Ativos sustentáveis acompanham tendência de queda do dólar nesta quarta-feira (21)

Relatório da Moody's aponta quatro tendências que impulsionam investimentos verdes globais enquanto ativos de carbono acompanham volatilidade cambial

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
11 Min

Títulos sustentáveis devem movimentar US$ 900 bilhões em 2026, com destaque para projetos de mitigação climática e infraestrutura resiliente

O mercado de ativos sustentáveis registrou mais um dia de movimentação diretamente atrelada ao comportamento cambial. Em 21 de janeiro, o dólar apresentou leve queda, cotado a R$ 5,3368, com volatilidade de 0,7845% em relação ao fechamento anterior. Todos os Ativos de Crédito de Carbono listados foram impactados por essa mesma oscilação, sem outros movimentos significativos no dia.

A correlação entre a moeda americana e os ativos climáticos reflete a dinâmica do mercado brasileiro, onde a transformação de ativos sustentáveis em instrumentos negociáveis depende fundamentalmente da cotação internacional. Com a maioria das transações de crédito de carbono precificadas em dólares, qualquer variação cambial impacta diretamente o valor dos títulos negociados no país.

A primeira Bolsa de Ação Climática do Brasil, a B4, divulga diariamente boletins sobre a flutuação de preços dos ativos sustentáveis listados em seu ambiente de negociação. A proposta é apresentar a evolução dos ativos considerando tanto as leis de oferta e demanda quanto as variações cambiais, oferecendo transparência total ao mercado.

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O fato mais relevante do dia veio do relatório da Moody's, que destaca quatro temas fundamentais que levarão o mercado de títulos sustentáveis a quase US$ 1 trilhão em 2026. A projeção da agência de classificação de risco indica que as emissões devem atingir US$ 900 bilhões ao longo deste ano, mantendo a estabilidade registrada em 2025.

Longe de representar estagnação, esse patamar sinaliza a consolidação do mercado de finanças sustentáveis como um pilar estrutural da economia global. A destinação de quase US$ 1 trilhão anualmente para a agenda climática demonstra que investimentos verdes deixaram de ser tendência para se tornar realidade permanente nos portfólios institucionais.

Do total projetado para 2026, cerca de US$ 530 bilhões em títulos verdes ainda são direcionados especificamente para mitigação climática. Essa categoria inclui projetos de redução de emissões, energia renovável e eficiência energética, concentrando a maior parcela das dívidas ligadas a critérios sustentáveis.

O restante do valor se distribui entre outras modalidades de investimento verde: US$ 190 bilhões em títulos de sustentabilidade, US$ 115 bilhões em títulos sociais, US$ 40 bilhões em títulos de transição e US$ 25 bilhões em títulos vinculados à sustentabilidade. Cada categoria atende a necessidades específicas do mercado, desde projetos socioambientais até a transição energética de setores industriais.

Os quatro pilares do crescimento sustentável

A análise da Moody's identifica quatro tendências principais que moldam o mercado global de dívida verde e sustentam as projeções otimistas para 2026.

O primeiro pilar relaciona-se à necessidade crescente de refinanciamento. Aproximadamente US$ 520 bilhões em instrumentos financeiros rotulados têm vencimento previsto para 2026, contra US$ 425 bilhões em 2025. Essa demanda por refinanciamento cria oportunidade natural para que empresas e governos renovem seus compromissos com títulos sustentáveis, incorporando critérios ambientais ainda mais rigorosos.

A segunda força motriz surge do desenvolvimento de infraestrutura digital que suporte as novas inteligências artificiais e a computação em nuvem. A Moody's espera que os títulos avancem em 2026 para incluir o desenvolvimento de data centers focados em eficiência energética e hídrica, abrindo horizontes inéditos para as dívidas sustentáveis.

A Agência Internacional de Energia estima que o consumo de eletricidade desses centros de processamento chegue a cerca de 600 terawatts-hora no próximo ano. Com esse crescimento exponencial, a expectativa é que mais títulos sustentáveis passem a incluir projetos de data centers, com atenção redobrada ao uso intensivo de energia e água.

