59% da matriz energética de São Paulo é sustentável, aponta estudo

Estado lidera transição energética no Brasil com etanol superando gasolina e matriz mais limpa que a média nacional

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
12 Min

59% da matriz energética de São Paulo é sustentável, aponta estudo
São Paulo atinge 59% de energia renovável com etanol superando gasolina, liderando transição energética e descarbonização no Brasil. Foto: Canva

São Paulo consolidou sua posição de destaque na transição energética brasileira ao atingir 59% de participação de fontes renováveis na oferta interna bruta de energia em 2024.

O resultado, divulgado pelo Balanço Energético do Estado de São Paulo (BEESP) 2025, coloca o estado nove pontos percentuais acima da média nacional, que é de 50%, segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE).

A conquista posiciona São Paulo como referência global em sustentabilidade energética, superando em mais de quatro vezes a média dos países desenvolvidos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que registraram apenas 13,2% de renováveis em 2023. O desempenho reflete décadas de investimentos estratégicos em biocombustíveis, diversificação da matriz e ação climática efetiva.

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O estudo é elaborado anualmente pela Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil) e tem o objetivo de organizar e divulgar dados sobre produção, transformação e consumo energético no estado. A atualização anual e o registro da série histórica garantem uma fonte valiosa de informações para análise da estrutura e evolução da matriz energética paulista, servindo de base para planejamento e monitoramento de políticas públicas.

Etanol se torna protagonista no transporte

Um dos destaques mais significativos do balanço é o papel crescente do etanol na matriz energética paulista. Pela primeira vez, o biocombustível derivado da cana-de-açúcar superou a gasolina no atendimento energético do transporte rodoviário estadual. O etanol foi responsável por uma parcela maior da demanda energética em comparação aos 22,4% registrados pela gasolina.

A composição da oferta interna bruta evidencia o papel fundamental da cana-de-açúcar no suprimento energético paulista. Os produtos do setor sucroenergético responderam por um terço do total no ano de 2024. O etanol é utilizado primordialmente no transporte rodoviário, especialmente em automóveis e motocicletas, categoria que vem expandindo consistentemente sua participação na matriz estadual.

Segundo o BEESP, São Paulo foi exportador líquido de etanol em 2024, isto é, produziu mais do que consumiu internamente. Dados da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) colocam o estado na liderança nacional da produção do biocombustível. Dos 37 bilhões de litros produzidos no país em 2024, 13,8 bilhões (37%) saíram das usinas paulistas, consolidando a região como polo estratégico da bioenergia brasileira.

Expansão da energia solar fotovoltaica

A energia solar fotovoltaica paulista manteve sua tendência consistente de crescimento, representando 12% da energia elétrica gerada no estado em 2024. No recorte anual, a geração solar atingiu 10,4 terawatts-hora (TWh), crescendo 16% em relação aos 8,9 TWh registrados em 2023. Os números consolidam a fonte solar como a terceira em termos de geração de eletricidade, ficando atrás apenas da fonte hidráulica e da geração térmica a biomassa.

São Paulo é líder nacional na geração de energia solar fotovoltaica pelo sistema de geração distribuída e continua expandindo o potencial energético sustentável do estado. Dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) mostram que o estado chegou a uma capacidade de 6,2 gigawatts (GW) da fonte solar no modelo de geração distribuída em dezembro de 2025, tendo instalado cerca de 1 GW ao longo do ano.

O perfil renovável de geração de energia elétrica em São Paulo resulta de uma combinação que representa as características do estado. "Temos um legado de hidrelétricas estruturantes e simbólicas, construídas desde o início do século passado e que seguem como nossa principal fonte; a geração a biomassa é um espelho da dinâmica da agroindústria paulista, principalmente no setor sucroenergético; e a geração fotovoltaica, puxada pela geração distribuída, revela uma população, comércios e indústrias ativos, antenados à sustentabilidade e com capacidade de investimento", analisou a subsecretária de Energia e Mineração, Marisa Barros.

Fontes hidráulica e biomassa mantêm relevância

O balanço também evidencia a relevância da fonte hidráulica e eletricidade, que representa 17% da oferta interna bruta. Esse percentual contempla a energia elétrica gerada no estado e a importada do Sistema Interligado Nacional (SIN). A geração de energia elétrica a partir da fonte hidráulica apresentou, em 2024, um decréscimo de 15% em relação ao ano anterior. Essa variação negativa sucede 2023, que havia registrado um aumento de 33% em relação a 2022.

