Carbono neutro, net zero e clima positivo: entenda agora
Especialistas alertam que empresas confundem conceitos climáticos e comprometem metas de descarbonização no Brasil até 2050
Empresa realizando inventário de emissões de gases de efeito estufa para estabelecer metas climáticas corporativas baseadas em dados verificáveis. Foto: Canva
As estratégias climáticas corporativas avançam no mercado brasileiro, mas a confusão entre termos técnicos continua gerando problemas de credibilidade. Expressões como carbono neutro, net zero e clima positivo aparecem com frequência nos relatórios de sustentabilidade das empresas, mas nem sempre são aplicadas corretamente. Essa falta de clareza pode resultar em acusações de greenwashing e comprometer a confiança de investidores e consumidores.
Segundo dados do Net Zero Economy Index de 2024 da PwC, o ritmo global de descarbonização caiu para seu nível mais baixo em mais de uma década, com redução de apenas 1,02% na intensidade de carbono em 2023.
No Brasil, onde cerca de 5 mil empresas emitem aproximadamente 25 mil toneladas de CO2 por ano, compreender essas diferenças se torna fundamental para atingir as metas climáticas nacionais.
A distinção entre esses conceitos vai muito além de nomenclaturas. Cada termo representa um nível diferente de comprometimento ambiental, exigindo ações específicas e mensuráveis. Enquanto algumas estratégias focam na compensação de emissões, outras demandam transformações estruturais profundas nas operações empresariais.
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Carbono neutro: o primeiro passo para a sustentabilidade
A neutralidade de carbono representa o estágio inicial da jornada climática corporativa. Nesta estratégia, as organizações continuam emitindo gases de efeito estufa, mas compensam esse impacto através da compra de créditos de carbono certificados. Em vez de eliminar as emissões diretamente na fonte, as empresas financiam projetos de redução em outras localidades.
As abordagens mais comuns incluem investimentos em reflorestamento, aquisição de certificados de energia renovável e apoio a iniciativas de preservação ambiental. Apesar de válida, essa estratégia tem sido cada vez mais questionada por especialistas, que a consideram um ponto de partida e não uma solução definitiva para a crise climática.
O processo para alcançar a neutralidade envolve três etapas principais: cálculo da pegada de carbono corporativa, implementação de medidas de redução e, por fim, compensação através do mercado voluntário de carbono. Plataformas como a B4, primeira bolsa de ação climática do Brasil, facilitam o acesso a Certificados de Ação Climática em formato NFT, garantindo transparência e rastreabilidade na transformação de ativos sustentáveis.
Net zero: compromisso com redução real de emissões
O conceito de emissões líquidas zero eleva significativamente o nível de exigência. Diferentemente da neutralidade de carbono, a meta net zero prioriza a redução drástica das emissões antes de recorrer a qualquer tipo de compensação. A Science Based Targets Initiative (SBTi) estabelece que as empresas devem cortar pela metade suas emissões até 2030 e reduzir pelo menos 90% até 2050.
Esta abordagem considera todos os gases de efeito estufa, não apenas o CO2. Inclui metano (CH4), óxido nitroso (N2O), hidrofluorcarbonetos e outros compostos prejudiciais ao clima. A estratégia se divide em três níveis: emissões diretas de fontes próprias (Escopo 1), emissões indiretas de energia adquirida (Escopo 2) e emissões da cadeia de valor (Escopo 3).
No Brasil, o compromisso net zero ganhou força após o Acordo de Paris, com o país estabelecendo a meta de atingir emissões líquidas neutras até 2050. A recente regulamentação do mercado de carbono brasileiro através da Lei nº 15.042/2024 cria o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), que abrangerá empresas que emitirem acima de 25 mil toneladas de CO2 equivalente por ano.
As empresas que adotam metas net zero devem investir prioritariamente em eletrificação de processos, transição para energias renováveis e melhorias de eficiência operacional. Somente após esgotar todas as possibilidades de redução é que a organização pode utilizar créditos de remoção de carbono para neutralizar emissões residuais.
Clima positivo: o padrão mais ambicioso de ação climática
O conceito de clima positivo, também chamado de carbono negativo, representa o mais alto nível de ambição climática corporativa. Nesta estratégia, as organizações removem mais gases de efeito estufa da atmosfera do que emitem, gerando um benefício líquido para o planeta.
Empresas com estratégias clima positivo combinam operações de emissão zero líquida com projetos adicionais de remoção permanente de carbono. Isso pode incluir restauração de ecossistemas em larga escala, implementação de tecnologias de captura e armazenamento de carbono, e desenvolvimento de soluções baseadas na natureza com impacto multiplicador.
Embora ainda raros no mercado brasileiro, os compromissos clima positivo demonstram liderança corporativa genuína. No entanto, exigem sistemas robustos de governança e transparência para evitar questionamentos sobre sua credibilidade. O mercado voluntário de carbono no Brasil, que movimenta atualmente cerca de US$ 1 bilhão, tem potencial para saltar para US$ 50 bilhões até 2030, segundo projeções da McKinsey.
Por que essas diferenças importam para o mercado
A utilização inadequada desses termos pode resultar em perda de confiança e acusações de greenwashing. Investidores, reguladores e consumidores analisam cada vez mais criticamente se as alegações climáticas corporativas são baseadas em reduções reais ou apenas em mecanismos contábeis de compensação.
Distinções claras permitem que as partes interessadas avaliem a profundidade das reduções de emissões, o grau de dependência de compensações, e o alinhamento com metas climáticas globais. No contexto brasileiro, onde o país se prepara para sediar a COP30 em Belém em novembro de 2025, essa clareza se torna ainda mais estratégica.
O Brasil possui vantagens competitivas significativas no mercado global de carbono. Com cerca de 60% do território nacional preservado, legislação ambiental rigorosa e matriz energética com 70% de fontes renováveis no setor elétrico, o país tem potencial para movimentar até R$ 580 bilhões até 2030 no mercado de créditos de carbono.
O caminho para escolher a estratégia adequada
Especialistas recomendam que empresas brasileiras adotem uma abordagem gradual, começando pela neutralidade de carbono enquanto desenvolvem planos mais ambiciosos. O primeiro passo envolve realizar um inventário completo de emissões utilizando ferramentas como o Clima AI, que permite diagnósticos rápidos em menos de 24 horas.
A partir desse diagnóstico, as organizações podem estabelecer metas progressivas: redução imediata de emissões de fácil eliminação, investimento em eficiência energética, transição para fontes renováveis e, finalmente, compensação de emissões residuais através de créditos de carbono de alta qualidade.
Plataformas como a B4 desempenham papel fundamental nessa jornada, oferecendo acesso transparente ao mercado de carbono com tecnologia blockchain que garante rastreabilidade e combate fraudes. A rigorosa curadoria da plataforma, que aprova apenas 10% dos projetos submetidos, assegura que os ativos sustentáveis negociados geram impacto real e verificável.
Com a crescente pressão por responsabilidade climática, as organizações que articularem claramente suas estratégias e fundamentarem suas ações com dados verificáveis estarão melhor posicionadas para construir confiança, gerenciar riscos regulatórios e contribuir efetivamente para a descarbonização global.