BlackRock aposta bilhões em captura de carbono

Divisão de infraestrutura da gigante gestora investe €1 bilhão em plataforma de CCS europeia da Eni

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
7 Min

BlackRock aposta bilhões em captura de carbono
BlackRock investe EUR 1 bilhão em plataforma de CCS europeia da Eni. Conheça como gigante gestor aposta em infraestrutura de carbono

Um movimento corporativo recém-finalizado sinaliza uma mudança fundamental em como o mercado de capitais global compreende a descarbonização industrial. A BlackRock, através de sua divisão de infraestrutura Global Infrastructure Partners (GIP), concluiu a aquisição de 49,99% de participação acionária na Eni CCUS Holding, unidade que consolida o portfólio europeu de captura e armazenamento de carbono (CCS).

A transação avaliada em aproximadamente EUR 1 bilhão – ou cerca de USD 1,2 bilhão – estabelece controle conjunto entre Eni e GIP sobre uma das mais avançadas plataformas de CCS da Europa.

O acordo, anunciado formalmente em agosto de 2025 e finalizado em dezembro do mesmo ano, representa mais que simples transação financeira. Funciona como sinal público de que investimento em infraestrutura de carbono transitou de projeto experimental para oportunidade legítima de alocação de capital institucional de longo prazo.

A BlackRock, é a maior gestora de ativos do planeta e normalmente não faz apostas simbólicas; uma operação dessa magnitude sintetiza convicção corporativa sobre papel central que captura de carbono desempenhará em estratégias de descarbonização industrial durante próximas duas décadas.

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A Eni CCUS Holding opera portfólio geograficamente diversificado. No Reino Unido, projetos Liverpool Bay e Bacton visam capturar e armazenar 10 milhões de toneladas de CO₂ anualmente cada um até 2030.

Na Holanda, projeto L10-CCS almejaCapacidade de 5 milhões de toneladas anuais. Na Itália, plataforma detém direito de adquirir 50% remanescente do projeto Ravenna, atualmente operado conjuntamente com Snam (operadora de infraestrutura de gás).

Combinados, esses projetos poderiam capturar e armazenar até 29 milhões de toneladas de CO₂ por ano até 2030 – equivalente a retirar aproximadamente 6 milhões de automóveis movidos a gasolina das ruas anualmente.

CCS: de experimento para infraestrutura viável

A trajetória de captura e armazenamento de carbono ao longo dos últimos anos ilustra como percepção de tecnologias climáticas evolui quando políticas públicas providenciam sinais claros. CCS era, historicamente, considerada excessivamente custosa, tecnicamente incerta e comercialmente inviável.

Críticos questionavam se tais abordagens não simplesmente prolongariam dependência de combustíveis fósseis em vez de catalisar verdadeira transição.

Essa narrativa começou a mudar conforme dois fatores convergiram. Primeiro, o desenvolvimento tecnológico melhorou significativamente custos e confiabilidade de sistemas de captura.

Segundo, decisores políticos reconheceram que setores de difícil descarbonização – cimento, aço, química, refino – enfrentam poucas alternativas realistas para reduções profundas de emissões através de eletrificação ou mudança de combustível. Para essas indústrias, CCS representa, presentemente, ferramenta mais eficiente e eficaz disponível.

Reino Unido e União Europeia priorizaram, explicitamente, CCS em suas estratégias climáticas e industriais. Suporte materializa-se através de marcos regulatórios claros, contratos por diferença que oferecem previsibilidade de fluxo de caixa, e mecanismos de subsídio estatal. Nos EUA, crédito fiscal 45Q oferece até USD 85 por tonelada de CO₂ capturado. Fundo de Inovação da UE disponibiliza bilhões em subvenções.

Com políticas assim, projetos de CCS ganharam fundações financeiras que justificam investimento de atores como BlackRock.

Mercado global de CCS cresceu modestamente: USD 3,2 bilhões em 2023, com projeções de atingir mais de USD 18 bilhões até 2032. Capacidade global poderia alcançar até 1.300 megatoneladas anuais até 2050. Números parecem modestos frente ao mercado de energia global, mas seu crescimento relativo é acelerado. É nesse contexto de expansão que GIP faz sua aposta.