Adaptação climática ganha protagonismo

À medida que eventos climáticos extremos atingem patamares cada vez mais elevados, a emissão de títulos voltados à adaptação tende a crescer exponencialmente. O relatório destaca oportunidades especialmente nas áreas de infraestrutura e obras, com foco em tornar as cidades mais resistentes aos impactos das mudanças climáticas.

Além da mitigação tradicional, temas como adaptação e resiliência às mudanças climáticas devem ganhar maior atenção ao longo de 2026. Governos já começaram a incluir esse tipo de projeto em seus programas de financiamento, mesmo enfrentando desafios significativos de viabilidade financeira no curto prazo.

A agenda ligada à natureza e biodiversidade também tende a avançar substancialmente. Os chamados títulos azuis, destinados a projetos relacionados ao litoral, oceanos e corpos d'água, podem ganhar tração especial neste ano. A entrada em vigor do Tratado Global dos Oceanos, que levou duas décadas de negociações e finalmente entrou em operação em janeiro, fornece o marco regulatório necessário para essa expansão.

Esse tratado internacional estabelece diretrizes claras para a proteção de ecossistemas marinhos e cria mecanismos de financiamento para projetos de conservação costeira e oceânica, áreas historicamente subfinanciadas no mercado de títulos sustentáveis.

Panorama regional: América Latina e desafios

O relatório da Moody's dedica atenção especial às diferentes dinâmicas regionais que moldarão o mercado em 2026. A Europa deve continuar liderando a emissão de títulos sustentáveis, mantendo tendência observada desde 2017. Em 2025, a região respondeu por US$ 379 bilhões, cerca de 47% do total global.

A expectativa é de crescimento adicional com o Regulamento de Títulos Verdes Europeus entrando em pleno vigor neste ano. Novas taxonomias financeiras sustentáveis devem apoiar o desenvolvimento dos títulos também na Ásia, segundo principal mercado global.

Para a América Latina, a Moody's identifica uma situação paradoxal. A região apresenta exposição significativa a riscos climáticos, o que cria enormes necessidades de investimento em desenvolvimento sustentável. Essa vulnerabilidade deveria, em tese, impulsionar fortemente o mercado de títulos verdes.

No entanto, o mercado latino-americano avança mais lentamente que o esperado. A expectativa é de recuperação moderada da emissão de títulos sustentáveis em 2026, após desempenho fraco em 2025. No ano passado, os volumes somaram apenas US$ 23 bilhões, equivalentes a 3% do total global, bem abaixo do recorde de US$ 56 bilhões registrado em 2023.

Segundo a pesquisa, a oportunidade para a região está justamente na maior exposição aos riscos climáticos que a América Latina enfrenta. A forte presença de bancos públicos e organizações de desenvolvimento nos países latinos constitui apoio importante para os títulos sustentáveis.

O Brasil surge como destaque regional no relatório, posicionado para emergir como mercado líder nos próximos anos. O posicionamento se apoia no suporte político do país, planos robustos de investimento governamental e características econômicas favoráveis, especialmente com a proximidade da COP30 em Belém.

Transição energética e mercado brasileiro

O financiamento da transição climática deve ganhar espaço substancial em 2026, à medida que o mercado passa a adotar novos padrões de avaliação e certificação. A projeção da Moody's é de cerca de US$ 40 bilhões em emissões de títulos de transição em 2026, quase o dobro do recorde registrado em 2024.

Esses títulos específicos destinam-se a financiar a transformação de setores industriais historicamente dependentes de combustíveis fósseis. Empresas de setores como siderurgia, cimento, petroquímica e transporte pesado buscam recursos para modernizar processos produtivos e reduzir emissões gradualmente.

No contexto brasileiro, a criação recente da Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono pelo Ministério da Fazenda sinaliza a estruturação do mercado regulado nacional. Com a meta de publicar todas as normas infralegais até dezembro de 2026, o Brasil avança na construção do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE).

A B4, primeira Bolsa de Ação Climática do país, opera atualmente por meio de 10 nichos de sustentabilidade: florestas, biodiversidade, agronegócio, commodities, construção civil, reciclagem, projetos sociais, energia limpa, derivativos e logística. A plataforma permite acompanhar a cotação dos ativos listados em tempo real através do Índice B4.

