BlackRock considera IA um novo teste de estresse para a energia limpa
Demanda por eletricidade de centros de dados deve duplicar até 2030
Centros de dados impulsionados por inteligência artificial devem duplicar consumo de eletricidade até 2030. Foto: Canva
A inteligência artificial deixou de ser apenas uma revolução tecnológica para se tornar um dos principais desafios da transição energética global. Segundo o relatório Global Outlook 2026 da BlackRock, uma das maiores gestoras de ativos do mundo, a IA se consolidará em 2026 como força determinante para sistemas de energia, trajetórias de emissões e estratégias climáticas corporativas de longo prazo.
A expansão acelerada da infraestrutura de IA está transformando radicalmente a forma como a eletricidade é produzida, para onde o capital flui e como os riscos climáticos são gerenciados.
Dados da Agência Internacional de Energia (AIE) revelam que o consumo de eletricidade por centros de dados dobrará para aproximadamente 945 terawatts-hora (TWh) até 2030 - volume ligeiramente superior ao consumo total de energia do Japão atualmente.
A demanda energética não é temporária. Sistemas de IA exigem poder computacional enorme para processar grandes modelos de linguagem, análises em tempo real e aplicações avançadas.
Os centros de dados operam ininterruptamente, e à medida que esses sistemas crescem, a necessidade por eletricidade aumenta drasticamente. O Goldman Sachs Research projeta crescimento de 50% na demanda de energia para data centers até 2027, com a participação da IA saltando dos atuais 14% para 27%.
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Matriz energética limpa torna-se infraestrutura essencial para economia digital
A inteligência artificial está redefinindo o papel da energia renovável na economia global. Não se trata mais apenas de uma solução climática, mas de infraestrutura crítica para o crescimento digital.
À medida que os sistemas de IA se expandem, os centros de processamento exigem fornecimento de eletricidade estável, confiável e contínuo.
Energia solar, eólica, nuclear e sistemas de armazenamento oferecem fornecimento de longo prazo com menor emissão de carbono. Por isso, empresas de tecnologia estão cada vez mais firmando contratos de energia limpa de longo prazo para reduzir tanto a volatilidade dos preços quanto o risco de emissões.
Do ponto de vista de investimentos, essa mudança já está remodelando fluxos de capital globais. O crescimento impulsionado pela IA acelera investimentos em ativos de energia limpa diretamente ligados à infraestrutura digital.
Levantamento da Wells Fargo prevê aumento de 550% no consumo de energia de IA até 2026, atingindo 52 TWh, e salto de 1.150% até 2030, chegando a 652 TWh.
A BlackRock destaca que o fluxo de capital determinará se a IA apoiará ou prejudicará metas climáticas globais. Investimentos em geração limpa, expansão de redes elétricas, armazenamento de energia e energia de base de baixo carbono tornam-se cada vez mais cruciais à medida que a demanda digital aumenta.
Emissões aumentam durante fase de construção da infraestrutura
Embora a IA possa contribuir para eficiência a longo prazo, seu impacto climático inicial não é positivo. A construção de infraestrutura exige investimento massivo em centros de dados, servidores, linhas de transmissão e chips avançados. Estes dependem de aço, cimento e processos de fabricação que consomem muita energia.
Dados da MIT Technology Review revelam que 4,4% de toda energia consumida nos Estados Unidos é destinada aos data centers. O consumo energético desses centros dobrou entre 2017 e 2023, período em que a IA começou a mudar completamente o perfil de demanda. Relatórios indicam que centros de dados consomem atualmente entre 460 e 1.050 TWh globalmente.
A BlackRock alerta claramente para esse desequilíbrio temporal. Os gastos de capital ocorrem agora, enquanto ganhos de produtividade e eficiência chegam mais tarde. Essa diferença de cronograma é crítica para estratégias climáticas. Sem esforços para reduzir emissões durante a construção, a IA corre o risco de consolidar emissões mais altas no curto prazo.
Estudos técnicos demonstram a magnitude do consumo. O treinamento do GPT-4 demanda cerca de 28.800.000 kWh, equivalente ao consumo energético anual de aproximadamente 1.300 lares nos Estados Unidos. Cada uso do GPT-4 consome entre 0,001 e 0,01 kWh, comparado a 0,0003 kWh de uma busca no Google - ou seja, operações com IA são de 3,3 a 33,3 vezes mais demandantes energeticamente.
