Ásia lidera revolução nos mercados de carbono globais

Região asiática concentra 55% do PIB mundial e articula integração de sistemas nacionais de comércio de emissões

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
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Ásia lidera integração de mercados de carbono com China expandindo ETS e cooperação regional. Foto: Canva

A Ásia está protagonizando uma transformação sem precedentes na economia climática global. O continente, responsável por mais da metade das emissões mundiais de gases de efeito estufa e por 55% do Produto Interno Bruto global, deixou para trás a fase experimental de políticas fragmentadas e avança rumo a sistemas integrados de mercados de carbono que podem revolucionar o financiamento da transição energética mundial.

O movimento ganha força especialmente após os compromissos climáticos renovados da China, que anunciou em 2025 a meta de reduzir as emissões em toda a economia entre 7% e 10% abaixo dos níveis de pico até 2035.

O gigante asiático expandiu seu Sistema de Comércio de Emissões (ETS, na sigla em inglês) para incluir setores como aço, cimento e alumínio, cobrindo agora aproximadamente 60% das emissões nacionais e regulando mais de 3.500 empresas.

Essa expansão coloca o mercado de carbono chinês como a espinha dorsal da ação climática asiática. Dados divulgados na COP30 revelam que, até outubro de 2025, o volume acumulado de negociações no ETS chinês ultrapassou 770 milhões de toneladas de permissões de carbono, movimentando mais de 51,8 bilhões de yuans (cerca de US$ 7,3 bilhões).

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Integração regional transforma fragmentação em oportunidade

O relatório "Mercados de Carbono da Ásia: Imperativos Estratégicos para Corporações em 2025", divulgado pelo Fórum Econômico Mundial (WEF), aponta que a região precisa mobilizar US$ 800 bilhões anuais em financiamento climático. A integração dos mercados de carbono asiáticos emerge como peça-chave para preencher essa lacuna.

Atualmente, países como Japão, Coreia do Sul e Singapura operam sistemas maduros de precificação de carbono. O Japão desenvolve mecanismos de comércio de emissões e programas voluntários, enquanto a Coreia do Sul mantém o K-ETS, primeiro sistema de comércio de emissões da região, que cobre cerca de 89% das emissões nacionais. Singapura implementou um imposto sobre carbono que atrai atenção internacional pela sua estrutura de precificação fixa.

A ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático) está desenvolvendo estruturas comuns para facilitar o comércio transfronteiriço de créditos de carbono.

A Indonésia propôs uma ligação bidirecional de mercado com a China, enquanto diálogos estratégicos entre China, Japão e Coreia do Sul sobre mercados de carbono foram programados no âmbito do Fórum Financeiro Ásia-Pacífico.

Artigo 6 do Acordo de Paris impulsiona cooperação internacional

A operacionalização do Artigo 6 do Acordo de Paris, aprovada na COP29 no Azerbaijão, fornece a base jurídica para um comércio internacional de carbono credível. O mecanismo estabelece regras para evitar dupla contagem de reduções de emissões e facilita conexões entre mercados nacionais.

Durante a COP30 em Belém, União Europeia e China aderiram ao Brasil em uma coalizão voltada para melhorar a colaboração em mercados de carbono.

A iniciativa conta também com Reino Unido, Canadá, Chile, Armênia, Zâmbia, França, México e Alemanha. O objetivo é criar padrões comuns para sistemas de Monitoramento, Relato e Verificação (MRV), garantindo transparência e integridade ambiental.

O Mecanismo Conjunto de Crédito (JCM) do Japão demonstra como a cooperação bilateral desbloqueia financiamento climático. Em janeiro de 2026, Japão e Maldivas concluíram a primeira transferência internacional de créditos de carbono sob o JCM, envolvendo um projeto de microrrede inteligente que gerou 433 toneladas de CO2 equivalente em créditos para o lado japonês e 317 toneladas para as Maldivas.

Sistema chinês projeta demanda bilionária até 2030

Analistas estimam que o ETS chinês atingirá cobertura entre 8,7 e 10,6 bilhões de toneladas de emissões até o final da década de 2020.

O programa de Redução Certificada de Emissões da China (CCER) foi relançado com foco em qualidade, priorizando projetos de silvicultura, energias renováveis e captura de metano.

A demanda por créditos CCER pode alcançar entre 300 e 500 milhões de toneladas por ano até 2030, impulsionando a liquidez do mercado.

Muitos projetos estão sendo estruturados para se alinhar aos critérios de elegibilidade do Artigo 6, abrindo caminho para demanda internacional de compradores globais que buscam reduções verificáveis.

