ODS 5: a luta pela igualdade de gênero até 2030

Objetivo 5 da ONU enfrenta desafios estruturais para garantir igualdade de gênero e empoderar mulheres no Brasil e no mundo

Por Por Rosalvo Oliveira-
9 Min

ODS 5: a luta pela igualdade de gênero até 2030
Um dos maiores desafios para a concretização do ODS 5 está no mercado de trabalho. Foto: Canva

A igualdade de gênero ainda é uma meta distante para a humanidade. Apesar dos avanços conquistados nas últimas décadas, dados recentes mostram que o caminho para alcançar o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 5 (ODS 5) da Organização das Nações Unidas permanece longo e repleto de obstáculos estruturais. A ONU estabeleceu este objetivo como parte da Agenda 2030, com metas ambiciosas que buscam eliminar todas as formas de discriminação e violência contra mulheres e meninas, além de promover o empoderamento feminino em todos os níveis da sociedade.

O ODS 5 representa um dos pilares centrais do desenvolvimento sustentável global. Sua implementação está intrinsecamente ligada ao progresso de outros 12 objetivos da Agenda 2030, demonstrando que não há desenvolvimento verdadeiramente sustentável sem a garantia de direitos iguais para todas as pessoas, independentemente do gênero. Este reconhecimento marca uma virada histórica no entendimento de que questões sociais, econômicas e ambientais estão profundamente entrelaçadas.

As nove metas específicas do ODS 5 abordam desde a eliminação de todas as formas de discriminação e violência contra mulheres até a promoção de liderança feminina em espaços de tomada de decisão. Entre os compromissos assumidos pelos países signatários estão: acabar com práticas nocivas como casamentos forçados e mutilação genital feminina, valorizar o trabalho doméstico não remunerado, assegurar direitos reprodutivos e garantir acesso igual a recursos econômicos e tecnológicos.

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O mercado de trabalho e a desigualdade persistente

Um dos maiores desafios para a concretização do ODS 5 está no mercado de trabalho. Dados da Organização Internacional do Trabalho revelam um cenário preocupante: apenas 46,4% das mulheres em idade ativa estão empregadas globalmente, em comparação com 69,5% dos homens. No ritmo atual de progresso, atingir a igualdade nas taxas de emprego levaria quase dois séculos, segundo estimativas recentes da OIT divulgadas em 2025.

No Brasil, a situação reflete essa realidade global com contornos ainda mais graves quando se analisa a interseccionalidade entre gênero e raça. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2024, a taxa de desocupação foi de 4,4% para homens brancos, 5,8% para mulheres brancas e alarmantes 9,3% para mulheres negras. As diferenças salariais também são gritantes: enquanto um homem branco recebe em média R$ 8.849,00, uma mulher negra ganha menos da metade desse valor, cerca de R$ 3.964,00.

A participação feminina na força de trabalho brasileira alcança apenas 53,3%, contra 73,2% dos homens. Mesmo quando ocupam cargos gerenciais, as mulheres enfrentam discriminação salarial, recebendo 21,2% a menos que homens na mesma posição. O Relatório Anual Socioeconômico da Mulher de 2025 confirma que, mesmo com a nova Lei de Igualdade Salarial, as mulheres ainda recebem em média apenas 79,3% do salário dos homens em estabelecimentos formais.

A sobrecarga invisível do trabalho não remunerado

Um aspecto fundamental do ODS 5 é o reconhecimento e a valorização do trabalho doméstico e de cuidados não remunerado, historicamente atribuído às mulheres. Esta divisão desigual do trabalho representa uma barreira significativa à entrada e permanência das mulheres no mercado de trabalho formal.

Dados do IBGE mostram que o tempo de dedicação ao trabalho total - que inclui trabalho remunerado e não remunerado - é seis horas maior para as mulheres em comparação aos homens. Cerca de 31,7% das mulheres em idade ativa não procuram trabalho porque precisam cuidar dos afazeres domésticos, dos filhos ou de outros parentes, enquanto entre os homens este percentual é de apenas 3,5%.

Esta sobrecarga feminina perpetua um ciclo vicioso de desigualdade. As mulheres acumulam jornadas de trabalho, precisando equilibrar suas responsabilidades profissionais com as tarefas domésticas que continuam sendo vistas como naturalmente femininas. A ausência de políticas públicas robustas de apoio - como creches acessíveis e de qualidade, licenças parentais equilibradas e serviços de cuidados para idosos - mantém este quadro de injustiça estrutural.

Violência de gênero: um obstáculo crítico à igualdade

A eliminação de todas as formas de violência contra mulheres e meninas é uma das metas centrais do ODS 5, e os dados recentes mostram a urgência desta questão. Em 2024, o Brasil registrou 1.450 feminicídios, segundo o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher, representando uma média de quatro mortes por dia. Além disso, foram contabilizados 71.892 casos de estupro, equivalente a 196 vítimas diárias.

O perfil das vítimas revela a interseccionalidade da violência: 63,6% das mulheres assassinadas por razão de gênero eram negras. A maioria dos crimes, 64,3%, ocorreu na residência da vítima, e os autores eram majoritariamente companheiros ou ex-companheiros, responsáveis por quase 80% dos casos. Estes números evidenciam que a violência de gênero é predominantemente doméstica e perpetrada por pessoas próximas.

