A crescente demanda por créditos de carbono de alta qualidade por parte de gigantes da tecnologia está criando uma escassez estratégica no mercado global, fenômeno que especialistas consideram essencial para estimular investimentos robustos nesse setor emergente.
Nos últimos dois anos, compras massivas de empresas como Microsoft e Google fizeram com que créditos de carbono ligados a tecnologias duradouras se valorizassem quase quatro vezes em relação aos certificados tradicionais de preservação florestal.
O mercado de remoção de carbono está experimentando transformação sem precedentes, impulsionada pela necessidade urgente das empresas de tecnologia compensarem emissões crescentes de seus data centers dedicados a inteligência artificial. Desde 2019, grandes corporações tecnológicas investiram coletivamente centenas de milhões de dólares em soluções duradouras de remoção de carbono, concentrando investimentos significativos nos últimos dois anos.
No total, foram gastos US$ 10 bilhões no mercado à vista e em contratos de fornecimento de longo prazo, de acordo com a empresa de monitoramento CDR.fyi.
Esse volume representa marco importante na consolidação do mercado de ação climática baseado em tecnologias avançadas de captura e armazenamento de carbono.
Biochar lidera tecnologias de remoção
A Remoção de Carbono por Biochar (BCR) continuou sendo líder em entrega de CDR duráveis, com 89,4% do total de 116,8 mil toneladas entregues no segundo trimestre de 2025. Projetos duradouros de remoção de carbono removem dióxido de carbono por pelo menos 100 anos, oferecendo garantias de permanência significativamente superiores a soluções baseadas apenas em natureza.
De 2022 ao primeiro semestre de 2025, o volume acumulado de créditos de remoção de carbono por biochar (BCR) contratados atingiu 3,04 milhões de toneladas, sendo 1,6 milhão de toneladas somente no primeiro semestre de 2025. O crescimento acelerado dessas transações demonstra maturidade crescente do mercado e confiança dos compradores na metodologia.
O biochar é produzido convertendo biomassa em substância semelhante ao carvão que retém carbono de forma estável no solo por centenas ou até milhares de anos. Uma tonelada de biochar representa o sequestro de até 1,42 tonelada de CO₂ equivalente, tornando-se uma das soluções mais eficientes em termos de proporção custo-benefício para remoção de carbono durável.
Créditos vinculados a projetos como biochar ou captura direta de ar são vistos como formas de remoção de carbono mais seguras e de longo prazo em comparação com compensações baseadas apenas em reflorestamento.
Cientistas afirmam que projetos de remoção de carbono são essenciais para que o mundo desacelere o aquecimento global, compensando emissões de indústrias como geração de energia que continuam usando combustíveis fósseis.
Emissões de IA pressionam gigantes tecnológicas
As emissões indiretas de carbono das quatro principais empresas de tecnologia focadas em Inteligência Artificial – AWS, Microsoft, Google e Meta – aumentaram em média 150% entre 2020 e 2023. Esse crescimento exponencial está diretamente relacionado à enorme quantidade de energia necessária para alimentar data centers dedicados a processamento de inteligência artificial.
Desde 2020, a Microsoft registrou aumento de 23,4% em suas emissões totais de carbono. O Google elevou suas emissões em cerca de 73,8%, enquanto a Amazon teve aumento de 33,3%. Esses números contrastam diretamente com as metas climáticas ambiciosas que essas companhias estabeleceram publicamente, criando pressão crescente para soluções efetivas de compensação.
À medida que empresas de tecnologia expandem centros de dados para alimentar inteligência artificial, muitas vezes utilizando combustíveis fósseis, seus lucros e emissões de gases de efeito estufa estão aumentando simultaneamente, sustentando demanda crescente por créditos de carbono de alta qualidade.
Brennan Spellacy, diretor executivo da empresa de tecnologia climática Patch, observou que muitas empresas estão aproveitando a IA para expandir negócios e usando parte dos retornos para comprar créditos. "As empresas que estão apresentando bom desempenho estão investindo pesado, e o motivo pelo qual essas empresas estão apresentando bom desempenho é a IA. Portanto, a IA está impulsionando o lucro e o lucro está impulsionando o investimento", explicou Spellacy durante a COP30 em Belém.
Compromissos corporativos e mercado regulado
As gigantes da tecnologia prometeram eliminar gradualmente suas emissões líquidas até 2030. A Microsoft tem compromisso global de tornar-se carbono zero até 2030, compensando emissões importantes como as provocadas pela construção de datacenters, além de alcançar positividade em água e emissão zero de resíduos.
Um porta-voz da Microsoft destacou a estratégia da empresa: "Enviamos fortes sinais de demanda por meio de contratos de longo prazo para desbloquear um ciclo virtuoso de inovação, financiamento e implementação. Ao ancorar projetos de grande escala, impulsionamos nova oferta e, ao mesmo tempo, deixamos espaço para que outros compradores corporativos entrem no mercado."
