Empresas devem ampliar compra de créditos de carbono nos próximos anos
Pesquisa global revela que 90% dos compradores corporativos planejam manter aquisições no mercado voluntário com aumento de 25% até 2035
Mercado voluntário de créditos de carbono deve crescer 25% até 2035, impulsionado por compromissos corporativos de descarbonização e maior qualidade dos projetos. Foto: Freepik
O mercado voluntário de créditos de carbono segue em expansão, impulsionado pelo compromisso corporativo com a descarbonização.
Uma pesquisa inédita do Instituto Morgan Stanley para Investimento Sustentável revelou que mais de 90% das empresas que já adquirem créditos voluntários pretendem continuar comprando, com expectativa de crescimento médio superior a 25% nos volumes até 2035.
O levantamento ouviu 225 empresas globais com faturamento anual acima de US$ 1 bilhão para mapear como as estratégias corporativas em relação aos créditos de carbono voluntários devem evoluir nos próximos anos.
Os resultados mostram uma clara divisão entre três grupos: companhias que já compram créditos, aquelas que planejam entrar no mercado e as que optam por não participar.
Os dados indicam que, embora os mercados voluntários ainda sejam pequenos quando comparados aos sistemas globais de conformidade regulatória, o engajamento corporativo está se tornando mais estruturado e estratégico, com as empresas incorporando os créditos como parte fundamental de suas metas climáticas de longo prazo.
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As companhias que já adquirem créditos de carbono voluntários são, em sua maioria, grandes corporações de capital aberto com metas de emissão zero estabelecidas. Entre esse grupo, 95% possuem compromissos net zero, demonstrando alinhamento entre a compra de créditos e objetivos climáticos mais amplos.
Para essas empresas, o principal fator que determina a demanda futura por créditos não é o preço, mas sim o progresso interno na descarbonização. Cerca de 32% dos compradores atuais citaram avanços em suas próprias operações e cadeias de valor como o principal impulsionador dos volumes futuros de aquisição.
Essa perspectiva sugere uma mudança importante: os créditos de carbono estão sendo vistos cada vez mais como complemento à redução de emissões operacionais, e não como substituto de ações concretas de descarbonização. Em média, os compradores atuais esperam que aproximadamente dois terços da redução de suas emissões venham de esforços internos ou melhorias em suas cadeias de valor.
Outros 28% da redução devem vir da descarbonização da rede elétrica e medidas similares de infraestrutura externa. Apenas 7% das emissões residuais seriam tratadas por meio de remoção de carbono através de créditos voluntários, reforçando o papel complementar desses instrumentos nas estratégias climáticas corporativas.
Preço e regulação travam novos participantesEnquanto os compradores estabelecidos demonstram confiança, as empresas que planejam entrar nos mercados voluntários de carbono apresentam perfil mais cauteloso. Embora esperem atingir volumes de compra similares aos dos compradores atuais até 2030, mais da metade desses futuros participantes relata baixa ou muito baixa visibilidade sobre quantos créditos comprarão efetivamente.
O preço emerge como a principal barreira, especialmente para empresas na América do Norte e na região Ásia-Pacífico. Já a clareza regulatória é consideração mais relevante para companhias sediadas na Europa, Oriente Médio e África (EMEA), refletindo diferenças na maturidade das políticas climáticas e no nível de escrutínio público sobre alegações ambientais nesses mercados.
Essa incerteza ressalta a necessidade de sinais de mercado mais claros e estruturas regulatórias consistentes para que os mercados voluntários possam expandir além dos pioneiros. Entre os futuros compradores, 85% já possuem metas de emissão zero estabelecidas, indicando comprometimento climático, mas ainda avaliam com cautela os custos e riscos reputacionais associados à compra de créditos.