Liverpool Bay: espinha dorsal industrial

O projeto Liverpool Bay exemplifica como CCS materializa-se no mundo real. Situado no noroeste da Inglaterra, Liverpool Bay faz parte de HyNet – aglomerado industrial que reúne refinarias, plantas químicas, fábricas de aço e processadoras de alimentos. Essa região industrial, densamente concentrada, constitui justamente o tipo de zona para qual CCS foi concebida: múltiplas indústrias, cada uma com elevadas emissões, geograficamente proximais, possibilitando economia de escala para infraestrutura de transporte e armazenamento de CO₂.

Projeto da Eni prevê construir rede de tubulações que coletará CO₂ de múltiplas fonte industriais, canalizando-o para armazenamento offshore em depósitos geológicos submarinhos. O objetivo é capturar 10 milhões de toneladas anuais até 2030.

A construção estava planejada para suportar 2.000 empregos diretos enquanto salvaguardava estimados 350 mil empregos industriais na região. Investimento em infraestrutura dessa magnitude demonstra compromisso real: trata-se de obra civil pesada, não de pilot intangível.

Bacton Thames NetZero, segundo projeto inglês, pretende armazenar até 330 milhões de toneladas de CO₂ em campo de gás Hewett depletado na Southern North Sea.

O campo oferece infraestrutura geológica existente – poços, plataformas, sistemas de transporte – adaptável para armazenamento de carbono. Reutilização de infraestrutura reduz custos comparado a construir de novo.

Críticas permanentes

Apesar do entusiasmo de gestores como BlackRock, CCS permanece objeto de crítica. Ambientalistas argumentam que investimento em CCS pode servir como desculpa para empresas petrolíferas prolongarem operações de combustíveis fósseis em vez de transacionar verdadeiramente para renováveis.

Pesquisadores apontam que, em muitos casos, CCS captura apenas porção das emissões de indústria; implementação total ainda requer eletrificação, mudanças de processos, e eficiência aprimorada.

Críticas levantam questões legítimas que mercados ignoram em seu próprio risco. Ninguém sabe, com certeza, se demanda por capacidade de CCS atingirá níveis que modelos financeiros projetam.

Reguladores podem mudar políticas. Tecnologia pode não escalar tão rapidamente ou tão economicamente quanto esperado. Eni CCUS Holding, apesar de respeitável, permanece aposta – sofisticada e bem-fundamentada, mas aposta ainda assim.

O que a transação Eni-GIP sinaliza, fundamentalmente, é que infraestrutura climática está surgindo como classe de ativos distinta. Institucionalizada, com marcos regulatórios claros, oferecendo fluxos de caixa previsíveis, sujeita a supervisão técnica e ambiental, ela atrai capital de longo prazo dos tipos que constituem mercados resilientes.

Essa transformação ocorreu previamente em setores como energia renovável e eletricidade: no início eram experimentos, depois projetos privados especulativos, finalmente infraestrutura institucionalizada com risco adequadamente precificado. CCS parece estar em transição similar.

Se trajetória continuar, a próxima década verá um crescimento substancial em capacidade global e múltiplos novos atores de grande porte (petrolíferas, utilities, investidores puros de infraestrutura) competindo para construir e operar hubs de CCS nas jurisdições-chave.

Para Brasil, particularmente, compreender essa dinâmica é crítico. O país tem abundância de setores de uso intensivo de carbono (agropecuária, petróleo, mineração, siderurgia) que poderiam beneficiar-se de infraestrutura de CCS em futuro próximo.

O desenvolvimento de taxonomia sustentável brasileira e o mercado de carbono oferece oportunidade para estruturar suporte regulatório para CCS que atraia investidores institucionais de escala. Sem suporte assim, Brasil verá capital climático global concentrar-se em economias desenvolvidas onde marcos regulatórios já existem.

 

 

 

 


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