EUA apostam no petróleo e freiam transição energética global

Ações de Trump na Venezuela e saída do Acordo de Paris ameaçam metas climáticas enquanto emissões de CO2 batem recordes

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
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Trump ignora os alertas de cientistas e governos do mundo todo e promete investir pesado na produção de petróleo. Arte: B4

A maior economia do mundo decidiu remar contra a corrente. Enquanto cientistas alertam sobre a urgência de abandonar combustíveis fósseis para conter o aquecimento global, os Estados Unidos optaram por ampliar sua produção de petróleo e gás, comprometendo décadas de esforços internacionais para combater as mudanças climáticas.

A recente captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelas forças americanas e o anúncio de que empresas petrolíferas dos EUA investirão bilhões de dólares na infraestrutura petroleira do país sul-americano escancaram uma estratégia que prioriza o ouro negro em detrimento da transição energética.

O presidente Donald Trump não escondeu suas intenções ao declarar que pretende controlar as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta, estimadas em 303 bilhões de barris, segundo a Agência de Informação Energética dos EUA.

A Venezuela, membro fundador da OPEP, representa uma peça-chave na geopolítica energética global e, agora, está no centro de uma disputa que pode redesenhar o mercado de hidrocarbonetos nas próximas décadas.

A movimentação americana ocorre em um momento crítico para o clima. As emissões de dióxido de carbono provenientes de combustíveis fósseis devem atingir 38,1 bilhões de toneladas em 2025, um novo recorde que empurra o planeta cada vez mais perto do ponto de não retorno climático.

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Logo nas primeiras horas de seu segundo mandato, Trump assinou uma série de decretos que inauguram o que especialistas chamam de "destransição energética".

Entre as medidas mais impactantes estão a declaração de emergência energética nacional para ampliar a exploração de petróleo, a suspensão de licenças para projetos de energia eólica e a criação do Conselho Nacional de Dominância Energética.

A saída dos EUA do Acordo de Paris, anunciada novamente pelo republicano, representa um golpe significativo nos esforços multilaterais de combate às mudanças climáticas.

O país, que ocupa a posição de segundo maior emissor de gases de efeito estufa do mundo, fica isolado como a única nação do G20 a rejeitar formalmente o pacto climático internacional. A decisão gera um efeito cascata preocupante, pois pode inspirar outros líderes a seguirem o mesmo caminho.

Venezuela: do bloqueio petroleiro à tomada de controle

A estratégia americana em relação à Venezuela evoluiu rapidamente de sanções econômicas para intervenção direta. Nas semanas que antecederam a captura de Maduro, os EUA implementaram um bloqueio total aos petroleiros sancionados que entravam e saíam do país, interceptaram navios carregando crude venezuelano e aplicaram tarifas de 25% a países que compravam petróleo de Caracas.

O cenário agora se volta para a reconstrução da indústria petroleira venezuelana sob controle americano. Trump afirmou que grandes companhias dos EUA entrarão no país para investir bilhões de dólares na infraestrutura danificada e começar a gerar lucros. O objetivo declarado é fazer o petróleo fluir como deveria, com grandes quantidades sendo vendidas a outros países.

Analistas do mercado energético observam que a Venezuela, apesar de possuir as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, produz atualmente cerca de um milhão de barris por dia, menos de 1% da produção global. Essa cifra representa menos da metade do que o país produzia antes de Maduro assumir o poder em 2013 e menos de um terço dos 3,5 milhões de barris diários bombeados antes do regime socialista.

Impacto nas metas climáticas globais

Os números são alarmantes. Segundo o relatório Global Carbon Project, divulgado durante a COP30 em Belém, as emissões de CO2 provenientes de carvão, petróleo e gás serão em 2025 superiores às de 2024 em 1,1%. O crescimento afeta todos os combustíveis fósseis: carvão com alta de 0,8%, petróleo com 1% e gás natural com 1,3%.

A concentração de CO2 na atmosfera atingiu 423,9 partes por milhão em 2024, um aumento de 53% desde a era pré-industrial. O salto de 3,5 ppm registrado entre 2023 e 2024 foi o maior já observado na história das medições. Projeções indicam que a barreira de 430 ppm será ultrapassada em maio de 2025.

A Organização Meteorológica Mundial alerta que os últimos 11 anos, de 2015 a 2025, foram individualmente os mais quentes nos 176 anos de registros de temperatura. A temperatura média global de janeiro a agosto de 2025 ficou 1,42°C acima da média pré-industrial, aproximando-se perigosamente do limite de 1,5°C estabelecido no Acordo de Paris.

