Brasil consegue US$ 5,5 bilhões para florestas tropicais durante Cúpula de Líderes
Fundo Florestas Tropicais para Sempre reúne 53 países e inaugura novo modelo de financiamento climático que remunera conservação ambiental com justiça para povos indígenas
Em almoço na Cúpula do Clima de Belém, presidente Lula recebe líderes de mais de 30 países. Foto: Alex Ferro/COP30
O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) foi oficialmente lançado nesta quinta-feira (6) durante a Cúpula do Clima de Belém, marcando uma transformação histórica na forma como o mundo financia a conservação ambiental. Com adesão de 53 países e investimentos iniciais que ultrapassam US$ 5,5 bilhões, a iniciativa brasileira inaugura uma nova era de colaboração global entre capital público e privado para proteger os ecossistemas tropicais mais críticos do planeta.
O lançamento reuniu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, líderes de mais de trinta países, o Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, e representantes do Banco Mundial na capital paraense. A cerimônia aconteceu no coração da Amazônia, região que simboliza a urgência climática e abriga aproximadamente um terço das florestas tropicais mundiais.
"É uma iniciativa inédita. Pela primeira vez na história, os países do Sul Global terão protagonismo em uma agenda de florestas", declarou o presidente Lula durante o almoço de lançamento. Ele enfatizou que o TFFF representa uma mudança de paradigma ao reconhecer que "as florestas valem mais em pé do que derrubadas e deveriam integrar o PIB dos nossos países".
Noruega lidera com aporte de US$ 3 bilhõesOs compromissos financeiros anunciados surpreenderam pela magnitude e diversidade de origens. A Noruega assumiu a liderança ao comprometer US$ 3 bilhões para os próximos dez anos, condicionados a critérios específicos de conservação. O compromisso norueguês representa mais da metade dos recursos captados no primeiro dia e consolida o país escandinavo como principal parceiro da iniciativa.
A França indicou investimentos de até US$ 577 milhões até 2030, conforme determinadas circunstâncias. Brasil e Indonésia reafirmaram compromissos de US$ 1 bilhão cada, demonstrando que países em desenvolvimento também assumem papel protagonista no financiamento climático. Portugal anunciou aporte de US$ 1 milhão, enquanto a Alemanha endossou integralmente o TFFF com compromisso financeiro a ser definido em reunião bilateral com o presidente Lula.
"Este é um dia histórico para todo o nosso planeta. Apenas dois anos após a concepção inicial desta ideia, dezenas de países se uniram para apoiar o TFFF", afirmou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Ele destacou que a inovação sem precedentes na arquitetura financeira internacional reunirá capital soberano e privado em um mecanismo robusto e de longo prazo.
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O diferencial do TFFF reside em sua estrutura inovadora que rompe com o modelo tradicional de doações. O fundo funcionará como um mecanismo de investimento que combina retorno financeiro para investidores e benefícios concretos para meio ambiente e sociedade. Não se trata de filantropia, mas de uma lógica de mercado aplicada à conservação.
A meta de médio prazo é alcançar um fundo de US$ 125 bilhões, combinando US$ 25 bilhões em capital soberano de países patrocinadores e US$ 100 bilhões de investidores institucionais privados. A arquitetura híbrida estabelece proporção de 1 para 4: para cada dólar aportado por governos, espera-se mobilizar cerca de quatro dólares do setor privado.
"Não é doação, mas uma iniciativa que opera com lógica de mercado, alavancando recursos privados a partir de investimentos diversos", explicou a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva. Segundo ela, trata-se de uma nova forma de financiar a conservação, com responsabilidade compartilhada e visão de futuro.
Pagamento por resultados monitora preservação via satéliteO mecanismo de funcionamento do TFFF é engenhoso em sua simplicidade. O fundo captará recursos no mercado a juros reduzidos, aproveitando a classificação como ativo de baixo risco. Esses recursos serão reinvestidos em projetos com maior taxa de retorno, gerando lucro. A diferença entre o rendimento obtido e o custo do capital será repassada aos países com florestas tropicais, proporcionalmente à área preservada.
Os pagamentos aos países serão baseados em dados de sensoriamento remoto via satélite que monitoram anualmente a cobertura florestal de forma transparente e de baixo custo. O valor para cada hectare conservado será de US$ 4, mas os repasses poderão ser cortados ou reduzidos com base nos resultados das avaliações.
Foram identificados 74 países elegíveis para se beneficiar do fundo. Juntas, essas nações abrigam mais de 1 bilhão de hectares de florestas tropicais e subtropicais. Áreas verdes que podem receber investimentos substantivos incluem a Amazônia, a Mata Atlântica, a Bacia do Congo, a região do rio Mekong e a ilha de Bornéu, na Ásia.