As variações são intrínsecas à fonte hídrica e refletem sua dependência do regime de chuvas e das afluências aos reservatórios, além dos limites da capacidade de regularização e armazenamento. "A geração hidrelétrica segue desempenhando papel central no sistema estadual, contribuindo para a segurança do suprimento, a flexibilidade operativa e a elevada participação de fontes renováveis na matriz energética", explicou Marisa Barros.

A diversidade de alternativas renováveis disponíveis no estado inclui também o biogás, o licor negro da indústria de papel e celulose e a lenha. Essa multiplicidade de fontes confere maior resiliência e segurança energética ao sistema estadual, reduzindo a vulnerabilidade a variações climáticas e a oscilações de preços internacionais de combustíveis fósseis.

Conexão com mercado de créditos de carbono

O protagonismo de São Paulo na transição energética está diretamente conectado ao mercado de créditos de carbono e aos mecanismos de descarbonização da economia. A Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio), instituída pela Lei 13.576/2017, criou os Créditos de Descarbonização (CBIOs), instrumentos financeiros que recompensam produtores de biocombustíveis pela redução de emissões de gases de efeito estufa.

Cada CBIO representa uma tonelada de dióxido de carbono (CO₂) que deixou de ser emitida na atmosfera. Os créditos são emitidos por produtores de combustíveis renováveis, como etanol, biodiesel e biometano, e os compradores obrigatórios desses títulos são empresas distribuidoras de combustíveis fósseis poluentes, que precisam compensar suas emissões.

Em 2024, houve 42,5 milhões de emissões de CBIO, alta de 18% ante 2023. Em termos de volume, os negócios com CBIO movimentaram R$ 7,8 bilhões no ano passado. As usinas associadas à Copersucar, por exemplo, emitiram 6 milhões de CBIOs na safra de 2024/2025, equivalente a 6 milhões de toneladas de CO₂ evitadas.

A Lei 15.082/24, sancionada recentemente, representa um avanço significativo ao garantir que produtores de cana-de-açúcar destinada ao biocombustível participem das receitas obtidas com a negociação de créditos de descarbonização. Antes, a remuneração era exclusiva das usinas produtoras de etanol. A participação será proporcional à biomassa entregue às usinas, com percentual inicial de 60% das receitas geradas.

Impactos econômicos e ambientais

A elevada participação de fontes renováveis na matriz energética paulista gera impactos econômicos positivos estruturais. A cadeia do etanol movimenta milhares de empregos diretos e indiretos, além de estimular inovação tecnológica e ganhos de produtividade no campo. Ao mesmo tempo, a maior presença de energia renovável reduz a exposição do estado à volatilidade dos preços internacionais de combustíveis fósseis, fortalecendo a segurança energética e criando maior previsibilidade para consumidores e empresas.

Sob a ótica ambiental, o avanço das renováveis contribui decisivamente para o cumprimento de metas climáticas e para a redução da pegada de carbono da economia paulista. O etanol, por exemplo, pode emitir até 90% menos gases poluentes do que a gasolina. Assim, energia limpa, desenvolvimento econômico e sustentabilidade caminham de forma integrada no modelo energético estadual.

De acordo com o Balanço Energético Nacional (BEN) 2024, divulgado pela EPE em parceria com o Ministério de Minas e Energia (MME), depois do óleo diesel e da gasolina, o etanol é o terceiro combustível mais consumido no setor de transportes brasileiro, com 17,3% de participação. O balanço aponta ainda um avanço de 6% em relação ao ano anterior, consolidando o biocombustível como principal vetor de elevação do percentual de energia renovável no setor de transporte, que chegou a 22,5% em 2023.

Perspectivas e desafios futuros

A Lei do Combustível do Futuro, sancionada em outubro de 2024, estabelece novos marcos para a política de biocombustíveis no Brasil. A legislação institui programas nacionais de diesel verde, combustível sustentável para aviação (SAF) e biometano, além de aumentar a mistura de etanol e biodiesel na gasolina e no diesel, respectivamente.

