde a COP29 e orienta o roteiro liderado pelas Presidências de COP29 e COP30. 

A fala de Corrêa do Lago acontece quando Belém se prepara para receber a conferência de 10 a 21 de novembro de 2025, evento que deve priorizar financiamento, transição energética e Amazônia. O calendário oficial e os “Thematic Days” reforçam a intenção de transformar compromissos em implementação, conectando governos, empresas e sociedade civil. 

O que é o Caminho de Baku a Belém

O Caminho de Baku a Belém é um roteiro técnico-político para escalar recursos em financiamento climático rumo a 2035. A iniciativa foi estruturada após decisões em 2024 e vem sendo detalhada por organismos internacionais, centros de pesquisa e governos. A UNFCCC descreve o roteiro como um esforço para ampliar financiamento a países em desenvolvimento, com instrumentos não onerosos, concessões e medidas para criar espaço fiscal. Documentos técnicos sugerem reformas em notas de crédito, seguros, alavancagem de MDBs e sinais de política que atraiam capital privado em larga escala. 

Relatórios recentes de instituições como a Climate Policy Initiative (CPI) e a OECD ajudam a calibrar a régua: o mundo já movimentou cerca de US$ 1,3 trilhão anuais em 2021/22 (soma global, majoritariamente mitigação), mas o que chega aos países em desenvolvimento ainda é insuficiente frente às necessidades. Estimativas indicam que economias emergentes e em desenvolvimento precisam de US$ 2,3 a 2,5 trilhões/ano até 2030 (excluindo a China) para metas climáticas e desenvolvimento resiliente. 

O compromisso pós-COP29 e a régua de 2035

Na COP29, países concordaram em triplicar a meta coletiva mínima para US$ 300 bilhões anuais até 2035, ao mesmo tempo em que convocaram todos os atores a trabalharem para US$ 1,3 trilhão/ano no mesmo horizonte — a referência que informa o Caminho de Baku a Belém e embasa o debate que o Brasil levará adiante na COP30. Em outras palavras: há um piso (US$ 300 bi) e uma ambição sistêmica (US$ 1,3 tri), com ênfase em mobilização privada, MDBs e inovação financeira. 

A discussão também não está isolada. Ministros de Finanças vêm propondo ajustes regulatórios e de risco para viabilizar o capital, com destaque para reformas que reduzam o custo do dinheiro e expandam garantias. Relatos recentes apontam a apresentação de um plano de ministros para viabilizar US$ 1,3 trilhão/ano, alinhado ao roteiro Baku-Belém — mais um sinal de que a agenda de finanças e clima saiu do nicho ambiental e entrou no coração da política econômica

Por que “não vamos ver US$ 1,3 tri em Belém” — e por que isso importa

A fala de Corrêa do Lago reconhece o descompasso entre necessidade e capacidade imediata de entrega. Há entraves estruturais: custo de capital elevado em países do Sul Global, risco cambial, pipelines de projetos ainda incipientes em setores de adaptação, além de barreiras regulatórias. Documentos técnicos ligados ao roteiro ressaltam esses gargalos e apontam soluções graduais: de-risking (redução de risco), garantias soberanas, moedas locais, fundos-ponte, novos blends público-privados e reformas nos bancos multilaterais para alavancar empréstimos sem comprometer grau de rating.

Ao trazer transparência sobre o que é factível anunciar em novembro, o presidente da COP30 evita frustrações e recalibra a atenção para entregas de processo: um relatório técnico no fim de outubro com caminhos para elevar os investimentos dos atuais ~US$ 300 bilhões/ano na direção de US$ 1,3 trilhão/ano; alinhamento com ministros de finanças; e pactuações operacionais com MDBs e investidores. 

