África precisa de US$ 3 trilhões para revolução verde global

Cúpula do Clima em Adis Abeba expõe abismo de justiça climática e propõe nova arquitetura financeira para sustentabilidade continental.

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
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Cúpula do Clima em Adis Abeba cobra transformação de promessas em investimentos para adaptação na África - Foto: Rafa Neddermeyer/COP30 Brasil/PR

A Segunda Cúpula do Clima da África, realizada em Adis Abeba, capital da Etiópia, entre 8 e 10 de setembro, foi um marco decisivo na redefinição da arquitetura global de finanças sustentáveis. O evento reuniu mais de 45 chefes de Estado e governo, líderes da sociedade civil e do setor financeiro para debater uma transformação paradigmática: converter a vulnerabilidade climática africana em oportunidade de investimento de trilhões de dólares.

Alice Amorim, diretora de Programa da COP30, definiu o tom ao articular a ambição de fazer da conferência de Belém um marco de implementação concreta. "O que estamos tentando fazer é o oposto agora. É usar o que já foi concluído, em particular no balanço global da COP28, e levar isso às realidades no terreno", afirmou, destacando que a adaptação precisa deixar de ser apêndice da mitigação e se tornar parte central da transição energética.

A urgência expressa pelos líderes africanos reflete uma crise de justiça climática sem precedentes. O continente, responsável por menos de 4% das emissões globais de gases de efeito estufa, enfrenta os impactos mais severos das mudanças climáticas, evidenciando a necessidade urgente de transformação de ativos sustentáveis e mecanismos inovadores de financiamento.

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A ministra do Meio Ambiente de Ruanda, Jeanne d'Arc Mujawamariya, apresentou números que ilustram um abismo financeiro profundo: o continente africano necessita de pelo menos US$ 25 bilhões anuais apenas para adaptação. Embora o fluxo total de financiamento climático para a África tenha aumentado 50% em 2022, a fatia destinada à adaptação representa menos de um terço do total.

"Isso não é apenas um desgaste em números, é um desgaste em justiça climática", alertou a ministra ruandesa, enfatizando que comunidades por toda a África já vivem com inundações, desertificação e secas. "Elas não podem esperar por debates técnicos enquanto suas vidas são sacrificadas", pontuou, destacando a urgência de Certificados de Ação Climática em formato NFT e outros instrumentos financeiros inovadores.

O embaixador do Zimbábue, Tadeous Chifamba, colocou responsabilidade moral sobre os poluidores históricos: "Eles deveriam fazer sua parte. Mas é muito claro que estão dizendo que provavelmente não podem fazer mais do que fazem atualmente, o que é muito menos que as exigências". Esta declaração ressalta a dívida climática de US$ 36 trilhões que países ricos devem à África, segundo relatório da ActionAid.

O Banco Africano de Desenvolvimento indica que mudanças climáticas estão reduzindo o crescimento do PIB africano em 5% a 15% ao ano. Secas e inundações interrompem agricultura e deslocam milhões de pessoas, impactando geração de empregos e investimentos em infraestrutura crítica. Contudo, esta vulnerabilidade também cria um "modelo de possibilidade climática" com potencial verde inexplorado.

Revolução conceitual 

A resposta mais contundente sobre como fechar essa lacuna veio de Hubert Danso, presidente e CEO do Africa Investor Group, com análise visionária que propõe mudança filosófica fundamental. "Precisamos parar de tentar tornar o desenvolvimento 'investível' e começar a fazer investimento desenvolvimentista", defendeu, expondo contradição central do sistema atual.

Danso revelou que instituições financeiras internacionais prometem centenas de bilhões, mas os 300 trilhões de dólares em capital institucional privado global permanecem inacessíveis devido a estruturas inadequadas. "Estamos gastando 90% do nosso tempo com constituição que pode mobilizar 10% do capital, e menos de 10% com investidores institucionais que podem mobilizar 90%", criticou.

Para atrair essa massa de capital para sustentabilidade, Danso apresentou quatro recomendações estratégicas revolucionárias: tratar resiliência como infraestrutura regulada, criar veículos de investimento com múltiplas atribuições, desenvolver produtos financeiros padronizados e negociáveis, e conectar chefes de Estado diretamente com controladores de grandes volumes financeiros.

Esta abordagem alinha-se com tendências de tokenização de ativos sustentáveis e transformação digital das finanças verdes. Certificados de Ação Climática em formato NFT emergem como solução para rastreabilidade e transparência em investimentos climáticos.

Potencial verde subutilizado

Fitsum Assefa Adela, Ministra do Planejamento e Desenvolvimento da Etiópia, destacou que explorar o vasto potencial de investimento verde da África exigirá abandono da percepção ultrapassada de que o continente é destino de alto risco. "Os africanos não estão pedindo para serem resgatados", afirmou, posicionando a África como fonte de soluções, não receptora de caridade.