As novas diretrizes ampliam a proporção de mistura de etanol à gasolina, que passa de 22% a 27%, com possibilidade de alcançar 35% (embora atualmente limitada a 27,5%). Quanto ao biodiesel, a partir de 2025 será acrescentado um ponto percentual de mistura anualmente até atingir 20% em março de 2030.

A Nova Indústria Brasil (NIB) apresenta metas ambiciosas até 2033, com ênfase na sustentabilidade e inovação. A Missão 5 do programa, focada em Bioeconomia, descarbonização, transição e seguranças energéticas, destina R$ 468,4 bilhões em recursos públicos e privados para investimentos nesse setor. Entre as metas estabelecidas destaca-se a ampliação da participação dos biocombustíveis e veículos elétricos na matriz energética de transporte em 27% até 2026, chegando a 50% até 2033.

O programa estabelece seis cadeias prioritárias para desenvolvimento industrial, incluindo diesel verde, combustível sustentável de aviação (SAF), hidrogênio de baixa emissão de carbono e biometano. Um exemplo concreto desse investimento é a inauguração da Planta de Etanol de 2ª Geração do Bioparque Bonfim em Guariba (SP) em maio de 2024, com capacidade prevista de 82 milhões de litros de etanol. O ministro Alexandre Silveira destacou que este etanol de segunda geração pode alcançar uma pegada de carbono 80% menor que a gasolina comum brasileira e 30% menor que o etanol convencional.

Biometano e economia circular

São Paulo também avança significativamente na produção de biometano, biocombustível gasoso obtido a partir do processamento do biogás. O estado concentra atualmente 40% da capacidade instalada de produção de biometano do país e 31% dos projetos de expansão em andamento. No longo prazo, São Paulo pode atingir um potencial produtivo de até 36 milhões de metros cúbicos por dia, volume suficiente para substituir integralmente o consumo industrial de gás natural no estado ou até 85% do diesel consumido no território paulista.

Presidente Prudente tornou-se, em 2025, o primeiro município do país a ser abastecido integralmente com biometano, produzido pela Usina Cocal e comercializado pela concessionária Necta, a partir de um investimento de R$ 12 milhões. Outro destaque é Paulínia, que abriga a maior planta de produção de biometano do Brasil a partir de resíduos sólidos urbanos. Na instalação do Ecoparque da Orizon VR, resíduos de 35 municípios da região de Campinas são transformados em energia com investimento de R$ 450 milhões.

O biometano desempenha papel estratégico na transição energética como alternativa renovável, segura e eficiente para a redução das emissões de gases de efeito estufa. Além disso, contribui para a descarbonização de setores como a indústria e o transporte, ao mesmo tempo que promove a economia circular ao aproveitar resíduos orgânicos.

Modelo para COP30 e liderança climática

O desempenho energético de São Paulo ganha relevância adicional no contexto da COP30, conferência climática da ONU que será realizada em Belém em 2026. O Brasil busca projetar liderança global em ação climática, e os resultados paulistas demonstram a viabilidade econômica e técnica de uma matriz energética de baixo carbono em uma economia robusta e industrializada.

Com 97% de sua matriz elétrica composta por fontes renováveis, o estado se posiciona como referência em sustentabilidade e inovação energética. Fatores como economia robusta, infraestrutura eficiente e segurança jurídica tornam São Paulo atrativo para empresas que buscam implementar estratégias de descarbonização e comercializar produtos com menor impacto ambiental.

A trajetória de São Paulo comprova que desenvolvimento econômico e sustentabilidade ambiental não são objetivos antagônicos, mas podem e devem caminhar juntos. O estado demonstra na prática que é possível construir uma economia próspera, competitiva e resiliente baseada em fontes renováveis de energia, gerando empregos, inovação e qualidade de vida enquanto reduz drasticamente as emissões de gases de efeito estufa.

O modelo energético paulista oferece lições valiosas para outras regiões do Brasil e do mundo sobre como acelerar a transição energética de forma estruturada, economicamente viável e socialmente justa. Os resultados de 2024 consolidam décadas de investimentos e políticas públicas consistentes, demonstrando que a sustentabilidade energética é um caminho sem volta para economias que desejam prosperar no século XXI.


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