O preço médio das Permissões de Emissão da China (CEA) subiu para 91,81 yuans por tonelada em 2024, representando aumento de 44% em relação ao ano anterior e atingindo o nível mais alto desde o lançamento do mercado.

Até o final de 2024, os preços superaram 100 yuans por tonelada, sinalizando o endurecimento progressivo das regras de compliance.

Desafios persistem com preços baixos e fragmentação

Apesar dos avanços, os preços do carbono na Ásia permanecem significativamente abaixo do necessário para impulsionar descarbonização em larga escala. Dados do Instituto de Economia Energética e Análise Financeira (IEEFA) mostram que os preços regionais ficam abaixo de US$ 20 por tonelada de CO2 equivalente, muito distante dos US$ 50 a US$ 100 por tonelada estimados como necessários até 2030 para cumprir as metas do Acordo de Paris.

O sistema europeu de comércio de emissões negociou permissões a uma média de aproximadamente US$ 80 por tonelada de CO2 equivalente nos primeiros nove meses de 2025, contrastando com apenas US$ 11 por tonelada no mercado chinês. Essa discrepância de preços dificulta a competitividade e limita o incentivo para reduções profundas de emissões.

A implementação do Mecanismo de Ajuste de Carbono nas Fronteiras (CBAM) da União Europeia, prevista para 2026, cria pressão adicional sobre os mercados asiáticos. Estudos preliminares estimam que os setores de aço e alumínio da China precisarão pagar entre 2 bilhões e 2,8 bilhões de yuans anuais na primeira fase do CBAM, adicionando custos de 652 a 690 yuans por tonelada de aço.

Imperativos corporativos para empresas asiáticas

O relatório do WEF identifica três imperativos estratégicos para corporações que operam na Ásia. Primeiro, o engajamento precoce permite que empresas se protejam contra riscos de preço, garantam compensações de alta qualidade e se preparem para regulamentações futuras mais rigorosas.

Segundo, a reinvenção das cadeias de suprimentos se torna essencial. Empresas precisam mapear emissões em todos os fornecedores e redes logísticas. Parcerias em projetos climáticos como reflorestamento, energia renovável e redução de metano criam novos fluxos de valor enquanto gerenciam riscos regulatórios.

Terceiro, a transformação da estratégia empresarial exige que o carbono deixe de ser responsabilidade exclusiva dos departamentos de sustentabilidade e passe a integrar decisões de diretoria. Empresas estão aplicando preços internos de carbono, geralmente em torno de US$ 50 por tonelada, para orientar investimentos em eletrificação, eficiência energética e tecnologias de captura de carbono.

Roteiro de cinco passos para integração regional

O Fórum Econômico Mundial delineou um roteiro prático para transformar o mosaico de sistemas asiáticos em uma rede regional poderosa. As cinco etapas prioritárias incluem criar um Conselho Regional do Mercado de Carbono para coordenar políticas e alinhar padrões, harmonizar regras de Monitoramento, Relato e Verificação com o Artigo 6 e frameworks de integridade, investir em infraestrutura digital baseada em blockchain e inteligência artificial, implementar corredores transfronteiriços de comércio por meio de projetos-piloto bilaterais estratégicos, e recompensar pioneiros com programas estruturados de aceleração.

Se implementadas corretamente, essas medidas poderiam mobilizar bilhões de dólares para a transição energética da Ásia. A região tem potencial para fornecer entre 1 e 2 gigatoneladas de créditos anualmente, ajudando a reduzir custos globais de descarbonização e melhorando o acesso ao financiamento climático.

Brasil fortalece posição em coalizão global

O Brasil lidera a Coalizão Aberta de Mercados Regulados de Carbono, lançada durante a COP30 em Belém, que já conta com 18 países membros. A iniciativa pretende estabelecer padrões comuns de MRV e criar plataforma colaborativa para troca de experiências sobre sistemas de comércio de emissões.

A aprovação da Lei 15.042/2024, que criou o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE), coloca o Brasil em posição estratégica para integração com mercados asiáticos. A legislação prevê interoperabilidade do SBCE com outros mercados, facilitação da transição de créditos voluntários para o sistema regulado e transferência internacional de resultados de mitigação (ITMOs) com validade nacional.

Plataformas brasileiras especializadas em transformação de ativos sustentáveis, como o Portal B4, desenvolvem soluções baseadas em blockchain para garantir transparência e rastreabilidade em negociações de créditos de carbono. A tecnologia permite que empresas verifiquem a origem e o impacto real de projetos climáticos, utilizando Certificados de Ação Climática em formato NFT para comprovar ações de compensação.