O cenário corporativo brasileiro se prepara para uma transformação profunda em suas práticas de sustentabilidade. Dados da consultoria KPMG indicam que a integração entre tecnologia e metas ambientais deixou de ser uma opção para se tornar pilar estratégico nos próximos anos.
A pesquisa "KPMG 2025 Global Energy, Natural Resources and Chemicals" consultou executivos de 11 mercados-chave, incluindo empresas com faturamento anual superior a US$ 500 milhões.
Os números revelam uma mudança significativa na percepção dos líderes empresariais sobre o papel da tecnologia na agenda climática. Segundo o levantamento, 82% dos executivos dos setores de energia, recursos naturais e produtos químicos identificam na inteligência artificial um potencial transformador para diminuir emissões de gases de efeito estufa e aprimorar o uso energético em tempo real.
Essa visão representa não apenas uma expectativa, mas uma necessidade urgente diante das pressões regulatórias e das demandas crescentes de investidores por transparência.
A confiança nas práticas ESG (ambientais, sociais e de governança) implementadas pelas organizações, no entanto, ainda permanece baixa. Apenas 26% dos executivos se sentem muito seguros quanto aos sistemas de governança relacionados à sustentabilidade em suas companhias. Essa lacuna entre ambição e execução expõe a fragilidade de muitos programas corporativos que ainda tratam o tema como obrigação regulatória, e não como oportunidade estratégica de longo prazo.
A transformação digital aplicada à sustentabilidade ganha contornos cada vez mais concretos. A capacidade de processar grandes volumes de dados em tempo real posiciona a inteligência artificial como ferramenta essencial para análise de riscos climáticos. Segundo o estudo da KPMG, 74% dos líderes corporativos reconhecem que a tecnologia pode aprimorar modelos de cenários futuros e decisões de investimento baseadas em critérios ambientais.
O levantamento mostra ainda que 79% dos executivos apoiam especificamente o uso da IA para melhorar a qualidade e confiabilidade dos dados relacionados à sustentabilidade. Essa percepção reflete uma necessidade premente do mercado: demonstrar com evidências verificáveis o impacto real das iniciativas ambientais. A era dos relatórios genéricos e das promessas vazias chegou ao fim, substituída pela exigência de métricas precisas e auditáveis.
As aplicações práticas já demonstram resultados mensuráveis. Sistemas de monitoramento de redes elétricas utilizando IA conseguem otimizar o fluxo de energia, priorizando fontes renováveis e prevenindo falhas que causariam desperdício. Em processos industriais, algoritmos inteligentes ajustam parâmetros de produção instantaneamente, reduzindo emissões enquanto mantêm a eficiência operacional.
Os desastres ambientais e fenômenos climáticos extremos emergiram como fatores determinantes na definição de estratégias empresariais. Para 27% dos executivos consultados pela KPMG, essas questões representam desafios-chave na construção de planejamento de longo prazo. Essa proporção supera qualquer outro setor pesquisado, evidenciando a vulnerabilidade de companhias que dependem diretamente de recursos naturais.
Apesar da consciência sobre os riscos, a tradução em ações concretas ainda encontra obstáculos. Embora 62% dos líderes afirmem estar confiantes em atingir metas de zero emissões líquidas até 2030, apenas 38% integram totalmente os critérios ESG nas decisões de alocação de capital. Mais da metade dos executivos admite que a implementação desses fatores permanece aquém das expectativas das partes interessadas.
O cenário brasileiro adiciona camadas de complexidade a esse quadro. A partir de 2026, empresas de capital aberto reguladas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) deverão adotar os padrões internacionais IFRS S1 e IFRS S2, normas que integram desempenho ambiental, social e de governança às demonstrações financeiras. A Resolução CVM nº 193 estabelece que essas companhias precisarão divulgar informações estruturadas sobre riscos climáticos, emissões de gases de efeito estufa e impactos sociais.
A governança corporativa se consolida como alicerce indispensável para qualquer estratégia de sustentabilidade que pretenda ir além do discurso. Com a chegada de regulamentações mais rígidas, tanto no Brasil quanto em mercados internacionais, organizações precisarão comprovar com dados auditáveis que suas práticas são genuínas e consistentes. O combate ao greenwashing – práticas que simulam compromissos ambientais sem resultados concretos – intensifica-se rapidamente.
Manuel Fernandes, sócio líder do setor de energia e recursos naturais da KPMG no Brasil e na América do Sul, observa que "os resultados deste ano mostraram que grandes mudanças estão em andamento. Os CEOs estão repensando a abordagem para a transição energética e retreinando equipes para acompanhar a ascensão da IA". Essa reavaliação estratégica não se limita a questões tecnológicas, mas envolve transformações profundas na cultura organizacional.
