Brasil expõe descontinuidade de projetos climáticos

Levantamento inédito da presidência da COP30 revela que 299 iniciativas foram abandonadas desde o Acordo de Paris e aponta caminhos para recuperar

Por Por Álvaro Oliveira-
10 Min

Brasil expõe descontinuidade de projetos climáticos
Sessão plenária da Pré-COP30 reuniu representantes de 67 países em Brasília para alinhar estratégias antes da conferência oficial em Belém.

A transparência na ação climática ganhou um capítulo decisivo com o mapeamento histórico conduzido pela presidência brasileira da COP30. Em um esforço sem precedentes, a coordenação da conferência identificou que mais de 40% das iniciativas climáticas lançadas nos últimos dez anos foram abandonadas, expondo fragilidades nos compromissos globais.

O levantamento analisou 722 projetos aprovados desde a COP21, realizada em Paris, e constatou que 299 deles simplesmente deixaram de existir ou foram interrompidos sem justificativa formal.

O diagnóstico foi apresentado durante a Pré-COP, evento preparatório realizado em Brasília nos dias 13 e 14 de outubro, que reuniu representantes de 67 países para alinhar estratégias antes da conferência oficial em Belém. Segundo Bruna Cerqueira, coordenadora-geral da Agenda de Ação da presidência da COP30, o objetivo central é tangibilizar o que antes permanecia na penumbra das negociações internacionais.

"Sempre soubemos que muitas dessas iniciativas não estavam mais ativas, mas agora conseguimos mensurar e trazer luz sobre essa realidade", afirmou a coordenadora.

Das 722 iniciativas mapeadas, 423 permanecem ativas e responderam ao chamamento brasileiro para contribuir com a nova Agenda de Ação e mobilizar ações voluntárias de diferentes setores. A proposta brasileira inova ao conectar diretamente os projetos climáticos aos objetivos do Balanço Global, ferramenta prevista pelo Acordo de Paris que avalia a cada cinco anos o progresso mundial no combate às mudanças climáticas.

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Uma nova arquitetura para projetos climáticos sustentáveis

A estratégia brasileira para a COP30 rompe com o padrão tradicional das conferências climáticas ao estabelecer uma conexão direta entre as iniciativas voluntárias e as metas negociadas pelos governos. A presidência formou grupos de trabalho com representantes de projetos anteriores, organizados em torno de 30 objetivos-chave que compõem a Agenda de Ação, apresentada oficialmente em junho de 2025.

Esses objetivos estão distribuídos em seis eixos temáticos: energia, indústria e transporte; florestas, oceanos e biodiversidade; agricultura e sistemas alimentares; cidades, infraestrutura e água; desenvolvimento humano e social; além de questões transversais.

Tradicionalmente, as agendas de ação nas conferências climáticas funcionavam de maneira paralela às negociações oficiais entre países, sem vínculos formais com os compromissos estabelecidos.

O Brasil decidiu alterar essa dinâmica ao traduzir em eixos e objetivos práticos as metas previstas no Global Stocktake (GST), o Balanço Global que orienta o plano de ação mundial a cada cinco anos.

"Não estamos construindo nada do zero. Pedimos que as iniciativas nos apresentassem seus casos de sucesso em diferentes regiões geográficas, mostrando soluções que realmente funcionam", explicou Bruna Cerqueira.

O reporte dos resultados dessas iniciativas é normalmente registrado na plataforma Nazca, criada durante a COP20 no Peru como estratégia para envolver atores não governamentais nas discussões sobre o clima. No entanto, nos últimos anos, poucos retornos haviam sido reportados à plataforma, situação que mudou significativamente com o impulso da presidência brasileira.

O ciclo de reporte de 2025 registrou um aumento de quatro vezes no número de iniciativas que apresentaram informações atualizadas. Pela primeira vez, os projetos foram solicitados a fornecer não apenas dados qualitativos, mas também indicadores quantitativos mensuráveis.

Resultados concretos e o Celeiro de Soluções

Pelo menos 137 iniciativas apresentaram balanços atualizados de suas ações em andamento, contribuindo para a construção de um repositório digital denominado Celeiro de Soluções.

A plataforma, já disponível online, reúne casos práticos implementados em diversos países e regiões, oferecendo inspiração e modelos replicáveis para governos subnacionais, empresas e organizações da sociedade civil. O objetivo é demonstrar que soluções viáveis já existem e podem ser escaladas com apoio técnico, financeiro e político adequado.

Dan Ioschpe, empresário designado como Campeão de Alto Nível da COP30, destaca que o novo modelo proposto pelo Brasil permitirá aos setores empresariais alinharem seus projetos de forma mais eficiente com as metas globais. "Estamos buscando chegar na ponta. Por exemplo, como fazemos o combustível sustentável da aviação acontecer com a maior rapidez e escala possível, integrando suprimento, demanda e financiamento?", questiona Ioschpe. O executivo acredita que utilizar o ciclo anual das conferências do clima como mecanismo de influência pode acelerar transformações estruturais nos mercados.

O cargo de Campeão Climático de Alto Nível foi estabelecido na COP21, em Paris, e cada presidência da conferência indica uma pessoa para atuar em dupla com o campeão ou campeã anterior.

A função é mobilizar ações voluntárias de atores que não participam diretamente das negociações oficiais, mas são fundamentais para colocar os acordos em prática. Nesta edição, Ioschpe trabalha em conjunto com Nigar Arpadarai, campeã designada pela COP29, realizada em Baku, no Azerbaijão.