Potencial de redução de emissões através de aplicações estratégicas
Apesar dos riscos, a IA também oferece ferramentas poderosas para apoiar descarbonização. Sistemas de inteligência artificial podem melhorar gestão de redes elétricas, prever produção de energia renovável com mais precisão e reduzir desperdício de energia em diversos setores.
No setor de transportes, a IA reduz consumo de combustível através de rotas e logística mais inteligentes. Na indústria, otimiza processos e diminui intensidade energética. Em toda a cadeia de suprimentos, pode reduzir desperdício e melhorar eficiência no uso de recursos.
O benefício climático depende da escala. Pequenos ganhos de eficiência aplicados em grandes sistemas geram reduções significativas de emissões. No cenário de "Adoção Generalizada" da AIE, soluções habilitadas por IA poderiam reduzir até 1,4 gigatoneladas (Gt) de emissões de CO₂ por ano até 2035 - cerca de 5 vezes mais que as emissões de data centers nesse mesmo ano.
A IA pode detectar e reparar vazamentos de metano em operações de petróleo e gás, otimizar processos industriais, agilizar fluxos de trânsito e otimizar consumo no setor imobiliário. A BlackRock considera o crescimento da produtividade um caminho fundamental para reduzir intensidade das emissões ao longo do tempo.
Brasil emerge como polo estratégico de data centers sustentáveis
O Brasil está aproveitando sua matriz energética limpa para se posicionar como hub global de data centers verdes. Com aproximadamente 83% de eletricidade proveniente de fontes renováveis, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o país apresenta vantagem competitiva significativa em relação a potências como Estados Unidos (24% renovável), China (32%) e Europa (45%).
Levantamento da MIT Technology Review Brasil mostra que data centers brasileiros já respondem por cerca de 1,7% do consumo total de energia elétrica no país, equivalente a aproximadamente 8,2 TWh. A projeção indica que essa participação pode chegar a 3,9% do consumo nacional até 2029, impulsionada pelo avanço de aplicações intensivas em processamento.
O país conta atualmente com 163 unidades de data centers em operação, sendo o 10º no ranking global. Projetos ambiciosos estão em desenvolvimento, como o Rio AI City, complexo tecnológico em Jacarepaguá que prevê capacidade energética de 1,5 gigawatts (GW) até 2027, com expansão para 3,2 GW até 2032, utilizando 100% de energia renovável.
Marcus Vinícius de Oliveira, gerente sênior de projetos estratégicos da Engemon, destaca que centros de IA consomem 70% mais energia que os convencionais. "Nossa matriz energética é uma das mais limpas e robustas do mundo. Isso atrai cada vez mais empresas comprometidas com descarbonização", afirma.
Mercados privados aceleram financiamento de infraestrutura climática
Grande parte da infraestrutura necessária para suportar IA e sustentabilidade está fora dos mercados públicos. Melhorias em redes elétricas, armazenamento de energia e aumentos de eficiência geralmente dependem de capital privado, que pode agir mais rapidamente e assumir horizontes de investimento de longo prazo.
Plataformas especializadas em transformação de ativos sustentáveis, como o Portal B4, desenvolvem soluções baseadas em blockchain para garantir transparência e rastreabilidade em negociações de créditos de carbono. A tecnologia permite que empresas verifiquem origem e impacto real de projetos climáticos.
Investimentos ligados à inteligência artificial somaram US$ 252,3 bilhões em 2024, alta de quase 50% em relação ao ano anterior, segundo o AI Index Report 2025 da Universidade de Stanford. Projeções mais otimistas indicam que esse total pode chegar a US$ 456 bilhões em 2026.
A BlackRock enfatiza que o alinhamento entre políticas públicas, capital e tecnologia determinará se a IA fortalecerá ou prejudicará a transição energética. Licenciamento mais ágil, redes elétricas modernizadas e apoio à energia de baixo carbono podem eliminar entraves e garantir que expansão digital esteja alinhada com metas de sustentabilidade.
O relatório conclui que em 2026 a IA deixará de ser neutra em carbono. Seu impacto ambiental dependerá dos sistemas energéticos que a sustentam e das escolhas de investimento feitas hoje. A mensagem é clara: a IA pode tanto agravar riscos climáticos quanto ajudar a gerenciá-los, e a diferença reside na rapidez com que energia limpa se expande.