Mesmo possuindo 60% dos melhores recursos solares do mundo, o continente tem apenas 1% da capacidade solar instalada global e 3% do investimento mundial em energia. Esta disparidade representa oportunidade massiva para economia de baixo carbono e transição energética sustentável.

Projetos emblemáticos já demonstram viabilidade: a Usina Solar de Jambur, na Gâmbia, com financiamento misto de US$ 165 milhões; o Complexo Eólico Impofu, na África do Sul, impulsionando descarbonização industrial; e a produção de amônia verde no Quênia, reduzindo emissões agrícolas e fortalecendo segurança alimentar.

A Grande Barragem do Renascimento Etíope (GERD) exemplifica potencial de energia renovável: rede nacional alimentada quase inteiramente por fontes limpas, especialmente hidrelétricas, com capacidade atual de 2.350 megawatts expandindo para 5.150 MW.

Instrumentos financeiros inovadores viabilizam escala necessária

A proposta de reclassificar resiliência como infraestrutura regulada representa mudança paradigmática nas finanças sustentáveis. Classificar defesas contra inundações, agricultura resiliente e sistemas hídricos como infraestrutura crítica forneceria previsibilidade e segurança que investidores de longo prazo exigem.

Desenvolvimento de títulos verdes, instrumentos de adaptação e fundos paramétricos conectados a sistemas de classificação global facilitaria transformação de ativos climáticos. Blockchain e tokenização garantem transparência, rastreabilidade e segurança nas transações de créditos de carbono.

O Programa de Aceleração da Adaptação da África (AAAP), em parceria com o Centro Global de Adaptação, visa mobilizar US$ 25 bilhões para acelerar ações de adaptação continental. Quatro pilares transformadores incluem tecnologias digitais para segurança alimentar, acelerador de resiliência de infraestruturas, financiamento de juventude e mulheres, e inovação em agricultura sustentável.

Mecanismo de Benefícios de Adaptação (ABM) certifica benefícios através de processo robusto, fornecendo dados verificados sobre progresso em direção à resiliência. Contratos de compra de benefícios certificados podem ser utilizados como garantia para capital ou empréstimos comerciais.

Declaração de Adis 

A expectativa é que a cúpula encerre com revisão da Declaração de Adis Abeba, criando nova estrutura global para financiamento de metas climáticas continentais, estimadas em US$ 3 trilhões. Este montante contrasta drasticamente com os US$ 300 bilhões anuais acordados na COP29 em Baku.

A declaração exigirá justiça climática e apresentará reivindicações principais dos três dias de evento. Foco nas negociações direcionou-se para facilitar investimentos estratégicos no continente, menos em doações, mais em parcerias econômicas sustentáveis.

Nações Unidas estimam que África precisa de pelo menos US$ 1,3 trilhão por ano para cumprir Objetivos de Desenvolvimento Sustentável até 2030. Valores propostos atualmente são cinco vezes menores, evidenciando necessidade urgente de mobilização massiva de capital privado.

O presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, participou do primeiro dia salientando que participação africana é "absolutamente mínima" comparada às necessidades. Força-tarefa será criada para garantir acomodação de delegações dos 72 países mais vulneráveis em Belém.

Juventude africana lidera mobilização sustentável

O Mutirão das Juventudes COP30 plantou 300 mudas durante a cúpula, mobilizando 200 jovens em iniciativa alinhada às prioridades da Presidência da COP30. Entre eixos centrais estão fortalecimento da participação social, promoção da equidade intergeracional e reconhecimento do papel da juventude.

"A juventude está no centro da Agenda de Ação da COP30 e lidera a luta por justiça climática. Jovens indígenas, afrodescendentes, quilombolas, povos e comunidades tradicionais atuam diariamente em seus territórios por financiamento, áreas verdes e políticas públicas", destacou organização do mutirão.

Aissatou Diouf, porta-voz da organização ENDA Energie, enfatizou: "Esta cúpula alinha esforços africanos e catalisa ações concretas. Não temos escolha: se quisermos impacto nas discussões internacionais, precisamos falar com uma só voz."

COP30 como teste definitivo da governança climática

O debate em Adis Abeba estabeleceu marco onde COP30 no Brasil deve servir como teste definitivo para evolução do sistema climático global: de fórum de debate para plataforma de ação concreta. Sucesso será medido pela capacidade de fazer capital fluir para linha de frente da crise climática.

"Daqui até Belém precisamos ampliar vozes, alinhar prioridades e mostrar que o Sul Global não é coadjuvante: é protagonista na resposta à crise climática", destacou Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa.

A África quer ampliar capacidade de fontes limpas dos atuais 56 GW para pelo menos 300 GW até 2030, com horizonte de alcançar sistema 100% renovável no continente até 2050. Este objetivo requer transformação de ativos energéticos em escala sem precedentes.
Com informações da COP 30