Pré-COP estabelece bases para negociações em Belém

Durante dois dias intensos de debates, negociadores de 67 países se reuniram em Brasília para a Pré-COP, evento que não formaliza acordos, mas pavimenta entendimentos cruciais para as negociações que ocorrerão em Belém entre 10 e 21 de novembro.

O embaixador André Corrêa do Lago, presidente designado da COP30, avaliou que foi possível mapear os principais pontos de convergência e identificar potenciais impasses. "Os países foram muito claros sobre os limites do que podem ou não aceitar no processo negociador", declarou.

Dos 140 temas oficiais que compõem a agenda de negociações da COP30, a maioria é de natureza administrativa. Segundo Corrêa do Lago, cerca de seis ou sete assuntos são extremamente críticos, enquanto aproximadamente vinte têm relevância significativa.

"Conseguimos alguns pré-consensos, ainda que sem confirmação formal de que já sejam consensos definitivos", ponderou o embaixador. A dinâmica tradicional das conferências climáticas costuma deixar decisões importantes para os momentos finais, criando suspense sobre os resultados finais.

A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, também reconheceu avanços na Pré-COP, destacando que os limites apresentados pelos países criam possibilidades para conversas mais direcionadas em Belém.

"Mesmo com sinalizações claras dos limites, existem ganchos para que esses limites possam dialogar e aprofundar diferenças no sentido de encontrar caminhos comuns", afirmou a ministra.

Entre os temas debatidos, as sessões sobre clima e natureza ganharam destaque, especialmente no que se refere ao financiamento para preservação de florestas e conservação dos oceanos.

Desafios do financiamento e proteção das florestas tropicais

Uma das iniciativas mais ambiciosas que serão lançadas na COP30 é o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, sigla em inglês para The Tropical Forest Forever Facility). Com valor estimado em US$ 125 bilhões — cerca de R$ 680 bilhões —, o mecanismo de financiamento visa preservar os biomas florestais presentes em aproximadamente 70 países. Essas florestas desempenham papel crucial na regulação do regime de chuvas e na captura de carbono atmosférico, sendo fundamentais para estabilizar o clima global.

Idealizado pelo Brasil em articulação com Colômbia, Noruega, Reino Unido, França e Emirados Árabes Unidos, o fundo conta com apoio de nações detentoras de vastas extensões de florestas tropicais, incluindo Gana, República Democrática do Congo, Malásia e Indonésia. Entidades da sociedade civil, porém, apontam que o tema da proteção florestal não recebeu a atenção necessária durante a Pré-COP. "Onde estão as florestas nas negociações? Um dos grandes diferenciais da COP30 é acontecer na maior floresta do planeta", questionou Camila Jardim, especialista em política internacional do Greenpeace Brasil.

No campo das metas climáticas nacionais, o cenário permanece desafiador. Até o momento, apenas 62 dos 195 países signatários apresentaram formalmente suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), representando somente 31% das emissões globais de gases de efeito estufa. Grandes emissores como União Europeia e Índia, presentes na Pré-COP, ainda não renovaram seus compromissos, que são fundamentais para assegurar que o aumento da temperatura global não exceda 1,5ºC até o final do século.

A primeira COP na Amazônia como ponto de virada

A realização da COP30 em Belém, capital paraense localizada no coração da Amazônia, carrega enorme simbolismo. Será a primeira vez que uma cidade amazônica sediará a conferência climática mais importante do planeta, atraindo cerca de 40 mil visitantes durante os principais dias do evento.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ressaltou o significado histórico: "Uma coisa é discutir a Amazônia no Egito, em Berlim ou em Paris. Agora vamos discutir a importância da Amazônia dentro da Amazônia, vendo os indígenas e os povos ribeirinhos e como eles vivem".

A cidade passa por ampla reestruturação em sua infraestrutura urbana, com investimentos superiores a R$ 4,7 bilhões em obras de portos, saneamento, turismo e hotelaria. O governo federal também anunciou investimento de R$ 53 milhões para fortalecer a rede de saúde local, deixando legados duradouros para a população além do período da conferência. Os serviços do Sistema Único de Saúde (SUS) estarão disponíveis para todos os participantes, com atendimento nos três níveis de complexidade: primário, secundário e terciário.

A programação da COP30 inclui dias temáticos alinhados aos seis eixos da Agenda de Ação, permitindo que cientistas, estudantes, ministros, prefeitos, ativistas e artistas identifiquem onde se encaixam e planejem sua participação. A cúpula de chefes de Estado está agendada para 6 e 7 de novembro, enquanto as demais atividades ocorrerão entre 10 e 21 de novembro. "Queremos que todos vejam onde se encaixam nessa agenda e planejem se juntar a nós em Belém para uma ação coletiva", declarou Ana Toni, CEO da COP30.

A coordenadora Bruna Cerqueira enfatiza que a conferência não representa um ponto final, mas um marco para processos contínuos. "Isso não acaba em Belém. Usamos Belém como um marco, mas o trabalho continuará ao longo do tempo", ressaltou.

A expectativa é que a COP30 estabeleça um novo padrão de transparência, implementação efetiva e conexão entre compromissos globais e impactos concretos na vida das populações mais vulneráveis às mudanças climáticas.


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