Oportunidades emergentes e tecnologia

A Moody's identifica algumas oportunidades emergentes que devem moldar o mercado em 2026. Além dos data centers já mencionados, o mercado de títulos de catástrofes apresenta potencial de crescimento significativo, impulsionado tanto pela demanda de emissores que buscam transferir riscos quanto pelo interesse de investidores em retornos ajustados ao risco.

Esses instrumentos financeiros funcionam como seguros paramétricos, liberando recursos automaticamente quando determinados eventos climáticos extremos ocorrem. Com o aumento da frequência e intensidade de furacões, enchentes e secas, governos e seguradoras buscam mecanismos inovadores de proteção financeira.

A tecnologia blockchain, utilizada por plataformas como a B4, desempenha papel crescente na transparência e rastreabilidade dos ativos climáticos. A transformação de créditos de carbono em Certificados de Ação Climática em formato NFT permite rastreamento completo desde a origem até o aposentamento final, combatendo fraudes e dupla contagem.

A volatilidade cambial observada no boletim de 21 de janeiro reflete desafios permanentes do mercado brasileiro. Com a maioria das transações internacionais precificadas em dólares, oscilações na moeda americana impactam diretamente a atratividade dos ativos nacionais para investidores estrangeiros.

Perspectivas para o mercado nacional

O Brasil possui potencial único para se destacar no mercado global de títulos sustentáveis. Com aproximadamente 60% do território nacional preservado e legislação ambiental considerada entre as mais rigorosas do mundo, o país dispõe de ativos naturais valiosos para projetos de conservação e recuperação.

Estimativas indicam que o mercado de carbono brasileiro pode movimentar até R$ 580 bilhões até 2030, posicionando o país como potência global nesse segmento. A realização da COP30 em Belém fortalece essa perspectiva, colocando o Brasil no centro das discussões sobre financiamento climático.

A divulgação diária de boletins pela B4 sobre a flutuação dos ativos sustentáveis representa avanço importante em transparência. Investidores podem acompanhar em tempo real como fatores econômicos, políticos e ambientais impactam a precificação dos créditos de carbono e outros instrumentos verdes.

A projeção da Moody's de US$ 900 bilhões em títulos sustentáveis para 2026 não representa teto, mas sim um piso sólido construído sobre a consolidação de práticas ESG no mercado financeiro global. À medida que regulamentações se tornam mais rigorosas e investidores incorporam critérios climáticos em suas análises de risco, a tendência é de crescimento contínuo.

Desafios e próximos passos

Apesar do otimismo das projeções, desafios significativos permanecem. A necessidade de padronização internacional dos critérios de certificação, o combate ao greenwashing e a garantia de adicionalidade real dos projetos exigem governança robusta e fiscalização rigorosa.

Na América do Norte, as posições políticas do governo Trump contra políticas climáticas podem atrasar o desenvolvimento do mercado nos Estados Unidos. Essa incerteza regulatória cria volatilidade adicional e pode levar investidores a priorizar mercados com maior estabilidade institucional.

Para o Brasil, o momento é de estruturação e consolidação. Com a Secretaria do Mercado de Carbono trabalhando na regulamentação do SBCE e plataformas como a B4 oferecendo infraestrutura de negociação transparente, o país posiciona-se para capturar parcela significativa dos investimentos globais em sustentabilidade.

O relatório completo da Moody's oferece análises detalhadas sobre cada região e segmento do mercado, fornecendo aos investidores ferramentas para navegar esse cenário em transformação. Os quatro temas identificados pela agência representam não apenas tendências, mas forças estruturais que continuarão moldando o mercado por anos.

A integração entre mercados voluntários e regulados, a crescente demanda por transparência e rastreabilidade, e a incorporação de novos setores como tecnologia digital ampliam continuamente o escopo do financiamento sustentável. O objetivo final permanece claro: mobilizar o capital necessário para limitar o aquecimento global e construir economias resilientes às mudanças climáticas.