Diginex adquire plataforma de contabilização de carbonopor US$ 64 milhões

Empresa vai criar solução integrada de relatórios ESG e descarbonização corporativa

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
13 Min

Plataforma integrada: fusão Diginex-Plan A une relatórios ESG com contabilidade de carbono e descarbonização

A Diginex, empresa britânica especializada em tecnologia regulatória (RegTech) para sustentabilidade, anunciou a assinatura de acordo definitivo para adquirir a Plan A, fornecedora alemã de software para medição, relatórios e redução de carbono.

O valor total da transação alcança €55 milhões (US$ 64 milhões), sendo €52 milhões em ações e €3 milhões em dinheiro, conferindo à Diginex 100% do capital da Plan A.

A operação, que havia sido anunciada como memorando não vinculativo em dezembro de 2025, traz como novos acionistas da Diginex instituições do peso de Visa e Deutsche Bank.

A aquisição representa a mais recente de uma série de transações estratégicas da empresa britânica, que incluem a compra da consultoria em direitos humanos The Remedy Project, da empresa de dados ESG Matter (adquirida da Nasdaq em outubro) e da plataforma de monitoramento de riscos na cadeia de suprimentos Findings (em agosto).

O movimento ocorre em momento crucial para o mercado de tecnologia em sustentabilidade, quando empresas enfrentam convergência sem precedentes de exigências regulatórias, expectativas de investidores e demandas de clientes por transparência e dados auditáveis de descarbonização.

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O setor de software para ESG e sustentabilidade atravessa fase de crescimento exponencial. Avaliado em aproximadamente US$ 16 bilhões em 2025, o mercado está projetado para dobrar e atingir US$ 32 bilhões até 2030, com taxa de crescimento anual composta de 15%. Estimativas mais otimistas apontam que o segmento pode ultrapassar US$ 100 bilhões até 2032, impulsionado por demandas crescentes por transparência em emissões Scope 3, previsões baseadas em inteligência artificial e caminhos verificáveis para emissões líquidas zero.

A expansão é alimentada por múltiplos fatores convergentes. Na Europa, a Diretiva de Relatórios de Sustentabilidade Corporativa (CSRD) da União Europeia impõe requisitos rigorosos de divulgação climática para aproximadamente 50.000 empresas. Embora o pacote Omnibus I, aprovado em dezembro de 2025, tenha reduzido o escopo para companhias com mais de 1.000 funcionários e receita superior a €450 milhões, as exigências de qualidade e auditoria dos dados permanecem extremamente rigorosas.

Paralelamente, investidores institucionais pressionam por relatórios padronizados conforme os Padrões Internacionais de Relatórios de Sustentabilidade (ISSB), enquanto a Iniciativa de Metas Baseadas na Ciência (SBTi) exige mensuração de emissões Scope 3 para validação de compromissos net-zero. Essa confluência de pressões regulatórias e de mercado cria demanda estrutural por soluções tecnológicas robustas.

Fragmentação como problema central

O mercado de sustentabilidade corporativa sofre com fragmentação severa. Empresas precisam gerenciar simultaneamente múltiplas ferramentas isoladas para transparência da cadeia de suprimentos, relatórios ESG, contabilidade de carbono e estratégias de descarbonização. Essa abordagem fragmentada eleva custos, aumenta riscos de inconsistências e dificulta auditorias.

"Por muito tempo, o mercado permaneceu profundamente fragmentado, forçando as empresas a gerenciar soluções isoladas e díspares para transparência da cadeia de suprimentos, relatórios ESG, contabilidade de carbono e descarbonização", afirmou Lubomila Jordanova, fundadora e CEO da Plan A. "Ao unificar a tecnologia de descarbonização de alta precisão da Plan A com a expertise em RegTech e regulamentação da Diginex, seremos capazes de fornecer uma plataforma única e sofisticada que transforma dados fragmentados em impacto climático mensurável e um claro retorno financeiro sobre o investimento."