Justiça climática garante 20% dos recursos para indígenasUma das características mais revolucionárias do TFFF é a alocação obrigatória de pelo menos 20% dos pagamentos para povos indígenas e comunidades locais. A medida representa conquista histórica no reconhecimento do papel essencial desses guardiões na proteção das florestas e marca passo decisivo rumo à equidade climática.
"O TFFF reconhece, com justiça e coragem, o papel essencial dos povos indígenas e comunidades tradicionais na proteção das florestas. Garantir que pelo menos 20% dos recursos cheguem diretamente a esses guardiões é uma conquista histórica", frisou a ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara.
A forma de aplicação dos recursos destinados às comunidades tradicionais será definida pelos governos nacionais em articulação com essas populações, garantindo a soberania dos países e o respeito aos saberes ancestrais. No Brasil, a verba poderá fortalecer iniciativas como o Bolsa Verde, a Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais e ações de incentivo à bioeconomia.
Governança paritária equilibra poder decisórioO sistema de governança do TFFF inova ao estabelecer paridade entre países florestais e investidores no conselho diretor. A estrutura garante que as nações que abrigam florestas tropicais tenham voz equivalente aos países financiadores nas decisões estratégicas do fundo.
"O TFFF reflete a visão diplomática do Brasil, fundada na convicção de que os países tropicais sabem como conservar suas florestas", afirmou o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. Ele destacou que o fundo empodera essas nações ao oferecer fonte estável e de grande escala de recursos para sustentar políticas ambientais de longo prazo.
Não é coincidência que os dois primeiros países a confirmar investimentos no mecanismo sejam nações em desenvolvimento — Brasil e Indonésia. O gesto simboliza mudança no equilíbrio de poder das negociações climáticas, colocando o Sul Global no centro das soluções para a crise ambiental.
Cobertura florestal abrange 90% das florestas tropicaisA adesão expressiva ao lançamento do TFFF demonstra consenso internacional sobre a urgência da ação climática. Ao todo, 34 países com florestas tropicais endossaram a Declaração do fundo, cobrindo quase 90% das florestas tropicais em países em desenvolvimento. Entre os signatários destacam-se Indonésia, República Democrática do Congo e China.
"É com grande satisfação que reunimos, no primeiro dia, países que detêm mais de 90% das florestas tropicais do mundo, incluindo países de todos os continentes e principalmente das três principais bacias que detêm as florestas tropicais: a bacia Amazônica, a bacia do Congo e a bacia do Sudeste Asiático", afirmou o embaixador Maurício Lyrio, secretário de Clima, Energia e Meio Ambiente do Ministério das Relações Exteriores.
Entre os 53 signatários, há 19 potenciais investidores e 34 países em desenvolvimento que seriam beneficiários. Em conjunto, as bacias do Amazonas, do Congo e do Bornéu-Mekong detêm mais de 90% da cobertura de florestas tropicais globais, tornando a adesão desses países fundamental para o sucesso da iniciativa.
Critérios ambientais rigorosos excluem combustíveis fósseisO compromisso ambiental do TFFF vai além da conservação florestal. A alocação de investimentos excluirá atividades com impacto ambiental significativo, como aquelas que causam desmatamento e emissões de gases de efeito estufa. O fundo não investirá em atividades relacionadas a carvão, turfa, petróleo ou gás natural.
"A alocação de recursos deve apoiar, ou ao menos não prejudicar significativamente, os objetivos centrais do TFFF", estabelece a declaração de lançamento. A regra garante coerência entre os meios e os fins da iniciativa, evitando que recursos destinados à conservação acabem financiando indiretamente atividades destrutivas.
O desenho do TFFF foi liderado pelo Brasil em parceria com República Democrática do Congo, Gana, Malásia, Indonésia, Colômbia, Reino Unido, Alemanha, Noruega, França e Emirados Árabes Unidos. O processo de construção contou com valiosas contribuições de povos indígenas e comunidades locais, garantindo que suas perspectivas estivessem incorporadas desde a concepção.
Banco Mundial hospedará secretariado interinoEm outubro, o conselho diretor do Banco Mundial autorizou a instituição a atuar como administradora e hospedar interinamente o Secretariado do TFFF. A decisão confere credibilidade institucional ao fundo e facilita a operacionalização nos estágios iniciais.
Os próximos passos incluem o estabelecimento do Fundo de Investimento Florestas Tropicais (TFIF) em uma jurisdição nacional, abrindo caminho para o início efetivo das operações. O diálogo com investidores potenciais, públicos e privados, continuará até alcançar a meta de US$ 125 bilhões. Investidores filantrópicos também são incentivados a participar.
"O Conselho do Banco Mundial aprovou que irá hospedar o mecanismo financeiro e o Secretariado Interino do TFFF, com base em uma nova filosofia", destacou o presidente Lula. A parceria com instituição de reconhecimento mundial sinaliza seriedade e profissionalismo na gestão dos recursos.