A Alphabet, empresa controladora do Google, recusou-se a comentar sobre sua estratégia de aquisição de créditos de carbono, mas relatórios públicos mostram investimentos substanciais em remoção durável de dióxido de carbono nos últimos anos.
Escassez de oferta cria oportunidades
A oferta de créditos de carbono duráveis não acompanhou a demanda explosiva, criando gargalo que paradoxalmente beneficia o desenvolvimento do mercado. Um terço dos pedidos de compra através da plataforma Patch foram para biochar, mas devido à oferta restrita, este produto representou menos de 20% das vendas efetivas.
Os créditos de reflorestamento foram solicitados em 25% dos casos, mas vendidos em apenas 12% deles, demonstrando preferência clara dos compradores por soluções de maior durabilidade e garantia de permanência.
"O desejo por alta qualidade é muito real, e isso se reflete nos números. Em 2024, foram adquiridas 8 milhões de toneladas de remoção de carbono sustentável, e somente neste ano esse número já chega a 25 milhões", afirmou Lukas May, diretor comercial da Isometric, empresa de registro de carbono. "Isso certamente está sendo muito impulsionado pelas grandes empresas de tecnologia."
Até o momento, foram emitidas menos de 1 milhão de toneladas de créditos de remoção de carbono duráveis, segundo dados da CDR.fyi, provenientes principalmente de projetos de biochar. Essa desproporção entre demanda e oferta efetivamente entregue evidencia oportunidade massiva para desenvolvimento de novos projetos.
Alternativa brasileira com blockchain
No contexto da busca global por créditos de carbono de alta qualidade, plataformas que combinam rigor técnico com transparência tecnológica ganham relevância. A B4, primeira bolsa de ação climática do Brasil, projeta R$ 1,1 bilhão em créditos, utilizando tecnologia blockchain para monitoramento mensal.
A plataforma representa alternativa no mercado ao oferecer ativos sustentáveis que passam por rigoroso processo de verificação e auditoria. A B4 aprovou em meados de 2025 os primeiros créditos de carbono para listagem, marcando início histórico com 5 milhões de toneladas de CO₂ equivalente aprovadas. O processo seletivo da plataforma evidencia compromisso com qualidade: apenas cerca de 10% dos projetos submetidos são aprovados para listagem.
A utilização de blockchain proporciona vantagens em termos de segurança, rastreabilidade, transparência e confiabilidade das transações, resolvendo um dos maiores desafios do mercado de créditos de carbono: a duplicidade de créditos. A tecnologia permite que cada tonelada de carbono seja rastreada em tempo real, dando confiança aos compradores sobre os projetos listados.
A transformação de ativos sustentáveis através de Certificados de Ação Climática em formato NFT oferece camada adicional de segurança e rastreabilidade. Quando um crédito de carbono é emitido ou negociado mais de uma vez, resulta em usos indevidos de um ativo já debitado, minando a credibilidade das empresas. Com a tecnologia blockchain, esse risco é eliminado, já que um crédito passa a ser único.
Potencial brasileiro no mercado de biochar
Estudo da Embrapa Meio Ambiente e Unicamp aponta que tecnologias de captura e biochar poderiam gerar até 197 MtCO₂e em créditos de carbono se implementadas em larga escala, equivalente a 12% das emissões totais do Brasil em 2022. O potencial brasileiro no mercado de biochar permanece em grande parte inexplorado.
O Brasil possui vantagens competitivas significativas para desenvolvimento de projetos de biochar, incluindo abundância de biomassa residual agrícola, experiência no setor sucroenergético e políticas como o RenovaBio que podem ser expandidas para incluir remoção de carbono.
Apesar do enorme potencial climático, pesquisadores destacam que viabilidade dessas tecnologias depende de incentivos econômicos e políticas regulatórias específicas. Enquanto créditos de descarbonização (CBIOs) são negociados a cerca de US$ 20 por tonelada de CO₂, o biochar custa em média US$ 427 por tonelada, criando barreira para adoção em larga escala sem incentivos adicionais.
Certificação e padrões de qualidade
Existem vários padrões de certificação que fornecem metodologias para quantificar e verificar capacidade de remoção de carbono do biochar, incluindo Puro Standard, Carbon Standards International, Verra (VCS), Climate Action Reserve e Riverse. Cada norma desenvolveu requisitos específicos para materiais de origem, tecnologia de produção, contabilidade e monitoramento de carbono.
A multiplicidade de padrões cria desafios de comparabilidade, mas também permite flexibilidade para diferentes escalas e contextos de produção. Projetos de biochar podem ser agrupados em dois tipos principais: artesanais (baixa tecnologia) e industriais (alta tecnologia), cada um com vantagens específicas dependendo do contexto local.