ODS 2 da ONU busca erradicar fome mundial até 2030

Objetivo de Desenvolvimento Sustentável foca em segurança alimentar e agricultura sustentável para acabar com a fome

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
7 Min

ODS 2 da ONU busca erradicar fome mundial até 2030
Agricultura familiar é uma das apostas da ONU para acelerar o processo de redução da fome no mundo. Foo: IA por Freepik

O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 2 (ODS 2) representa uma das iniciativas mais ambiciosas da Organização das Nações Unidas para transformar a realidade global. Com o lema "Fome Zero e Agricultura Sustentável", este objetivo tem como missão erradicar completamente a fome, alcançar a segurança alimentar, melhorar a nutrição e promover práticas agrícolas sustentáveis até 2030.

Dados recentes do relatório "Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo" (SOFI) 2025 revelam que aproximadamente 673 milhões de pessoas enfrentaram fome em 2024, representando 8,2% da população mundial. Embora este número demonstre uma redução em relação aos 8,5% registrados em 2023, a cifra permanece alarmantemente alta, evidenciando a urgência em acelerar as ações previstas no ODS 2.

A importância deste objetivo transcende questões humanitárias básicas. A fome e a má nutrição constituem barreiras fundamentais para o desenvolvimento econômico e social sustentável, perpetuando ciclos de pobreza e desigualdade que afetam gerações inteiras. O ODS 2 reconhece que a segurança alimentar é um direito humano fundamental e uma condição essencial para a estabilidade global.

Leia Também

As cinco metas principais do ODS 2

O ODS 2 estabelece cinco metas centrais que delineiam estratégias específicas para combater a fome e promover a sustentabilidade alimentar. A meta 2.1 determina que até 2030 seja necessário acabar com a fome e garantir acesso universal a alimentos seguros, nutritivos e suficientes durante todo o ano, priorizando populações vulneráveis como crianças, idosos e comunidades em situação de pobreza.

A meta 2.2 foca especificamente no combate à desnutrição em todas suas formas. Esta meta estabelece o objetivo de alcançar, até 2025, as metas internacionalmente acordadas sobre desnutrição crônica e aguda em crianças menores de cinco anos, além de atender às necessidades nutricionais de adolescentes, mulheres grávidas, lactantes e pessoas idosas.

Para fortalecer a produção sustentável, a meta 2.3 propõe dobrar a produtividade agrícola e a renda dos pequenos produtores de alimentos até 2030. Esta meta prioriza especialmente mulheres, povos indígenas, agricultores familiares, pastores e pescadores, garantindo acesso equitativo à terra, recursos produtivos, conhecimento, serviços financeiros e mercados.

Sistemas sustentáveis e biodiversidade agrícola

A meta 2.4 representa o coração da sustentabilidade ambiental no ODS 2, exigindo a implementação de sistemas sustentáveis de produção de alimentos e práticas agrícolas resilientes. Estas práticas devem aumentar a produtividade enquanto protegem ecossistemas, fortalecem a capacidade de adaptação às mudanças climáticas e melhoram progressivamente a qualidade da terra, solo, água e ar.

A preservação da biodiversidade agrícola constitui o foco da meta 2.5, que estabeleceu como prazo inicial 2020 para manter a diversidade genética de sementes, plantas cultivadas, animais de criação e suas espécies selvagens. Esta meta inclui a criação de bancos de sementes diversificados e bem geridos, garantindo acesso equitativo aos recursos genéticos e conhecimentos tradicionais associados.

Submetas para fortalecimento da agricultura

Além das cinco metas principais, o ODS 2 incorpora três submetas cruciais para o fortalecimento da infraestrutura agrícola global. A submeta 2.a visa aumentar investimentos em infraestrutura rural, pesquisa, extensão de serviços agrícolas, desenvolvimento tecnológico e bancos de genes, especialmente em países em desenvolvimento e nações menos desenvolvidas.

A submeta 2.b aborda distorções no comércio agrícola mundial, propondo a correção e prevenção de restrições comerciais e a eliminação de subsídios prejudiciais à exportação agrícola. Por sua vez, a submeta 2.c foca na adoção de medidas para garantir o funcionamento adequado dos mercados de commodities alimentares, limitando a volatilidade extrema dos preços que prejudica especialmente populações vulneráveis.

Brasil e os avanços recentes no combate à fome

O Brasil emergiu como exemplo positivo na implementação do ODS 2, conseguindo sair oficialmente do Mapa da Fome da ONU em julho de 2025. Esta conquista histórica reflete a média trienal 2022-2024, que colocou o país abaixo do patamar de 2,5% da população em risco de subnutrição. A insegurança alimentar severa no Brasil despencou 85% entre 2022 e 2023, tirando 14,7 milhões de brasileiros desta condição crítica.

O sucesso brasileiro resulta de políticas públicas robustas como o Plano Brasil Sem Fome, o fortalecimento do Programa Bolsa Família e investimentos maciços em agricultura familiar. O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) exemplificam iniciativas eficazes de combate à fome e apoio à produção sustentável.

Tecnologia e inovação na agricultura sustentável

A agricultura sustentável representa um pilar fundamental do ODS 2, exigindo a adoção de tecnologias que aumentem a produtividade enquanto preservam recursos naturais. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) tem desenvolvido soluções inovadoras que incluem variedades mais nutritivas, ingredientes funcionais e tecnologias para aproveitamento de coprodutos agroindustriais.

As tecnologias digitais emergem como ferramentas cruciais para transformar a agricultura, permitindo maior eficiência produtiva e inclusão de pequenos e grandes produtores rurais. Sistemas de monitoramento climático, agricultura de precisão e plataformas de comercialização digital contribuem significativamente para aumentar a resiliência dos sistemas alimentares.

Desafios persistentes e necessidade de financiamento

Apesar dos avanços, desafios monumentais persistem na implementação do ODS 2. Conflitos armados, mudanças climáticas, crises econômicas e a alta dos preços dos alimentos continuam impactando negativamente a segurança alimentar global. A África permanece como a região mais afetada, com mais de 20% de sua população enfrentando fome em 2024.

O financiamento representa um obstáculo crítico para alcançar as metas do ODS 2. O relatório SOFI 2025 enfatiza a necessidade de financiamentos maiores e mais eficazes, com definições claras e padronizadas para investimentos em segurança alimentar e nutrição. A cooperação internacional torna-se essencial para mobilizar recursos adequados, especialmente para países em desenvolvimento.

Conexões com outros ODS 

O ODS 2 demonstra forte interconexão com outros Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, particularmente o ODS 1 (Erradicação da Pobreza), ODS 3 (Saúde e Bem-estar), ODS 13 (Ação Climática) e ODS 15 (Vida Terrestre). Esta interdependência reforça a necessidade de abordagens integradas que considerem simultaneamente questões sociais, econômicas e ambientais.

A Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, proposta pelo Brasil durante sua presidência do G20 em 2024, representa uma iniciativa promissora para acelerar o cumprimento do ODS 2. Com mais de 100 países membros, esta aliança busca unir esforços internacionais, conhecimentos e recursos para implementar políticas públicas eficazes na redução da fome mundial.

As projeções atuais indicam que, mantendo-se as tendências presentes, 582 milhões de pessoas ainda estarão cronicamente desnutridas em 2030. Esta realidade demanda ação urgente e coordenada de governos, setor privado, sociedade civil e organizações internacionais para transformar sistemas alimentares e garantir que o objetivo de Fome Zero seja efetivamente alcançado até o fim desta década.


  • Ir para GoogleNews
Tags »
Notícias Relacionadas »