Globalmente, o cenário não é menos alarmante. O Anuário da ONU Mulheres revelou que cerca de 85 mil meninas e mulheres foram mortas intencionalmente em todo o mundo em 2023, sendo que 60% foram vítimas de companheiros ou pessoas relacionadas à família. Isso equivale a um assassinato a cada 10 minutos no planeta.

Representação política e espaços de poder

A garantia de participação plena e efetiva das mulheres em espaços de tomada de decisão é outro pilar fundamental do ODS 5. Apesar de avanços graduais, as mulheres ainda ocupam apenas 30% dos cargos de direção a nível mundial, segundo dados da OIT. No Brasil, a sub-representação feminina na política permanece como um desafio significativo.

O Relatório Anual Socioeconômico da Mulher 2025 destaca que, nas eleições municipais de 2024, houve avanços na eleição de mulheres para cargos de vereadoras e prefeitas, mas ainda longe da paridade. A presença feminina em cargos de liderança partidária, na magistratura, na diplomacia e nas forças armadas continua sendo minoritária, refletindo barreiras estruturais que impedem a ascensão profissional das mulheres.

Políticas públicas e o caminho para 2030

O Brasil tem implementado diversas políticas públicas para avançar nas metas do ODS 5. Em 2024, o Ministério da Justiça e Segurança Pública destinou R$ 116 milhões para ações de defesa da população feminina. O Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania iniciou a construção de Casas da Mulher Brasileira, espaços de acolhimento psicossocial e promoção de autonomia econômica para vítimas de violência.

O Ministério das Mulheres tem coordenado iniciativas como o programa de dignidade menstrual, que atendeu mais de 2 milhões de mulheres até agosto de 2024. A Lei de Igualdade Salarial, aprovada em 2023, busca criar parâmetros para enfrentar a discriminação salarial, embora os efeitos ainda sejam limitados.

No entanto, especialistas alertam que, apesar desses esforços, as mudanças ocorrem em ritmo insuficiente para alcançar as metas estabelecidas pela ONU até 2030. São necessárias transformações estruturais profundas que abordem as raízes culturais da desigualdade de gênero, invistam massivamente em políticas de cuidado, promovam educação para a igualdade e garantam a aplicação efetiva das legislações existentes.

A interseccionalidade como lente fundamental

Para compreender plenamente os desafios do ODS 5 no Brasil, é imprescindível aplicar uma perspectiva interseccional que considere como gênero, raça, classe social, orientação sexual e outros marcadores sociais se entrecruzam. As mulheres negras enfrentam taxas de desemprego, violência e insegurança alimentar significativamente superiores às das mulheres brancas, evidenciando que não há como enfrentar a desigualdade de gênero sem simultaneamente combater o racismo.

O Relatório Anual Socioeconômico da Mulher 2025 mostrou que as mulheres são maioria entre as responsáveis por domicílios em situação de insegurança alimentar, representando 59,4% dos casos. Entre as beneficiárias do programa de dignidade menstrual, 77,1% eram mulheres pretas e pardas. Estes dados revelam como as vulnerabilidades se acumulam para determinados grupos de mulheres.

Desafios globais e compromissos necessários

O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 5 não pode ser alcançado isoladamente. Sua realização depende de compromissos concretos de governos, setor privado, sociedade civil e indivíduos. A iniciativa global da ONU Mulheres "Por um planeta 50-50 em 2030" reuniu compromissos de mais de 90 países, mas a implementação efetiva dessas promessas ainda é irregular.

O Banco Mundial apontou em 2024 que nenhum país do mundo garante oportunidades de trabalho com igualdade de gênero. Embora 98 economias tenham adotado legislação que obriga a igualdade salarial, apenas 35 implementaram medidas de transparência salarial ou mecanismos de aplicação para resolver as disparidades. Esta lacuna entre a existência de leis e sua implementação efetiva representa um dos principais obstáculos ao progresso.

A igualdade de gênero não é apenas uma questão de justiça social e direitos humanos - é também uma necessidade econômica. Estudos demonstram que a plena participação das mulheres no mercado de trabalho poderia aumentar significativamente o PIB global. As mulheres representam metade da população mundial, e sua exclusão ou sub-utilização no mercado de trabalho constitui um desperdício imenso de potencial humano e econômico.

O papel do setor privado e da inovação

Empresas e organizações têm papel fundamental na promoção da igualdade de gênero. O setor privado pode contribuir implementando políticas de equidade salarial, promovendo mulheres para posições de liderança, oferecendo flexibilidade no trabalho e investindo em programas de capacitação. Tecnologias de informação e comunicação, quando acessíveis, também podem ser ferramentas poderosas para o empoderamento feminino, conforme previsto nas metas do ODS 5.

A transformação de ativos sustentáveis em instrumentos financeiros acessíveis, como os Certificados de Ação Climática em formato NFT, pode criar novas oportunidades econômicas para mulheres empreendedoras. Iniciativas que conectam sustentabilidade e inclusão de gênero demonstram que é possível construir modelos de desenvolvimento que sejam simultaneamente ambientalmente responsáveis e socialmente justos.

À medida que nos aproximamos de 2030, o prazo estabelecido para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, a necessidade de acelerar os esforços em prol da igualdade de gênero torna-se cada vez mais premente. O ODS 5 representa não apenas um compromisso moral, mas uma condição necessária para a construção de sociedades verdadeiramente sustentáveis, democráticas e prósperas para todas as pessoas.


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