A nova entidade combinada pretende oferecer plataforma integrada que conecta relatórios regulatórios, emissões da cadeia de valor e estratégia de descarbonização em ambiente unificado, eliminando a necessidade de múltiplos fornecedores e reduzindo complexidade operacional.

Capacidades complementares das duas empresas

A Diginex, com sede em Londres e listada na Nasdaq (DGNX), desenvolveu plataforma premiada de relatórios ESG que suporta 19 frameworks globais, incluindo GRI (Global Reporting Initiative), SASB (Sustainability Accounting Standards Board) e TCFD (Task Force on Climate-related Financial Disclosures). A empresa utiliza blockchain, inteligência artificial e análise de dados para aumentar transparência em relatórios regulatórios corporativos e finanças sustentáveis.

A Plan A, fundada em 2017 por Lubomila Jordanova e sediada em Berlim, oferece plataforma SaaS certificada focada em contabilidade de carbono corporativa, descarbonização e relatórios. A solução está em conformidade com o Protocolo de Gases de Efeito Estufa (GHG Protocol) e com a Iniciativa de Metas Baseadas na Ciência (SBTi), atendendo mais de 1.500 clientes, incluindo BMW, Deutsche Bank, Visa, Trivago e Chloé.

A plataforma da Plan A permite que empresas coletem dados de carbono com facilidade, mensurem sua pegada completa, definam metas baseadas na ciência, relatem progresso às partes interessadas e criem planos abrangentes de descarbonização. A tecnologia inclui o Gaia AI, solução de inteligência artificial que automatiza cálculos de emissões nos Scopes 1, 2 e 3.

O desafio crítico do Scope 3

A mensuração de emissões Scope 3 representa um dos maiores obstáculos para empresas que buscam cumprir compromissos climáticos. Diferentemente do Scope 1 (emissões diretas de fontes controladas pela empresa) e Scope 2 (emissões indiretas da energia comprada), o Scope 3 abrange todas as demais emissões indiretas que ocorrem na cadeia de valor, tanto a montante quanto a jusante.

Segundo o GHG Protocol, o Scope 3 está dividido em 15 categorias, incluindo bens e serviços adquiridos, viagens de negócios, transporte e distribuição, processamento de produtos vendidos, uso de produtos vendidos e descarte final. Para a maioria das empresas, essas emissões representam 75% a 80% do total de gases de efeito estufa, tornando-as o principal alvo para reduções significativas.

O desafio reside na complexidade da coleta de dados. Diferentemente dos Scopes 1 e 2, onde empresas têm acesso direto a informações sobre consumo de combustível e eletricidade, o Scope 3 requer dados de centenas ou milhares de fornecedores, muitos dos quais não possuem sistemas de medição estruturados. Pequenos fornecedores frequentemente carecem de capacidade técnica ou recursos para fornecer dados granulares de emissões.

Plataformas digitais que automatizam a coleta de dados, utilizam inteligência artificial para preencher lacunas informacionais e oferecem dashboards integrados para visualização tornam-se essenciais. A combinação das capacidades da Plan A em modelagem precisa de emissões com as ferramentas de cadeia de suprimentos da Diginex visa endereçar exatamente essa lacuna.

Pressões regulatórias intensificam demanda

A CSRD europeia estabeleceu novo patamar de rigor para relatórios de sustentabilidade. A diretiva exige que empresas no escopo reportem conforme os Padrões Europeus de Relatórios de Sustentabilidade (ESRS), que cobrem aproximadamente 1.100 pontos de dados potenciais distribuídos em 12 padrões abrangendo temas ambientais, sociais e de governança.

Um elemento crucial da CSRD é a dupla materialidade, conceito que exige que empresas reportem tanto como questões de sustentabilidade afetam seu desempenho financeiro (materialidade financeira) quanto como suas atividades impactam sociedade e meio ambiente (materialidade de impacto). Essa abordagem "dentro-fora e fora-dentro" representa mudança paradigmática em relação a frameworks anteriores.

