Moda no Brasil patina em transparência climática; só 24%
Relatório do Fashion Revolution Brasil revela falhas de transparência climática em 60 grandes marcas; 27 não divulgaram nada no período
A leitura do estudo sugere um setor polarizado: algumas marcas já apresentam relatórios mais robustos; outras, “zeram” grande parte dos indicadores. Foto: Canva
O setor da moda brasileiro entrou no radar às vésperas da COP30 com um alerta desconfortável: a transparência climática ainda é exceção, não regra. Segundo o novo Índice de Transparência da Moda Brasil – Edição Clima, da Fashion Revolution Brasil, a pontuação média entre as 60 maiores marcas de vestuário e calçados que operam no país é de 24%.
Quase metade (27 marcas) não publicou qualquer compromisso, dado ou resultado relacionado ao clima entre janeiro de 2023 e julho de 2025 — um retrato que contrasta com a velocidade dos impactos ambientais já sentidos na economia e nas cadeias de suprimento.
A pesquisa avaliou o quanto essas empresas tornaram públicas informações sobre cinco frentes críticas: rastreabilidade da cadeia, emissões de carbono, descarbonização e desmatamento zero, energia renovável e transição justa. Onde houve mais avanço, foi na divulgação de emissões (40% de transparência média entre as marcas que publicam algo) e na aquisição/uso de energia renovável (33%). O pior desempenho veio em transição justa, com 9% de transparência — e a maioria das companhias zerando nesse quesito.
No ranking geral, as dez marcas mais transparentes foram Renner (76%), Youcom (76%), Adidas (65%), Ipanema (65%), Melissa (65%), C&A (64%), Riachuelo (57%), Malwee (56%), Arezzo (54%) e Reserva (54%).
O top 10, contudo, expõe um teto baixo: nenhuma marca ultrapassa 76%, e a própria média do grupo indica que ainda há um longo caminho entre “contar” e “comprovar” redução real de emissões e desmatamento.
A Fashion Revolution Brasil sublinha que o índice mede transparência, não sustentabilidade. Ou seja, uma empresa pode ter boas práticas e ainda assim não relatá-las — cenário que, no padrão global, já não é visto como aceitável. A comunidade de investidores, reguladores e consumidores tem migrado para padrões internacionais de divulgação, como os do ISSB (International Sustainability Standards Board), que pedem reportes consistentes sobre riscos, oportunidades e métricas de clima.
No Brasil, um marco simbólico desse movimento foi a decisão da Lojas Renner S.A. de publicar, em 2025, o que anuncia ser o primeiro relatório do varejo global totalmente alinhado às IFRS S1 e S2 — normas do ISSB que norteiam a divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade. lojasrennersa.com.br+2lojasrennersa.com.br+2
O que o índice revela (e o que ele cobra)A leitura do estudo sugere um setor polarizado: algumas marcas já apresentam relatórios mais robustos; outras, “zeram” grande parte dos indicadores. Além das 27 que nada divulgaram, um recorte frequente nas matérias sobre o relatório mostra que 80% das avaliadas pontuam menos da metade dos indicadores disponíveis; e só um punhado supera 61%. ]
O recado é que transparência climática ainda não é prioridade estratégica para grande parte do mercado — um risco competitivo em um mundo que exige rastreabilidade e dados primários da cadeia, do algodão ao cabide.
Em emissões, o índice evidencia outro gargalo: apenas 12% das empresas que reportaram mostraram queda real em relação ao próprio ano-base — sinalizando que a distância entre prometer e entregar permanece grande. T
ambém chama a atenção o vazio de compromissos de desmatamento zero: 80% da amostra não assume essa meta publicamente, mesmo com a pressão crescente sobre cadeias associadas a desmatamento direto ou indireto (como o couro e outros insumos de origem agropecuária). Abit
Como cada pilar andouRastreabilidade da cadeia: continua sendo o “calcanhar de Aquiles”. Sem mapear fornecedores diretos e indiretos, não há como medir emissões de Escopo 3 (as da cadeia) com precisão — e sem dados primários, inventários tendem a subestimar impactos. A própria Fashion Revolution Brasil tem reiterado que mais de 60% das marcas no país não divulgam inventários completos de Escopos 1, 2 e 3, prática que já é padrão internacional.