Fundo complementa instrumentos existentes de financiamentoCom estimativas do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) indicando que a proteção e restauração de florestas exigirá mobilização de mais de US$ 66,7 bilhões por ano, o TFFF complementará instrumentos existentes de financiamento florestal e preencherá lacuna crítica no panorama financeiro ambiental.
O fundo funcionará em sinergia com programas como o REDD+ (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação florestal), mecanismo desenvolvido no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima para recompensar financeiramente países em desenvolvimento por resultados na redução de emissões.
"Os fundos verdes e climáticos internacionais não estão à altura dos desafios que a mudança climática nos coloca. Foi com esse senso de urgência que, desde a COP28, reunimos um grupo de países de florestas tropicais e países investidores para desenhar esse mecanismo", afirmou Lula.
Potencial para triplicar orçamentos ambientais nacionaisO TFFF tem potencial para multiplicar em duas ou três vezes os orçamentos dos Ministérios do Meio Ambiente nos países com florestas tropicais. O impacto financeiro pode transformar radicalmente a capacidade desses governos de implementar políticas efetivas de conservação e desenvolvimento sustentável.
"Nós sabemos que as florestas tropicais são fonte da estabilidade climática, porque elas retêm carbono e garantem ciclos hídricos — os rios voadores na Amazônia que conhecemos hoje muito bem no Brasil, por exemplo", explicou André Aquino, assessor especial de Economia e Meio Ambiente do Ministério do Meio Ambiente. "Mais de 80% da biodiversidade terrestre de todo o mundo está nas florestas tropicais."
O ministro norueguês do Clima e Meio Ambiente, Andreas Eriksen, ressaltou durante coletiva de imprensa o avanço da cooperação entre nações. "Começo elogiando o imenso trabalho realizado pelo Brasil para chegarmos ao ponto em que nos encontramos agora. Cria-se valor econômico não ao derrubar uma árvore, mas ao permitir que ela permaneça", afirmou.
Apoio internacional consolida legitimidade da iniciativaO Primeiro-Ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre, declarou apoio enfático à iniciativa. "É fundamental deter o desmatamento para reduzir os impactos das mudanças climáticas e limitar a perda de biodiversidade. Não há tempo a perder se quisermos salvar as florestas tropicais do mundo", afirmou o líder norueguês.
O Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, também endossou o lançamento do fundo. Ele enfatizou que as florestas tropicais são vitais para a "estabilidade climática, biodiversidade, resiliência e paz", reforçando a dimensão multifacetada dos serviços ecossistêmicos prestados por esses biomas.
Ed Miliband, Secretário de Estado para Energia e Mudança Climática do Reino Unido, chamou o TFFF de "brilhante proposta brasileira" que representa "uma solução ousada, inspiradora e extremamente promissora para o futuro". Ele destacou que a iniciativa oferece oportunidade para que Norte e Sul globais trabalhem juntos como coalizão de esperançosos e determinados.
Resolução brasileira garante transparência e rastreabilidadeNo Brasil, a Resolução CONAMA nº 510/2025, publicada em 16 de setembro, estabelece alicerce nacional para o mecanismo ao padronizar as Autorizações de Supressão de Vegetação (ASV). A norma exige transparência ativa, integração de bases de dados e trilhas de auditoria.
"Todo mundo saberá, de forma pública e rastreável, onde houve supressão autorizada, por quanto tempo e sob quais condicionantes", explicam especialistas. A resolução transforma promessa em prática concreta, sistemas integrados, verificação independente e governança com representantes territoriais sentados à mesa de decisões.
A transparência é fundamental para garantir confiabilidade ao mecanismo e evitar questionamentos sobre a efetividade dos pagamentos. O monitoramento por satélite combinado com governança transparente cria sistema de prestação de contas robusto que aumenta a confiança dos investidores e a legitimidade perante a sociedade civil.
Lançamento em Belém simboliza compromisso amazônicoO lançamento do TFFF em Belém carrega profundo significado simbólico. "É simbólico que a celebração do seu nascimento seja feita aqui em Belém, rodeada de sumaúmas, açaizeiros, andirobas e jacarandás. Em poucos anos, poderemos ver os frutos desse fundo. Teremos orgulho de lembrar que foi no coração da floresta amazônica que demos esse passo juntos", destacou o presidente Lula.
A ministra Marina Silva definiu o momento como "um divisor de águas na história da conservação das florestas tropicais. Pela primeira vez, temos um mecanismo global que reconhece o valor dos serviços ecossistêmicos das florestas e oferece incentivos permanentes para sua preservação. É uma conquista coletiva que coloca o Brasil no centro da construção de soluções climáticas duradouras".
O lançamento do TFFF destaca a urgência da ação coletiva para enfrentar a mudança do clima, proteger a biodiversidade e promover o desenvolvimento sustentável nos países com florestas tropicais, reconhecendo o papel fundamental dos povos indígenas e comunidades locais como guardiões milenares desses ecossistemas essenciais.