EUA batem recorde de custos com desastres ambientais no 1º semestre
Incêndios e tempestades puxam perdas acima de US$ 100 bilhões de dólares em 6 meses
: Chamas avançam sobre área urbana no sul da Califórnia; os desastres bilionários de 2025 expõem custos recordes e a urgência de adaptação às mudanças climáticas. Foto: Reprodução Redes Sociais
O governo Trump interrompeu, neste ano, a atualização de um banco de dados federal que contabilizava o custo de furacões, incêndios e outros eventos extremos de mudanças climáticas que ultrapassavam US$ 1 bilhão em danos por ocorrência. Em resposta, a organização sem fins lucrativos Climate Central relançou a série histórica, recuperando um indicador essencial para seguradoras, pesquisadores e formuladores de políticas públicas.
A versão atualizada do conjunto de dados, divulgada na quarta-feira (22), mostra um cenário inédito: apenas no primeiro semestre de 2025, os Estados Unidos acumularam US$ 101,4 bilhões em prejuízos causados por 14 desastres bilionários. Esse já é o início de ano mais caro já registrado na história americana. O saldo foi impulsionado por incêndios florestais de grandes proporções na região de Los Angeles, em janeiro, e por uma sequência de tempestades severas com tornados, granizo e inundações.
A decisão de resgatar o banco de dados ganhou peso adicional em um momento de redefinição da arquitetura de gestão de desastres no país. Em paralelo à interrupção do painel federal, a administração Trump criou um Conselho de Revisão da FEMA com prazo até meados de novembro para recomendar mudanças no funcionamento da agência — parte de uma diretriz mais ampla de transferir responsabilidades e custos de resposta a desastres para os estados.
Por que a base de desastres bilionários importaO banco de dados — antes mantido pela NOAA e agora sob guarda da Climate Central — é um termômetro da exposição econômica do país ao clima extremo. Ele cataloga eventos com perdas diretas acima de US$ 1 bilhão, ajustadas pela inflação, e traz séries desde a década de 1980. Ao deixar de atualizá-lo, o governo retirou de cena um instrumento de transparência e planejamento, segundo especialistas. A Climate Central afirma ter mantido a mesma metodologia usada pelo governo, com potencial de agregar maior granularidade no futuro.
A relevância pública é evidente: seguradoras, governos locais e pesquisadores usam os dados para calibrar prêmios de risco, orientar obras de resiliência e mensurar tendências. O crescimento de perdas não decorre apenas de eventos mais intensos; também reflete a expansão urbana em áreas vulneráveis a incêndios, alagamentos e tempestades. Caso a série fosse abandonada, afirmam analistas, decisões públicas e privadas ficariam mais expostas a viés e miopia.
O que os números mostram em 2025De janeiro a junho, os EUA somaram 14 eventos que cruzaram a marca do US$ 1 bilhão. O destaque negativo foi o complexo de incêndios em Los Angeles, avaliado em US$ 60 a 61 bilhões — o maior evento de fogo já registrado no país em termos de perdas, com milhares de estruturas danificadas e centenas de mortes indiretas. Na sequência, tempestades severas responderam por mais US$ 40 bilhões em prejuízos, incluindo um surto de tornados entre 14 e 16 de março, que sozinho causou cerca de US$ 10,6 bilhões.
Os dados da Climate Central indicam que o país caminha para um novo patamar de recorrência e intensidade: a média de desastres bilionários, que era de cerca de três por ano nos anos 1980, chegou a 19 por ano na última década. Em 2024, as perdas anuais, ajustadas pelo IPC, haviam atingido um novo pico. A tendência de alta pressiona orçamentos públicos, fundos de catástrofe e a própria disponibilidade de seguros privados.
Ciência do clima: por que os extremos saem mais carosNão há uma única causa para a escalada. Parte do custo vem do crescimento urbano nas interfaces de floresta-cidade e de infraestrutura exposta à elevação do nível do mar. Mas a literatura científica aponta a influência das mudanças climáticas induzidas por humanos: oceanos mais quentes alimentam furacões mais intensos e de rápida amplificação; ar mais quente carrega mais umidade, elevando o risco de chuvas extremas; ondas de calor e secas prolongadas ressecam a vegetação, abrindo caminho para incêndios de rápida propagação. Esses mecanismos explicam por que, mesmo em anos com temporada de furacões relativamente tranquila, a conta de desastres pode explodir por outras vias. ara a sociedade civil
Responsável pelo banco de dados federal por 15 anos na NOAA, o cientista Adam Smith deixou a agência em maio, após o anúncio de que a atualização da série seria descontinuada. Hoje, ele lidera o esforço na Climate Central, prometendo expandir a coleta de dados e incorporar ferramentas de IA para análises mais finas — mantendo, porém, criteriosos ajustes por inflação e a segmentação por tipo de evento. Na avaliação de Smith, o conjunto de dados era “simplesmente importante demais para ficar no limbo”.
A retomada também alinha o trabalho de Climate Central com outras fontes de mercado. Em relatório recente, o Swiss Re Institute estimou US$ 80 bilhões em perdas seguradas globais no 1º semestre de 2025, quase o dobro da média de 10 anos, com forte peso do megaincêndio no sul da Califórnia. A retração de seguradoras em áreas de alto risco já é observada, ampliando lacunas de cobertura e exigindo novas políticas de resseguro e fundos de catástrofe regionais.
Leia Também- Bill Gates defende foco em bem-estar e menos alarmismo climático
- Nova Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono deve impulsionar negócios
- Desequilíbrio entre oferta e demanda de créditos de carbono expõe desafio global
Enquanto a Climate Central retomava a série, o governo federal acelerava um redesenho da FEMA. Um Conselho de Revisão foi instituído em 24 de janeiro de 2025 para propor mudanças na agência, com entrega do relatório até meados de novembro. Paralelamente, declarações públicas do presidente sugerem uma intenção de reduzir o papel federal no financiamento de recuperação e mitigação, repassando mais responsabilidades aos estados. Servidores e especialistas expressaram preocupação com cortes de pessoal, mudanças de foco e recuos em políticas de resiliência.
A depender das recomendações e da ação do Congresso, o país pode ver alterações em subsídios, compartilhamento de custos e regras de elegibilidade. Associações setoriais já montam grupos de trabalho para acompanhar o tema e apresentar contrapropostas. Em qualquer desenho institucional, porém, a contabilidade transparente das perdas continuará sendo insumo básico para planejar infraestrutura resiliente e proteger populações vulneráveis.
A Climate Central planeja publicar, em janeiro de 2026, a consolidação dos dados de 2025, incluindo eventos do segundo semestre. Até aqui, o Atlântico teve uma temporada de furacões surpreendentemente amena para os EUA, mas episódios como as enchentes de 4 de julho no Texas — já sob avaliação para possível inclusão como desastre bilionário — mostram que o risco permanece difuso e multiforme. O histórico recente reforça a urgência: quatro das cinco temporadas de desastres mais caras ocorreram desde 2017.
Para investidores, governos locais e sociedade, o recado é claro: medir com precisão é o primeiro passo para gerir. Sem uma base com série histórica, o debate público se fragmenta e perde de vista o custo real de adiar a adaptação e a mitigação. Com a base restaurada fora do governo federal, abre-se um espaço para parcerias com universidades, seguradoras e plataformas de dados que possam ampliar a qualidade, a abrangência e a auditabilidade das medições.