A corrida contra o tempo que os EUA ignoram

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas já havia alertado que a humanidade tinha apenas três anos para frear as emissões de poluentes e impedir consequências irreversíveis ao planeta. Esse prazo, contado a partir de 2022, praticamente se esgotou.

Para que exista uma chance de pelo menos 50% de estabilizar o aquecimento global em 1,5°C, as emissões globais precisariam cair 43% até 2030, meta que parece cada vez mais distante.

O relatório da UNFCCC indica que, mesmo com os planos climáticos apresentados pelos países, a redução das emissões até 2035 seria de apenas 10%, muito aquém dos 60% necessários para limitar o aquecimento. Com a política americana atual, esse cenário se torna ainda mais desafiador.

Especialistas apontam que a aposta de Trump pode beneficiar economicamente, a curto prazo, as indústrias de petróleo e gás. Contudo, no longo prazo, a decisão afeta a credibilidade dos EUA em esforços multilaterais e pode deixar o país tecnologicamente atrasado, enquanto nações como China e membros da União Europeia avançam em energia solar, eólica e veículos elétricos.

O papel do Brasil e do mercado de carbono

Diante desse cenário, o Brasil assume um protagonismo ainda maior. A realização da COP30 em Belém coloca o país no centro das discussões climáticas globais, especialmente pela importância da Amazônia como bioma de relevância planetária.

Com sua matriz energética amplamente renovável, o Brasil tem a oportunidade de se posicionar como exportador de tecnologia e energia limpa.

O mercado de créditos de carbono ganha relevância como ferramenta de financiamento da transição energética e compensação de emissões. Plataformas comprometidas com a transparência e rastreabilidade dos ativos sustentáveis, como a B4, representam alternativas para empresas e investidores que desejam contribuir com a ação climática de forma verificável e segura.

A Lei 15.042/2024, que estabelece o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), posiciona o país na vanguarda da regulamentação do mercado de carbono. O Brasil, com cerca de 60% de seu território preservado e legislação ambiental rigorosa, tem potencial para se tornar líder global nesse mercado, com estimativas de movimentação de até US$ 120 bilhões até 2030.

Consequências para a sustentabilidade a médio e longo prazo

A política energética americana terá repercussões que vão além das fronteiras dos EUA. O aumento da produção de petróleo pode pressionar os preços globais para baixo, reduzindo a competitividade das energias renováveis. Com o barril de WTI iniciando 2026 em torno de US$ 57, uma queda de 18% em relação ao início de 2025, o incentivo econômico para investir em fontes limpas diminui.

A Agência Internacional de Energia prevê que a demanda global por eletricidade duplique até 2050, impulsionada pela transição energética. Até 2030, quase metade das vendas de automóveis seriam de veículos elétricos, com a China liderando esse movimento. Porém, com os EUA remando contra essa tendência, o ritmo da transformação pode ser significativamente afetado.

O pico na demanda de combustíveis fósseis, que deveria ocorrer antes de 2030 devido à expansão das energias renováveis e da mobilidade elétrica, pode ser postergado. Isso significa mais anos de emissões elevadas, maior concentração de gases de efeito estufa e aceleração das mudanças climáticas.

O custo real da dependência de hidrocarbonetos

Os combustíveis fósseis têm sido fundamentais para a produção de energia desde a Revolução Industrial, mas o custo real dessa dependência vai além do preço pago por barril de petróleo ou metro cúbico de gás. Os impactos ambientais, sociais e econômicos das mudanças climáticas já se fazem sentir em todo o planeta.

Os incêndios em Los Angeles no início de 2025, as enchentes devastadoras na Europa e as secas prolongadas na América do Sul demonstram que a catástrofe climática não distingue ricos e pobres. O momento exige determinação e ações concretas para mitigar o aquecimento global.

Como afirmou a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, a sequência sem precedentes de altas temperaturas, combinada com o aumento recorde dos níveis de gases de efeito estufa, deixa claro que será praticamente impossível limitar o aquecimento global a 1,5°C nos próximos anos sem ultrapassar temporariamente essa meta. Porém, a ciência também deixa claro que ainda é possível e essencial reduzir as temperaturas para 1,5°C até o final do século.

A decisão dos EUA de apostar no petróleo representa um obstáculo significativo nesse caminho. Cabe ao restante do mundo agir para isolar essa postura e acelerar a transição energética. A Europa e outros países precisam usar o comércio internacional para limitar os danos de uma administração que tenta recarbonizar a economia. Novas lideranças também precisam preencher o vácuo deixado pelos Estados Unidos, colocando mais responsabilidade sobre China, União Europeia, África do Sul e Brasil.