Finanças regenerativas e ESG: entenda os conceitos e compare

Finanças regenerativas vão além da mitigação de riscos para criar impacto positivo ativo na economia brasileira

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
6 Min

O cenário dos investimentos sustentáveis no Brasil está passando por uma transformação profunda. Enquanto o modelo ESG (Ambiental, Social e Governança) tradicionalmente focava na mitigação de riscos e na proteção de valor, as finanças regenerativas surgem e ganham força como uma nova fronteira que vai muito além: elas buscam ativamente restaurar e revitalizar ecossistemas, comunidades e economias.

Esta mudança de paradigma não é apenas conceitual. Grandes empresas brasileiras como Natura, Suzano e JBS já estão migrando suas estratégias financeiras para modelos regenerativos, demonstrando que é possível aliar crescimento econômico com impacto positivo mensurável. O movimento ganha força especialmente no contexto da preparação para a COP30, que será realizada em Belém em 2025.

A diferença fundamental reside na intencionalidade: enquanto o ESG tradicional pergunta "como reduzir danos?", as finanças regenerativas questionam "como podemos deixar o mundo melhor do que encontramos?". Essa evolução representa uma resposta direta à urgência climática e às demandas crescentes de investidores por soluções transformacionais.

ESG versus modelo regenerativo: entendendo as diferenças práticas

Para compreender essa transição, é essencial entender as diferenças conceituais entre os dois modelos. O ESG tradicional opera principalmente como um sistema de avaliação de riscos, analisando como empresas lidam com questões ambientais, sociais e de governança para proteger investimentos de potenciais problemas futuros.

As finanças regenerativas, por sua vez, representam uma abordagem proativa onde o capital é direcionado especificamente para projetos e empresas que geram impacto positivo ativo. Em vez de simplesmente "não causar danos", o objetivo é restaurar, revitalizar e regenerar.

Esta diferença se manifesta na prática através de critérios de investimento mais rigorosos. Enquanto fundos ESG podem investir em uma empresa petrolífera que tenha boas práticas de governança, fundos regenerativos direcionariam recursos exclusivamente para energias renováveis ou tecnologias de captura de carbono.

Natura 

O caso da Natura ilustra perfeitamente essa transição. A empresa, que já era referência em sustentabilidade, anunciou em 2023 uma mudança estratégica para se tornar 100% regenerativa até 2050. 

Segundo a empresa, o conceito de sustentabilidade não mais é suficiente para endereçar a restauração do que já foi degradado. A regeneração é o processo de restaurar a vida em indivíduos, comunidades, na natureza e nos relacionamentos entre eles.

Na prática, isso significa que a Natura não quer só minimizar impactos negativos, mas ativamente regenerar ecossistemas. A empresa trabalha com 41 comunidades agroextrativistas na Amazônia, contribuindo para conservar mais de 2 milhões de hectares de floresta e gerando renda para cerca de 4 milhões de pessoas na América Latina.

A transformação de ativos ambientais também está no centro da estratégia regenerativa da Natura. A empresa desenvolveu metodologias próprias para mensurar e monetizar o impacto positivo de suas ações, criando novos fluxos de receita baseados na regeneração de ecossistemas.

Suzano e o conceito de economia regenerativa

A Suzano, maior produtora de celulose do mundo, exemplifica como indústrias tradicionais podem abraçar o modelo regenerativo. A empresa transcende o conceito de carbono neutro, sendo atualmente carbono negativa, quer dizer, sequestra mais carbono do que emite.

A companhia investiu R$ 22,2 bilhões no Projeto Cerrado, em Mato Grosso do Sul, aplicando práticas regenerativas que vão além da produção de celulose. O projeto inclui restauração de mata nativa, desenvolvimento de sistemas agroflorestais e criação de corredores ecológicos.

O modelo de finanças regenerativas da Suzano integra retorno financeiro com restauração ambiental. A empresa estabeleceu metas ambiciosas, incluindo a remoção de 10 milhões de toneladas de plástico do sistema produtivo até 2030 e o investimento em biotecnologia regenerativa.

Mercado brasileiro abraça investimentos regenerativos

O crescimento dos investimentos sustentáveis no Brasil confirma o apetite do mercado por soluções regenerativas. Dados da Anbima mostram que o volume de ativos geridos em fundos ESG no país saltou de alguns bilhões de reais em 2018 para dezenas de bilhões em 2024, representando um crescimento superior a 300%.

Mais significativo ainda é o direcionamento desses recursos para projetos regenerativos. Fundos de investimento estão priorizando empresas que não apenas adotam práticas ESG, mas que demonstram capacidade de regeneração ativa de ecossistemas e comunidades.

Agronegócio lidera práticas regenerativas

O agronegócio brasileiro está na vanguarda da implementação de finanças regenerativas. Empresas como a Fazenda da Toca demonstram como é possível aliar produtividade agrícola com regeneração de solos e conservação da biodiversidade.

A agricultura regenerativa está se consolidando como um ativo financeiro concreto. Projetos que restauram solos degradados  aumentam a produtividade e ainda geram créditos de carbono, criando novos fluxos de receita.

 

Instituições financeiras desenvolvem produtos regenerativos

Bancos brasileiros estão desenvolvendo linhas de crédito específicas para projetos regenerativos. O Itaú Unibanco estabeleceu um Framework de Finanças Sustentáveis que direciona recursos para projetos que demonstrem impacto regenerativo mensurável.

O Banco do Brasil, que figura entre os líderes do ranking ESG no país, está expandindo suas operações para incluir financiamento regenerativo direcionado especificamente para projetos que demonstrem capacidade de restauração ativa de ecossistemas.

Preparação para COP30 acelera transição

A preparação para a COP30 em Belém está acelerando a transição para finanças regenerativas no Brasil. O evento representa uma oportunidade única para o país demonstrar liderança global em soluções regenerativas.

Empresas brasileiras estão aproveitando o momento para reposicionar suas estratégias financeiras com foco regenerativo. A expectativa é que a COP30 consolide o Brasil como referência mundial em finanças regenerativas, atraindo investimento internacional para projetos de restauração da Amazônia.

O governo brasileiro está desenvolvendo marcos regulatórios específicos para finanças regenerativas, incluindo incentivos fiscais para projetos que demonstrem impacto regenerativo comprovado. Essa estrutura regulatória favorável está atraindo capital internacional para o mercado regenerativo brasileiro.

As finanças regenerativas representam mais do que uma evolução do ESG tradicional - elas constituem uma revolução na forma como o capital é alocado. O Brasil, com sua biodiversidade única e crescente consciência ambiental, está perfeitamente posicionado para liderar essa transformação global, demonstrando que é possível conciliar crescimento econômico com regeneração ativa do planeta.