O planeta segue a caminho de um aquecimento global entre 2,3°C e 2,5°C até 2100, mesmo se todos os compromissos climáticos em vigor forem integralmente cumpridos. O alerta foi feito nesta terça-feira (4) pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), que divulgou a nova edição do Emissions Gap Report. Segundo o documento, as novas promessas nacionais reduziram apenas alguns décimos de grau a projeção em relação ao ano passado — e parte dessa queda se deve a ajustes metodológicos, não a ações concretas.
O Pnuma afirma que o mundo está cada vez mais longe de manter o aquecimento dentro do limite de 1,5°C, objetivo firmado no Acordo de Paris para evitar impactos extremos como secas, elevação do nível do mar e colapso de geleiras. O índice de 1,5°C, diz o relatório, será excedido temporariamente já na próxima década, e reverter esse patamar exigiria cortes de emissões mais rápidos e profundos, além de reduzir a dependência de tecnologias de remoção de CO₂ caras e ainda incertas.
O balanço também registra que até 30 de setembro de 2025 apenas 60 países, responsáveis por 63% das emissões globais, apresentaram ou anunciaram NDCs com metas de mitigação para 2035 — um resultado “muito aquém do necessário” para realinhar a trajetória de aquecimento do planeta. E, além da lacuna de ambição, persiste uma lacuna de implementação: muitos governos não estão no rumo de cumprir sequer as metas de 2030.
Em 2024, a projeção de aquecimento sob as NDCs variava de 2,6°C a 2,8°C; agora, caiu para 2,3–2,5°C. Sob políticas atuais (sem novas promessas), a projeção desceu de 3,1°C para até 2,8°C. O Pnuma, porém, destaca que 0,1°C da melhoria vem de revisão metodológica e que a anunciada saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris em 27 de janeiro de 2026 tende a anular outros 0,1°C, deixando claro que as novas NDCs “mal mexem o ponteiro”.
No pano de fundo dessa desaceleração tímida está um novo recorde de emissões: em 2024, o planeta lançou 57,7 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente, alta de 2,3% frente a 2023. O G20 concentrou 77% das emissões e ainda aumentou sua pegada em 0,7% no ano — um sinal de que os maiores emissores permanecem decisivos para o desfecho climático global.
As Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) são os planos que cada país apresenta à ONU com metas de corte de emissões, adaptação e financiamento climático. Elas funcionam como “a espinha dorsal” do Acordo de Paris: são revisadas periodicamente e, em tese, devem aumentar de ambição a cada ciclo. O Brasil, por exemplo, se comprometeu a reduzir em 53% as emissões até 2030 (em relação a 2005) e zerar emissões líquidas até 2050. O relatório de síntese das NDCs mais recentes, publicado pela UNFCCC, analisou 64 novas submissões registradas entre 1º de janeiro de 2024 e 30 de setembro de 2025. Embora a amostra cubra cerca de um terço das emissões de 2019, a mensagem é inequívoca: falta escala e velocidade.
A “lacuna de emissões” é a diferença entre o que os países prometeram e o que seria necessário para manter o aquecimento abaixo de 2°C e perto de 1,5°C. Pelas contas do Pnuma, mesmo com plena implementação das NDCs, as emissões globais em 2035 cairiam cerca de 15% frente a 2019 — quando seriam necessários 35% para um mundo de 2°C e 55% para 1,5°C com baixa ultrapassagem. Em 2030, o recado é parecido: seria preciso -25% para 2°C e -40% para 1,5°C. O mundo está longe dessas curvas.
O relatório reforça que cada fração de grau evitada reduz o risco de eventos extremos, perdas econômicas e impactos sobre a saúde, com efeitos desiguais: países pobres e vulneráveis sofrem primeiro e mais intensamente. O Pnuma também quantifica o desafio de “desfazer” o aquecimento: seria necessário remover e armazenar cerca de cinco anos de emissões globais atuais de CO₂ para reduzir apenas 0,1°C — um número que evidencia a limitação e o custo das abordagens de remoção frente ao caminho, mais eficaz, de cortar emissões na fonte.