A transparência deixa de ser diferencial competitivo para se tornar condição básica de operação no mercado. Investidores demonstram crescente ceticismo em relação a compromissos ambientais não comprovados, direcionando recursos para companhias que demonstram rastreabilidade completa de suas ações. Relatórios de sustentabilidade passam a exigir o mesmo rigor de demonstrações financeiras tradicionais, incluindo a divulgação tanto de conquistas quanto de desafios enfrentados.
A implementação efetiva de estratégias ESG apoiadas por tecnologia depende essencialmente da formação de equipes capacitadas. A pesquisa KPMG revela que 40% dos executivos estão respondendo com urgência a essa necessidade, intensificando programas de requalificação e aprimoramento de funções impactadas pela inteligência artificial. Outros 31% adaptam treinamentos para preencher lacunas geracionais no conhecimento tecnológico.
O desafio se mostra particularmente agudo quando apenas 18% das empresas oferecem capacitação para uso de IA em toda a organização. A lacuna de habilidades continua sendo o maior obstáculo para 43% dos CEOs, seguido pela concorrência com empresas de tecnologia que oferecem remuneração mais atrativa, citado por 22% dos entrevistados. Essa disputa por profissionais qualificados tende a se acirrar à medida que mais organizações reconhecem a tecnologia como elemento central de suas operações sustentáveis.
Para superar essas barreiras, 72% dos executivos focam em reter e retreinar profissionais de alto potencial já presentes em suas estruturas. Programas de desenvolvimento internos ganham relevância estratégica, combinando conhecimentos técnicos sobre IA com compreensão profunda dos desafios específicos de sustentabilidade corporativa.
Apesar dos obstáculos identificados, o setor demonstra confiança robusta no crescimento futuro. A pesquisa aponta que 84% dos CEOs estão otimistas sobre o desenvolvimento a médio prazo, percentual significativamente superior aos 72% registrados em 2024. Esse aumento de confiança reflete a percepção de que investimentos em tecnologia sustentável não apenas atendem a pressões regulatórias, mas criam vantagens competitivas reais.
A inteligência artificial generativa figura entre as principais áreas de investimento para 65% dos executivos consultados. Entretanto, barreiras relacionadas à segurança cibernética, questões éticas e fragmentação de dados continuam sendo obstáculos significativos à adoção plena dessas ferramentas. A necessidade de infraestrutura robusta e políticas claras de governança digital aparece como pré-requisito para o aproveitamento total do potencial tecnológico.
O contexto brasileiro oferece oportunidades únicas nesse cenário. Com legislação ambiental rigorosa e extensa área preservada, o país se posiciona como protagonista potencial no mercado global de carbono. Estimativas apontam movimentação de até US$ 120 bilhões até 2030, desde que superados desafios relacionados à governança de projetos e à transparência na geração de créditos.
O ano de 2026 marca um ponto de inflexão regulatório para a agenda ESG no Brasil e no mundo. Além da adoção obrigatória das normas IFRS S1 e S2 para companhias abertas brasileiras, o mercado europeu avança com a Diretiva de Relatórios de Sustentabilidade Corporativa (CSRD). Empresas que exportam para a Europa enfrentarão padrões ainda mais rigorosos, especialmente quanto à rastreabilidade de cadeias produtivas.
Essa convergência de regulamentações cria tanto desafios quanto oportunidades. Organizações que anteciparem a adequação ganharão vantagens competitivas significativas, atraindo investimentos de fundos que priorizam critérios ESG. Por outro lado, companhias que retardarem a implementação de sistemas robustos de governança ambiental enfrentarão dificuldades crescentes para acessar capital em condições favoráveis.
A transparência de dados emerge como denominador comum de todas essas exigências. Sistemas integrados que rastreiam emissões, consumo de recursos e impactos sociais ao longo de toda a cadeia de valor deixam de ser sofisticação técnica para se tornarem necessidade operacional básica. A tecnologia blockchain, que garante imutabilidade e rastreabilidade de informações, ganha relevância nesse contexto.
A transformação do ESG em 2026 vai muito além de conformidade regulatória. Trata-se de repensar modelos de negócio, integrando sustentabilidade aos processos decisórios de forma genuína e mensurável. As companhias que compreenderem essa mudança como oportunidade de inovação, e não como fardo regulatório, estarão melhor posicionadas para prosperar no cenário que se desenha.
A convergência entre inteligência artificial e sustentabilidade corporativa representa uma das fronteiras mais promissoras dessa transformação. Ferramentas que antes pareciam futuristas já demonstram aplicações práticas, desde otimização energética até análise preditiva de riscos ambientais. O desafio está em garantir que essa tecnologia seja implementada com governança adequada, evitando que avanços operacionais mascarem impactos negativos não contabilizados.
O mercado brasileiro, com suas características únicas de biodiversidade e recursos naturais, tem potencial para liderar inovações nesse campo. A combinação entre expertise ambiental, avanço tecnológico e marcos regulatórios em desenvolvimento cria um ambiente favorável para o surgimento de soluções que sirvam de referência global. O sucesso dependerá da capacidade de unir ambição estratégica com execução disciplinada e transparente.