Brasil defende novo modelo econômico na Assembleia da ONU

Taxonomia sustentável reduz greenwashing e orienta investimentos climáticos

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
7 Min

Brasil defende novo modelo econômico na Assembleia da ONU
Cristina Reis, secretária extraordinária do Mercado de Carbono do Ministério da Fazenda no evento da ONU. Foto: Ministério da Fazenda;Divulgação

No coração de Nairóbi, a capital queniana, o Brasil apresentou uma visão transformadora sobre como as nações em desenvolvimento devem lidar com a mudança climática sem abrir mão do crescimento econômico.

Durante a sétima Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEA-7), encerrada na última sexta-feira (12 de dezembro), a Taxonomia Sustentável Brasileira (TSB) foi apresentada como um instrumento central para repensar a arquitetura financeira global, com a participação ativa de Cristina Reis, secretária extraordinária do Mercado de Carbono do Ministério da Fazenda.

A representante brasileira provocou um debate profundo sobre as limitações do conceito tradicional de "resiliência" aplicado aos países em desenvolvimento.

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Em um painel intitulado "A Questão Fundamental: Por que combater a degradação ambiental é crítico para o futuro do sistema financeiro global", Reis questionou modelos que apenas esperam que as nações emergentes se recuperem de choques climáticos e econômicos sem abordar as causas estruturais da vulnerabilidade.

Uma ferramenta além do convencional

Diferente de outras taxonomias existentes no mercado internacional, a Taxonomia Sustentável Brasileira não limita seu escopo apenas a aspectos ambientais.

O instrumento incorpora três objetivos estratégicos principais que refletem as prioridades nacionais brasileiras: mitigação e adaptação às mudanças climáticas, além de redução das desigualdades socioeconômicas com ênfase em aspectos de gênero e raça.

Essa abordagem multidimensional posiciona a TSB como uma das ferramentas mais completas do mundo para orientar investimentos.

Enquanto outras nações focam exclusivamente em descarbonização ou métricas ambientais, o Brasil apresenta uma visão que articula sustentabilidade climática com justiça social — um diferencial que encontra respaldo no contexto internacional de transição para uma economia de baixo carbono.

A taxonomia foi desenvolvida com ampla participação, envolvendo 350 pessoas em um processo robusto de governança.

Um comitê diversificado, reunindo representantes de ministérios, sociedade civil, setor privado, sindicatos, organizações não-governamentais, instituições acadêmicas e think tanks brasileiros, trabalhou para garantir que o instrumento refletisse as realidades econômicas e sociais do país.

Padronizando o mercado de carbono e o crédito de carbono

Atualmente, mais de R$ 400 bilhões em títulos privados circulam no mercado brasileiro com rótulo de "verde" ou sustentável. O desafio: cada ativo segue uma metodologia diferente de avaliação, o que abre brechas para práticas enganosas conhecidas como greenwashing.

A Taxonomia Sustentável Brasileira funciona como um dicionário padronizado para atividades econômicas. Ela estabelece, com base em critérios técnicos e científicos rigorosos, quais projetos e ativos realmente contribuem para objetivos socioambientais e climáticos. Essa clareza é fundamental para construir confiança no mercado.

Quando empresas relatam que investem em ações sustentáveis, precisam agora comprovar que essas ações atendem aos critérios objetivos da taxonomia. Isso significa que consultores, auditores e gestores de fundos têm uma referência clara para avaliar se um projeto ou ativo realmente gera impacto positivo ou se é apenas maquiagem verde.

O impacto direto nas estruturas financeiras

A TSB não é meramente consultiva. O instrumento será obrigatório para relatórios de sustentabilidade de empresas de capital aberto a partir dos exercícios sociais iniciados em 1º de janeiro de 2026.

Além disso, o decreto que a institui prevê sua aplicação em instrumentos-chave de política pública como compras governamentais, concessão de benefícios fiscais e creditícios, e estruturação de financiamentos.

Para o setor privado, a adesão inicial é voluntária, mas espera-se que se torne prática obrigatória conforme o mercado adota esses padrões. Empresas que conseguem demonstrar alinhamento com a TSB ganham acesso facilitado a crédito verde, financiamentos com juros reduzidos e incentivos tributários — o que as coloca em posição competitiva vantajosa.

Nesse contexto, a transformação de ativos sustentáveis ganha relevância estratégica. Projetos que geram créditos de carbono, biodiversidade ou energia renovável podem ser estruturados como ativos financeiros mais atrentes quando comprovadamente alinhados aos critérios técnicos da TSB.

Brasil como referência global

Durante a UNEA-7, representantes de outros países demonstraram interesse direto na experiência brasileira. Pia Bernadette Roman Tayag, diretora de Sustentabilidade do Banco Central das Filipinas, participou do mesmo painel de discussão e afirmou que seu país está "aprendendo com o Brasil" para aprimorar sua própria ferramenta de sustentabilidade.

A executiva filipina explicou que as Filipinas, altamente vulneráveis a desastres naturais provocados pela mudança do clima, enfrentam riscos financeiros concretos em termos de crédito, mercado e operações.

Para mitigar essas vulnerabilidades, o país está estruturando uma taxonomia inspirada no modelo brasileiro, com foco em adaptação e resiliência.

"Estamos aprendendo com o Brasil porque queremos complementar nossa ferramenta com um catálogo mais detalhado, com base científica, focado em adaptação e resiliência", declarou Tayag.

Essa busca por referência evidencia o reconhecimento internacional da abordagem brasileira de combinar rigor técnico com inclusão social.

O plano de transformação ecológica e a arquitetura verde

A TSB não funciona isoladamente. Ela é o alicerce de um conjunto mais amplo de iniciativas estruturadas pelo Ministério da Fazenda no âmbito do Plano de Transformação Ecológica (PTE), o programa federal que concilia desenvolvimento econômico com sustentabilidade ambiental.

Paralelamente à taxonomia, o Brasil instituiu o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) através da Lei 15.042/2024, criando um mercado regulado de carbono. O país também estrutura instrumentos como títulos públicos sustentáveis, o Eco Invest Brasil e o Fundo Clima — todos alimentados pelos critérios objectivos definidos pela TSB.

Essa articulação entre instrumentos financeiros, regulatórios e fiscais cria um ecossistema robusto para mobilizar capital privado em direção à transição verde. Investidores têm segurança jurídica e metodológica para direcionar recursos.

Empresas têm transparência sobre como estruturar operações sustentáveis. Governos têm ferramentas claras para orientar políticas públicas.

Contestação da Resiliência, Proposição da Robustez

Cristina Reis trouxe ao debate internacional uma provocação conceitual que merece atenção. Ela questionou por que o modelo hegemônico de "resiliência" para nações em desenvolvimento apenas assume que esses países precisam absorver choques — climáticos, financeiros, comerciais — e voltar a um estado anterior sem mudanças estruturais reais.

"O problema da resiliência é que ela não considera a falta de tecnologia avançada nem os desafios históricos que impedem esses países de se recuperarem," argumentou a secretária. Ela propôs substitucir o paradigma por dois conceitos: "robustez" e "prontidão".

Na prática, isso significa fazer mudantças estruturais profundas na economia, desenvolvendo cadeias de valor mais completas dentro do país, gerando empregos de qualidade, transferindo tecnologia e permitindo que nações emergentes conquistem autonomia real em seu desenvolvimento. Não é apenas sobre se adaptar às crises; é sobre transformar a estrutura econômica para evitar que essas crises sejam desproporcionalmente prejudiciais.


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