Adicionalmente, a diretiva impõe assurance obrigatória para todos os dados de sustentabilidade reportados. Inicialmente limitada, a verificação pode escalar para nível razoável até 2028, comparável à auditoria de demonstrações financeiras. Essa exigência pressiona empresas a implementarem controles internos robustos e sistemas de coleta de dados auditáveis.

Estudos indicam que 83% das empresas consideram significativamente desafiadora a coleta de dados precisos para conformidade com CSRD. Soluções de software que integram dados transacionais de sistemas ERP, automatizam cálculos e geram trilhas de auditoria tornam-se não apenas convenientes, mas necessárias para cumprir prazos regulatórios.

Estratégia de aquisições da Diginex

A aquisição da Plan A representa a quarta operação significativa da Diginex em seis meses, evidenciando estratégia agressiva de consolidação no mercado de RegTech para sustentabilidade. Em agosto, a empresa adquiriu a Findings, plataforma de monitoramento de riscos na cadeia de suprimentos. Em outubro, fechou acordo para comprar a Matter, empresa dinamarquesa de dados ESG que tinha a Nasdaq como investidora estratégica, em transação avaliada em US$ 13 milhões.

Mais recentemente, em janeiro de 2026, completou a aquisição da The Remedy Project, organização especializada em direitos humanos e due diligence trabalhista em cadeias globais de suprimentos. A integração dessas capacidades cria ecossistema abrangente que conecta avaliação de riscos ESG, engajamento de trabalhadores, medição de carbono e relatórios regulatórios em plataforma unificada.

Miles Pelham, presidente da Diginex, comentou: "A aquisição da Plan A representa um marco transformador na oferta da plataforma de sustentabilidade mais avançada e fácil de usar disponível no mercado. A sinergia entre nossas ferramentas ESG e a expertise em carbono da Plan A capacitará empresas em todo o mundo a lidar com regulamentações cada vez mais complexas e a alcançar um progresso significativo, baseado em dados, em direção a metas de sustentabilidade e objetivos financeiros."

Expansão geográfica estratégica

A transação possui dimensão geográfica importante. A Diginex fortalecerá sua presença na Europa através da base de clientes estabelecida da Plan A e do reconhecimento da marca no mercado alemão, um dos mais maduros em regulamentação ESG. Simultaneamente, a Plan A acelerará crescimento na Ásia e América do Norte aproveitando a infraestrutura global e a plataforma de empresa pública da Diginex.

A empresa combinada atenderá relacionamentos estratégicos existentes incluindo HSBC, Coca-Cola, Visa, BMW e Deutsche Bank. A diversificação geográfica e setorial reduz dependência de mercados específicos e posiciona a nova entidade para capturar oportunidades em regiões com diferentes níveis de maturidade regulatória.

Na América Latina, onde o Brasil aprovou recentemente a Lei 15.042/2024 instituindo o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), empresas começam a estruturar inventários de gases de efeito estufa e buscar soluções tecnológicas para gestão de carbono. O mercado brasileiro representa oportunidade significativa para plataformas consolidadas que ofereçam funcionalidades completas.

Tecnologia blockchain e transformação de ativos

A Diginex possui expertise diferenciada em aplicações de blockchain para transparência corporativa. A tecnologia de registro distribuído oferece imutabilidade, rastreabilidade e transparência para dados de sustentabilidade, características cada vez mais valorizadas por auditores e reguladores.

No contexto de mercados de carbono, blockchain facilita a transformação de ativos ambientais em certificados digitais verificáveis. Plataformas como a B4, primeira bolsa de ação climática do Brasil, já utilizam blockchain para garantir rastreabilidade completa de ativos sustentáveis, da origem até o comprador final, impedindo fraudes e duplicidade de certificados.

Os Certificados de Ação Climática em formato NFT representam evolução na forma de comprovar compensações de carbono. Estes certificados digitais únicos impossibilitam fraudes e facilitam auditorias, aumentando confiança de investidores e reguladores. A combinação entre inteligência artificial para cálculos precisos de emissões e blockchain para registro imutável cria infraestrutura robusta para mercados de carbono confiáveis.