Em 2024, as emissões aumentaram em todos os setores e principais gases, com um protagonista incômodo: desmatamento e mudanças de uso da terra, que explicaram mais da metade do avanço anual. Também houve alta de 1,1% nas emissões de CO₂ fóssil, refletindo demanda energética resiliente e a lentidão da transição para fontes limpas. Entre os grandes emissores, a União Europeia foi a exceção, com queda; Índia e China lideraram os aumentos absolutos, e a Indonésia teve o crescimento proporcional mais acelerado. O G20 respondeu por 77% das emissões globais e, mesmo assim, nove de seus membros não estão no rumo de cumprir as metas de 2030.
Para realinhar a trajetória com Paris, o mundo teria de acelerar cortes já a partir de 2025, diz o Pnuma. No cenário de “mitigação rápida”, as emissões globais caem imediatamente, limitando o “excesso” de aquecimento a 0,3°C e dando 66% de chance de retornar a 1,5°C até 2100. Para isso, as emissões precisariam encolher 26% até 2030 e 46% até 2035, sempre em relação a 2019 — metas que exigem coordenação sem precedentes e uma reforma profunda do sistema financeiro global para mobilizar capital em escala e com custo viável aos países em desenvolvimento.
O Pnuma é explícito: o problema não é técnico, é político. O custo da energia solar e eólica despencou, soluções baixo carbono estão maduras e a curva de aprendizado das renováveis continua caindo. O que falta, na visão da ONU, é vontade política, financiamento acessível e cooperação internacional, especialmente via G20 e mecanismos de financiamento climático. E o ambiente geopolítico atual — com tensões, guerras e disputas comerciais — torna mais difícil coordenar a virada necessária no tempo requerido.
Com a COP30 marcada para Belém em 2025, o Brasil terá papel de anfitrião justamente quando a ciência pede cortes sem precedentes. É a chance de amarrar compromissos mais fortes do G20, garantir financiamento de longo prazo e acelerar a implementação — do combate ao desmatamento à substituição de combustíveis fósseis por renováveis, passando por metano, eficiência energética e reindustrialização verde. O relatório deixa claro que, sem o maior esforço da década, a janela para 1,5°C se estreita ainda mais — e que soluções de transição justa e inclusivas são parte do pacote de governança climática eficaz.
A retirada dos Estados Unidos — formalizada para 27 de janeiro de 2026, conforme o Artigo 28 — pesa politicamente e climaticamente: além de reduzir a ambição global, anula parte do ganho estatístico observado entre as duas edições do relatório (~0,1°C). Como maior emissor histórico e potência tecnológica, os EUA influenciam custos, cadeias de suprimento e normas que aceleram (ou travam) a transição. A continuidade de ações subnacionais e corporativas pode mitigar impactos, mas não substitui a ausência do governo federal num acordo multilateral.
Há um cardápio de medidas que entregam cortes rápidos e baratos: eliminar subsídios fósseis ineficientes, fechar usinas a carvão sem captura, zerar desmatamento, atacar metano de óleo e gás e agropecuária, ampliar eficiência no uso de energia e eletrificar transportes com matriz renovável. Países com energia limpa abundante podem ganhar competitividade ao atrair indústrias intensivas em eletricidade (aço verde, hidrogênio renovável, fertilizantes de baixas emissões), desde que somem governança, financiamento e sinalização regulatória previsível. O Pnuma insiste: as ferramentas existem; falta escala e ritmo.
Novas NDCs até a COP30: a meta é elevar ambição para 2030 e 2035 com planos detalhados de implementação. 2) Financiamento: decisões sobre fundos, bancos multilaterais e garantias para destravar projetos verdes em países emergentes. 3) Metano: curto prazo, alto impacto. 4) Desmatamento: cumprir moratórias e marcos legais é cortar emissões já. 5) Sinalização dos EUA: mesmo fora de Paris por um período, movimentos domésticos e de mercado terão reflexos globais.