Emissões e descarbonização: a abertura de inventários e metas cresceu, mas ainda é comum ver metas de longo prazo sem planos de transição detalhados (o “como”). A pressão, aqui, vem de investidores e credores que alinham crédito e custo de capital a riscos climáticos.
Energia renovável: o avanço de energia limpa em operações diretas (Escopo 2) tem ajudado algumas marcas a reduzir intensidade de emissões; porém, sem atacar matérias-primas e processos (Escopo 3), o impacto total permanece limitado.
Transição justa: ficou para trás. Planos que considerem trabalhadores, comunidades e fornecedores na virada tecnológica ainda são raros, embora sejam exigência em cadeias globais cada vez mais reguladas.
Quem lidera — e por quêEntre as líderes do ranking, Renner e Youcom (do mesmo grupo) compartilham políticas e governança que ajudam a explicar o desempenho. No último ano, a Renner anunciou ter publicado um relatório alinhado às IFRS S1 e S2, com asseguração e detalhamento de riscos e oportunidades climáticas — um passo que eleva o padrão de transparência no varejo de moda.
C&A, por sua vez, destaca rastreabilidade de fornecedores e protocolos próprios desde a década de 1990; Riachuelo cita auditorias e blockchain para rastrear coleções; o Grupo Azzas (Arezzo e Reserva) aponta projeto de rastreabilidade do couro para mitigar riscos de desmatamento. Esses movimentos mostram que há capacidade técnica instalada para evoluir, mas ainda não no ritmo de um setor inteiro.
A equipe da Fashion Revolution Brasil insiste: transparência é ponto de partida. O que importa, no fim, é redução mensurável de emissões e pressão de desmatamento, gestão de riscos climáticos e transição justa em toda a cadeia. Essa cobrança conversa com tendências regulatórias globais — da UE aos padrões ISSB — e com a expectativa de que marcas comprovem desempenho, não apenas declarem intenções. Para competir com exportadores que já reportam sob regras rígidas, a moda produzida e vendida no Brasil precisará elevar a régua rapidamente.
Para transformar 24% em competitividade climática, especialistas citam quatro movimentos imediatos:
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Inventários completos (Escopos 1, 2 e 3) com dados primários de fornecedores críticos;
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Metas de descarbonização alinhadas à ciência (curto, médio e longo prazos), com planos de implementação e marcos anuais;
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Compromissos de desmatamento zero com rastreabilidade até origem de algodão, couro e químicos;
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Transição justa com indicadores de trabalho decente, capacitação e inclusão de pequenos fornecedores.
O benefício? Menor risco regulatório, acesso a mercados, preferência de investidores e fidelidade do consumidor — além do óbvio: reduzir impacto climático de uma cadeia intensiva em recursos naturais.
Além do avanço de algumas marcas, o ecossistema brasileiro começa a se alinhar a padrões globais. A publicação, por empresas como a Renner, de relatórios integralmente aderentes às IFRS S1 e S2 ajuda a puxar a fila, ao tornar comparáveis os dados, exigir asseguração e dar confiança a investidores. O movimento acompanha a adoção do ISSB em diversos mercados e o reforço de que clima é tema financeiro — logo, material para a estratégia.
COP30 e a vitrine internacionalCom a COP30 em Belém, o mundo olhará para florestas, cadeias agropecuárias e indústria. O varejo de moda pode ser vitrine de boas práticas — ou exemplo de atraso. Elevar o nível de transparência climática antes e depois da conferência é crucial para o Brasil consolidar a narrativa de economia verde com integridade, rastreabilidade e produção limpa.
O índice do Fashion Revolution funciona, aqui, como bússola do que precisa aparecer nas páginas públicas das empresas — e acontecer nos galpões, oficinas e lavouras que vestem o país.