Desafios de integração e execução

Apesar das sinergias evidentes, a Diginex enfrenta desafios significativos de execução. Gerenciar simultaneamente a integração de quatro aquisições recentes requer coordenação complexa de equipes, sistemas e culturas corporativas distintas. Especialistas em fusões e aquisições alertam que empresas que crescem por aquisições agressivas frequentemente enfrentam dificuldades operacionais.

Adicionalmente, a empresa possui obrigações de earnout ambiciosas atreladas a metas de EBITDA. A necessidade de entregar resultados financeiros específicos em prazos determinados pode criar tensões entre imperativos de curto prazo e investimentos de longo prazo necessários para desenvolver produtos integrados de qualidade.

O mercado de capitais também avalia criteriosamente a capacidade da Diginex de transformar aquisições em crescimento orgânico. A empresa reportou crescimento de receita de 293% no primeiro semestre, indicando tração comercial, mas a sustentabilidade desses números dependerá da efetividade da integração e da realização de sinergias de venda cruzada.

Implicações para o mercado brasileiro

O Brasil está estruturando seu mercado regulado de carbono através do SBCE, que entrará em operação plena em 2030. A fase inicial, iniciada em 2025, define governança e estabelece limites de emissões para instalações industriais. Empresas brasileiras enfrentam necessidade crescente de implementar sistemas de medição, reporte e verificação (MRV) compatíveis com padrões internacionais.

A disponibilidade de plataformas consolidadas como a resultante da fusão Diginex-Plan A pode acelerar a adoção de melhores práticas por empresas brasileiras que buscam acessar capital internacional ou vender produtos em mercados com exigências ESG rigorosas. Compradores europeus e norte-americanos cada vez mais exigem que fornecedores demonstrem gestão adequada de emissões através de relatórios auditáveis.

O potencial brasileiro de movimentar US$ 120 bilhões até 2030 no mercado de carbono depende parcialmente da capacidade das empresas nacionais de gerarem créditos de alta qualidade com certificação robusta e dados verificáveis. Ferramentas digitais que automatizam coleta de dados, aplicam metodologias reconhecidas internacionalmente e produzem relatórios compatíveis com múltiplos frameworks tornam-se diferenciais competitivos.

Futuro da RegTech para sustentabilidade

O setor de RegTech para sustentabilidade está em ponto de inflexão. A convergência entre pressões regulatórias, expectativas de investidores e demandas de clientes cria ambiente onde conformidade deixa de ser suficiente. Empresas precisam demonstrar não apenas que medem suas emissões, mas que implementam planos críveis de descarbonização com resultados mensuráveis.

Plataformas integradas que conectam inventários de emissões a estratégias operacionais, modelam cenários de redução, calculam retornos sobre investimento em projetos de eficiência energética e rastreiam progresso em tempo real representam próxima geração de soluções. A inteligência artificial desempenhará papel crescente em preencher lacunas de dados, detectar inconsistências e sugerir intervenções baseadas em análise preditiva.

A fusão Diginex-Plan A sinaliza consolidação inevitável em mercado fragmentado. Empresas de tecnologia que conseguirem oferecer suítes completas desde coleta de dados até relatórios auditados, passando por planejamento estratégico de descarbonização, conquistarão posições dominantes. A interoperabilidade entre sistemas, a qualidade dos algoritmos de inteligência artificial e a capacidade de atualização constante conforme regulamentações evoluem serão fatores críticos de diferenciação.

Para investidores, o segmento de ESG e sustentabilidade corporativa apresenta oportunidades atrativas em mercado com crescimento estrutural impulsionado por forças regulatórias e sociais duradouras. A questão não é se empresas precisarão de soluções robustas de gestão de carbono e relatórios ESG, mas qual tecnologia prevalecerá e quais fornecedores dominarão o mercado consolidado.