2025 caminha para 2º ou 3º ano mais quente da história segundo a ONU

Boletim aponta recordes de gases de efeito estufa e calor oceânico às vésperas da COP30 em Belém.

Por Por Altair Câmara-
8 Min

A meta de 1,5 °C foi consagrada em Paris (2015) como forma de evitar impactos extremos e tipping points. Foto ilustrativa Canva

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) alertou que 2025 está a caminho de se tornar o segundo ou o terceiro ano mais quente já registrado, mantendo a trajetória de aquecimento extremo que marca a última década. O informe, lançado às vésperas da COP30 em Belém (PA), mostra que a temperatura média global de janeiro a agosto ficou 1,42 °C (±0,12 °C) acima da era pré-industrial. Com isso, 2015–2025 deve consolidar um feito nada animador: os 11 anos mais quentes desde o início das medições, há 176 anos. 

A agência da ONU também relata concentrações recordes de gases de efeito estufa e calor oceânico sem precedentes, reforçando que a escalada de temperatura não é um ponto fora da curva, mas sim o novo padrão do clima.

A OMM confirma que 2024 foi o ano mais quente já observado e que o conteúdo de calor do oceano bateu novo recorde, excedendo 2023 em 16 zetajoules — energia colossal que alimenta tempestades, acelera o derretimento de gelo e eleva o nível do mar. Mais de 90% do excesso de energia do aquecimento global está sendo absorvida pelos oceanos. 

No lançamento do relatório, a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, foi direta: a sequência atual de calor “torna praticamente impossível” manter o aquecimento limitado a 1,5 °C **sem um excesso temporário acima do limite; ainda assim, a ciência indica que é possível trazer as temperaturas de volta abaixo de 1,5 °C até o fim do século com cortes rápidos e profundos de emissões.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, também citou o estudo em Belém e alertou: cada ano acima de 1,5 °C “afetará severamente as economias” e ampliará desigualdades, exigindo ação “rápida e em larga escala” para encurtar o período de excesso e rebaixar as temperaturas novamente. 

Aquecimento global em números: por que 2025 assusta

A temperatura média global medida pela OMM no período jan–ago/2025 ficou 1,42 °C acima da linha pré-industrial, pouco abaixo do recorde 1,55 °C de 2024, mas suficiente para manter 2025 entre os mais quentes da série. Além disso, 2015–2025 deve fechar como a década mais quente já registrada, com 2023–2025 compondo o trio de anos mais quentes, um atrás do outro — um “clímax” da tendência que os cientistas acompanham desde o início do século.

A OMM registra ainda que CO₂, metano (CH₄) e óxido nitroso (N₂O) atingiram novos picos. Em 2024, o CO₂ alcançou 423,9 ppm, com um salto recorde de 3,5 ppm em um ano — a maior alta desde 1957, quando começaram as medições modernas em redes como Mauna Loa (EUA) e Kennaook/Cape Grim (Austrália). O avanço é coerente com a aceleração do uso de combustíveis fósseis e a perda de eficiência de sumidouros naturais em alguns biomas. 

O nível do mar mantém a tendência de aceleração observada na era de satélites. Relatórios recentes apontam ritmo substancialmente mais alto na última década, impulsionado por derretimento de geleiras e expansão térmica do oceano. Em 2024, o conteúdo de calor oceânico foi novamente recorde, o que retroalimenta extremos climáticos e pressões costeiras

Às vésperas da COP30: o que o sinal da OMM exige

O boletim da OMM foi publicado às portas da COP30 e funciona como base científica para orientar decisões em Belém. O recado: o mundo está fora da rota do Acordo de Paris, e ações de curto prazo — cortes de emissões, fim do desmatamento, expansão de renováveis, adaptação e financiamento climático — precisam ganhar velocidade e escala. Guterres reforçou na cúpula de líderes: falhar no 1,5 °C seria “falha moral”, e o período de excesso acima do limite deve ser o menor e mais curto possível.