Por que algumas empresas ficam de foraNem todas as corporações veem espaço para os créditos de carbono voluntários em suas estratégias climáticas. Entre as que não compram créditos, 39% acreditam que podem descarbonizar completamente suas próprias cadeias de valor, eliminando a necessidade de aquisições externas.
No entanto, os dados revelam um comprometimento geral mais fraco com metas de emissões entre os não-compradores. Apenas 25% desse grupo possui atualmente uma meta de emissão zero líquida, contrastando com 95% dos compradores atuais e 85% dos futuros compradores.
Quase um terço dos não-compradores afirma não ter planos de definir metas net zero, enquanto 44% ainda estão desenvolvendo suas estratégias climáticas.
A composição setorial também influencia essa decisão. Entre os não-compradores, há proporção maior de empresas do setor de saúde e menor presença de companhias energéticas, sugerindo que menor intensidade de carbono nas operações reduz a percepção de dependência dos mercados voluntários.
Emissões de Escopo 3 ganham protagonismoA atenção corporativa está se deslocando para as emissões de Escopo 3, aquelas geradas ao longo de toda a cadeia de valor, que geralmente representam a maior parte do impacto climático corporativo. Entre compradores atuais e futuros, mais de 85% já estão implementando ou considerando projetos de descarbonização em suas cadeias de fornecimento.
Essas iniciativas incluem programas de eficiência energética junto a fornecedores e projetos de restauração ambiental destinados a reduzir emissões na origem. Isso significa que os esforços de descarbonização não se limitam mais às operações diretas.
À medida que o Escopo 3 se torna prioridade, as equipes de gestão buscam estratégias que combinem redução de emissões com biodiversidade e gestão responsável da natureza em suas cadeias de valor. Essa abordagem é particularmente relevante para empresas voltadas ao consumidor e aquelas com exposição à agricultura ou commodities, setores onde a ação holística encontra forte ressonância junto aos stakeholders.
Qualidade acima da quantidadeO risco reputacional continua sendo preocupação central no mercado voluntário. Quase metade dos compradores atuais classifica os créditos de carbono entre os principais riscos reputacionais que gerenciam, mas mais de 80% afirmam que os benefícios percebidos superam esses riscos.
Para gerenciar a exposição, a maioria das empresas adota portfólios diversificados de créditos, evitando dependência de fontes únicas. A demanda está cada vez mais concentrada em créditos de alta integridade, incluindo aqueles alinhados com os Princípios Essenciais de Carbono do ICVCM (Integrity Council for the Voluntary Carbon Market).
Contudo, a oferta permanece limitada. O mercado tem observado uma mudança em direção a créditos de maior qualidade há mais de dois anos. As empresas têm ideia clara de quais instrumentos desejam adquirir e quanto estão dispostas a pagar.
As solicitações mais comuns são para soluções baseadas na natureza, na faixa de US$ 15 a US$ 30 por tonelada.
Mercado brasileiro e perspectivasO Brasil possui posicionamento estratégico nesse cenário global. Com aproximadamente 60% do território nacional preservado e legislação ambiental robusta, o país tem potencial para se tornar líder no fornecimento de créditos de carbono de alta qualidade, especialmente aqueles baseados em conservação florestal e biodiversidade.
A B4, primeira Bolsa de Ação Climática do Brasil, trabalha desde 2023 para conectar projetos sustentáveis brasileiros a compradores corporativos por meio de tecnologia blockchain, garantindo rastreabilidade e transparência nas transações. A plataforma utiliza transformação de ativos sustentáveis para facilitar a negociação, emitindo Certificados de Ação Climática em formato NFT que comprovam a origem e autenticidade dos créditos.
À medida que as estratégias climáticas corporativas amadurecem globalmente, os mercados voluntários de carbono se consolidam como ferramenta de apoio na transição para economia de baixo carbono. Seu papel de longo prazo dependerá da capacidade da oferta, dos padrões de qualidade e das políticas públicas acompanharem a demanda corporativa cada vez mais sofisticada e exigente.