1% mais rico esgota cota anual de carbono em 10 dias

Estudo da Oxfam expõe desigualdade climática extrema enquanto mercado brasileiro de ativos sustentáveis se mantém estável com dólar a R$ 5,37

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
8 Min

O mercado de ativos sustentáveis encerrou a quarta-feira (14) com estabilidade. O dólar fechou cotado a R$ 5,3795, registrando leve alta de 0,0577%. Os Ativos de Crédito de Carbono listados na B4 acompanharam a mesma volatilidade cambial, sem outras movimentações expressivas ao longo do pregão.

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Mas é fora das bolsas que o debate climático ganha contornos dramáticos. Um estudo divulgado pela Oxfam Internacional revelou que o 1% mais rico da população mundial já consumiu toda sua "cota justa" anual de emissões de carbono em apenas 10 dias de 2026. O marco, batizado de "Dia dos Ricos Poluidores", ocorreu em 10 de janeiro e expõe a desigualdade estrutural que acelera a crise climática global.

A análise considera o orçamento de carbono necessário para manter o aquecimento global dentro do limite de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, conforme estabelecido pelo Acordo de Paris. Enquanto isso, a metade mais pobre da população levaria quase três anos (1.022 dias) para atingir o mesmo nível de emissões.

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De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), o orçamento anual de carbono por pessoa compatível com a meta de 1,5°C é de aproximadamente 2,1 toneladas de CO₂ por ano. Essa cota representa a quantidade máxima que cada habitante do planeta poderia emitir mantendo-se dentro dos limites seguros.

A realidade, contudo, é alarmante. O 1% mais rico emite em média 75,1 toneladas de CO₂ por pessoa anualmente — cerca de 36 vezes o limite seguro. Isso significa aproximadamente 0,206 toneladas por dia, esgotando a cota anual em pouco mais de 10 dias. Já a metade mais pobre da população emite apenas 0,7 tonelada por ano, muito abaixo do orçamento disponível.

O recorte fica ainda mais dramático quando analisamos o 0,1% mais rico: esse grupo ultrapassou seu limite de carbono já em 3 de janeiro, apenas 72 horas após o início do ano. Uma pessoa pertencente a esse grupo emite em um único dia mais carbono do que metade da população mundial emite ao longo de um ano inteiro.

Além do estilo de vida: o poder dos investimentos

O estudo da Oxfam vai além do consumo individual e revela um aspecto frequentemente ignorado: o papel dos investimentos financeiros na perpetuação da crise climática. Cada bilionário mantém, em média, uma carteira de investimentos associada à emissão de 1,9 milhão de toneladas de CO₂ por ano, principalmente em setores altamente poluentes como petróleo, gás e carvão.

Os 50 bilionários mais ricos do mundo emitem mais carbono em apenas 90 minutos — considerando jatos privados, iates de luxo e investimentos em indústrias poluentes — do que uma pessoa comum ao longo de toda a vida. A pegada de carbono de um europeu super-rico acumulada em quase uma semana usando esses meios de transporte equivale à pegada de carbono vitalícia de alguém no 1% mais pobre do mundo.

"A imensa riqueza e o poder dos indivíduos e corporações super-ricos também lhes permitiram exercer uma influência injusta sobre a formulação de políticas e diluir as negociações climáticas", afirma Nafkote Dabi, líder de Política Climática da Oxfam.

Impactos concretos e custos humanos

As consequências dessa desigualdade de emissões são devastadoras e mensuráveis. A Oxfam estima que as emissões geradas pelo 1% mais rico em apenas um ano provocarão cerca de 1,3 milhão de mortes relacionadas ao calor extremo até o final do século. Além disso, essas emissões impõem perdas econômicas significativas aos países de baixa e média-baixa renda.

Os danos econômicos acumulados entre 1990 e 2050 são estimados em US$ 44 trilhões para essas nações — valor três vezes maior que o financiamento climático prometido pelos países ricos. Até 2050, as emissões do 1% mais rico podem levar a perdas agrícolas suficientes para alimentar 10 milhões de pessoas anualmente no Leste e Sul da Ásia.