A fotografia mais ampla inclui o termômetro da economia: eventos extremos estão pressionando orçamentos públicos, cadeias produtivas e infraestruturas críticas. Ao mesmo tempo, sistemas de alerta precoce se expandiram para 119 países em 2024, contra 56 em 2015 — avanço que salva vidas, mas ainda deixa 40% da população mundial sem cobertura adequada para reagir com antecedência. 

Calor nos oceanos, gelo em retração e nível do mar em alta

Os oceanos absorvem mais de 90% do excesso de calor, o que intensifica tempestades tropicais, acelera o derretimento polar e eleva o mar. Entre 2023 e 2024, o oceano ganhou +16 ZJ de energia, repetindo o padrão de que cada ano recente bate o recorde anterior.

A perda de massa de geleiras nos últimos três anos está entre as maiores já registradas, enquanto as extensões de gelo no Ártico e na Antártida permanecem bem abaixo da média histórica. Em 2024, o nível médio global do mar atingiu novo máximo na série por satélite. 

A OMM também chama atenção para o papel de El Niño/La Niña, que modulam parte da variabilidade interanual: após o El Niño 2023–2024, o clima entrou em neutralidade e pode oscilar para La Niña em 2025, o que tende a reduzir ligeiramente a anomalia térmica global em relação a 2024 — sem, porém, reverter a tendência de longo prazo causada pelo acúmulo de gases de efeito estufa. 

Por que 1,5 °C continua sendo o norte — mesmo com excesso temporário

A meta de 1,5 °C foi consagrada em Paris (2015) como forma de evitar impactos extremos e tipping points. A OMM e a ONU reconhecem que, nos próximos anos, o planeta poderá exceder esse limite em média anual — sobretudo em função da força acumulada do aquecimento e dos feedbacks do sistema climático.

A estratégia, defendem os cientistas, é encurtar esse período de excesso e puxar as temperaturas para baixo por meio de cortes rápidos de emissões, proteção florestal, eletrificação, eficiência, reflorestamento e, complementarmente, remoção de CO₂ de forma responsável. 

Para a COP30, sediada em Belém, o relatório da OMM dá lastro científico a decisões sobre mitigação, adaptação e financiamento. No front financeiro, as presidências da COP29 e COP30 apresentaram o Roteiro Baku–Belém, que ambiciona mobilizar ao menos US$ 1,3 trilhão/ano até 2035. O plano acena com novas fontes de receita (como taxas internacionais sobre aviação e transações financeiras) e reformas no sistema financeiro para baratear o custo do capital e ampliar o acesso de países vulneráveis. Em termos políticos, o relatório da OMM facilita medidas de adaptação e perdas e danos, pressionando por metas verificáveis e monitoramento em tempo real. 

O que observar a partir de agora
  1. Trajetória térmica: se La Niña se firmar e a anomalia de 2025 ficar um pouco abaixo de 2024, a tendência de longo prazo seguirá ascendente enquanto as emissões líquidas não caírem com força. 

  2. Gases de efeito estufa: a confirmação do salto recorde de CO₂ (+3,5 ppm) de 2023 para 2024 indica aceleração inquietante e a necessidade de medidas imediatas contra combustíveis fósseis. 

  3. Oceano e gelo: conteúdo de calor e nível do mar serão termômetros-chave do ritmo de mudança, com impactos duradouros em zonas costeiras e infraestruturas

  4. Políticas na COP30: metas mensuráveis de redução de emissões, adaptação e financiamento climático serão decisivas para encurtar o período de excesso acima de 1,5 °C

O relatório da OMM não deixa espaço para ambiguidades: “os indicadores climáticos continuam soando alarmes” e o mundo está fora da rota de Paris. A utilidade do documento é operacional: orientar governos, empresas e investidores sobre onde e como agir para cortar emissões, proteger pessoas e blindar economias. Para um ano que pode terminar como o 2º ou 3º mais quente da história, a inação custa caro — e o preço sobe a cada mês de atraso.