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Se a conta pública não fecha sozinha, a escala terá de vir de capitais privados. A avaliação de Corrêa do Lago aponta para multiplicação por 25 dos aportes privados em países em desenvolvimento, reforçando a tese de que sinais de política (como metas claras, preço de carbono, leilões de energia limpa e padronização de riscos) destravam capex. O desenho inclui blended finance (combinação de recursos públicos e privados), fundos de garantia, seguros paramétricos e reformas de governança nos MDBs. 

Há contexto adicional: líderes econômicos internacionais já falam em trilhões por ano para sustentar a transição global, com chamadas explícitas para que MDBs ampliem missão e alavancagem. O diagnóstico converge: sem o privado, não há escala possível. 

Onde a COP30 pode avançar

Belém será o palco para costurar convergências entre diplomacia, finanças e implementadores. Entre as frentes com alto potencial de entrega estão:

  • Detalhamento do Roteiro Baku-Belém com medidas específicas para reduzir riscos e padronizar instrumentos — inclusive em moeda local. UNFCCC+1

  • Alinhamento com MDBs para expandir a capacidade de empréstimos e otimizar capital com ajustes regulatórios. Center for Climate and Energy Solutions

  • Métricas de progresso para acompanhar a trajetória entre US$ 300 bi e US$ 1,3 tri até 2035, ancoradas no NCQG (nova meta coletiva quantificada). UNFCCC+1

  • Integração com a agenda amazônica, reforçando bioeconomia, combate ao desmatamento e adaptação em territórios vulneráveis — áreas com enorme potencial de alavancar financiamento se houver projetos bancáveis e governança robusta. COP30 Brasil Amazônia

E o Brasil nessa história?

O Brasil, anfitrião da COP30, tem chance de liderar a conversa sobre financiamento climático conectando transição energética, bioeconomia amazônica e inovação financeira. Propostas em discussão por ministérios econômicos e parceiros internacionais buscam remover gargalos — de rating a seguros — para baixar custo de capital e atrair investimento. Ao mesmo tempo, a diplomacia brasileira trabalha para amadurecer o NCQG e estruturar a trajetória até 2035.

Nesse ecossistema, plataformas de mercado de ativos sustentáveis e mecanismos de transformação de ativos podem ajudar a canalizar recursos para projetos rastreáveis e auditáveis, com transparência e impacto mensurável — de créditos de carbono e biodiversidade a energia renovável. Iniciativas que emitam Certificados de Ação Climática em formato NFT e adotem blockchain para imutabilidade e rastreabilidade tendem a reduzir assimetria de informação, mitigar greenwashing e aumentar a confiança de investidores institucionais e varejo qualificado, fortalecendo o pipeline de projetos no país e na região amazônica.

O que observar até novembro

Até a abertura da conferência, Belém deve ganhar destaque com uma programação temática extensa, voltada à implementação. Os próximos passos incluem: a publicação do relatório técnico mencionado por Corrêa do Lago; novas sinalizações de ministros de finanças; e possíveis compromissos voluntários de coalizões público-privadas para de-risking de projetos verdes em países do Sul. A régua para 2035 permanece: US$ 300 bilhões/ano como piso e US$ 1,3 trilhão/ano como destino — mais maratona do que sprint. 

No curtíssimo prazo, não haverá anúncio mágico em Belém. Mas a clareza sobre os caminhos — reformas, métricas, instrumentos e governança — pode ser o verdadeiro avanço da COP30, criando bases para que o dinheiro certo chegue na escala certa, no lugar certo e no tempo certo.

Financiamento climático: o que está em jogo 

A expansão do financiamento climático é vital para impulsionar a adaptação, reduzir emissões e proteger vidas em países mais vulneráveis. A UNFCCC e estudos independentes estimam necessidades trilionárias anuais até 2030, muito além do que as fontes públicas hoje conseguem prover. Em 2022, o volume provido e mobilizado por países desenvolvidos ficou em US$ 115,9 bilhões, o que reforça a lacuna a ser preenchida com capitais privados e inovação de instrumentos. Belém pode ser onde as engrenagens finalmente se alinham