A geografia do sofrimento climático é cruel: 80% das mortes por calor extremo ocorrerão em países de baixa e média-baixa renda, sendo 40% delas concentradas no Sul da Ásia. São justamente as populações que menos contribuíram para a crise climática — incluindo povos indígenas, mulheres e meninas em comunidades vulneráveis — que sofrerão os piores impactos.

Influência política e lobby dos combustíveis fósseis

O poder dos super-ricos não se limita às emissões diretas. Na última Conferência do Clima da ONU (COP), realizada no Brasil, o número de lobistas ligados à indústria de combustíveis fósseis chegou a cerca de 1.600 participantes — mais do que qualquer delegação nacional, exceto a do país anfitrião.

Para a Oxfam, essa influência desproporcional tem sido usada para enfraquecer negociações climáticas e retardar medidas mais ambiciosas de redução de emissões. "O imenso poder e riqueza de indivíduos e corporações super-ricos também lhes permitiu exercer uma influência injusta sobre a elaboração de políticas e diluir as negociações climáticas", destaca Dabi.

Caminhos para a justiça climática

Diante desse cenário, a Oxfam propõe um pacote robusto de medidas para responsabilizar os maiores poluidores. As propostas incluem:

Aumento de impostos sobre renda e riqueza dos super-ricos, com apoio às negociações pela Convenção da ONU sobre Cooperação Tributária Internacional. A tributação progressiva pode redirecionar recursos para ações climáticas efetivas.

Criação de um "Imposto sobre Lucros de Poluidores Ricos" aplicado a 585 empresas de petróleo, gás e carvão. Essa medida poderia arrecadar até US$ 400 bilhões no primeiro ano — valor equivalente ao custo dos danos climáticos no Sul Global. Para contextualizar, esse montante supera os US$ 300 bilhões anuais prometidos pelos países ricos em financiamento climático.

Proibição ou tributação punitiva de bens de luxo de alta intensidade de carbono, como superiates e jatos particulares. Esses itens representam não apenas emissões excessivas, mas também um símbolo de desigualdade extrema.

Regulamentação de corporações para corte obrigatório de emissões, especialmente nos setores de combustíveis fósseis, com metas alinhadas aos limites científicos do Acordo de Paris.

O desafio de reduzir 97% até 2030

Para que o aquecimento global não ultrapasse 1,5°C, o 1% mais rico precisaria reduzir suas emissões em 97% até 2030. Esse número demonstra a urgência e a magnitude da transformação necessária nos padrões de consumo e investimento desse grupo.

"Repetidamente, a pesquisa mostra que os governos têm um caminho muito claro e simples para reduzir drasticamente as emissões de carbono e combater a desigualdade: mirar nos poluidores mais ricos", afirma Dabi. "Ao reprimir a extrema imprudência com o carbono dos super-ricos, os líderes globais têm a oportunidade de recolocar o mundo no caminho das metas climáticas e desbloquear benefícios líquidos para as pessoas e o planeta."

Lições para o mercado brasileiro

Para o Brasil, que se prepara para sediar a COP30 em Belém e estrutura seu mercado regulado através da Lei 15.042/2024, o estudo da Oxfam oferece lições essenciais sobre transparência, rastreabilidade e justiça climática.

O desenvolvimento de plataformas como a B4, que utilizam tecnologia blockchain para garantir rastreabilidade nas transações de créditos de carbono, representa um caminho para assegurar que os compromissos climáticos se traduzam em ações reais. A transformação de ativos sustentáveis em Certificados de Ação Climática em formato NFT oferece mecanismos de verificação independente.

O mercado brasileiro de carbono tem o potencial de se posicionar como referência em transparência e qualidade, especialmente se incorporar princípios de justiça climática em sua estrutura regulatória. A discussão sobre quem paga a conta da transição climática não pode ser ignorada.