COP30 sem EUA e Argentina: recado incômodo na véspera do evento

Ausência de representantes de alto escalão na COP30 expõe crise de liderança climática e pressiona países a preencherem o vácuo político

Por Por Altarir Câmara-
9 Min

COP30 sem EUA e Argentina: recado incômodo na véspera do evento
Donald Trump e seu alto escalão devem ignorar COP-30 - Foto: Divulgação Governo dos EUA

A uma semana do início da COP30, em Belém (PA), a diplomacia climática entra no pavilhão com cadeiras vazias em posições centrais. A Casa Branca confirmou que os Estados Unidos não enviarão representantes de alto escalão para a conferência — inclusive para a Cúpula de Líderes —, rompendo a tradição de presença robusta da maior economia do planeta nas negociações climáticas. A Argentina, por sua vez, aparece nos cadastros de países credenciados, mas segue sem definição sobre participação em nível político relevante. O contraste é brutal: de um lado, 191 países credenciados; do outro, as duas ausências que mais chamam atenção no tabuleiro geopolítico da Amazônia.

A presidência brasileira da COP e o secretariado da UNFCCC mantêm a agenda: a conferência está marcada para 6 a 21 de novembro, com a Cúpula de Líderes programada nos primeiros dias. A máquina organizadora segue em alta rotação, mas o sinal político enviado por Washington e Buenos Aires ameaça contaminar os corredores com ceticismo. Em vez de fotografia de unidade, a cúpula pode registrar uma fissura: grandes emissores e atores regionais ausentes do debate em alto nível, enquanto a crise climática corre sem pedir crachá.

A decisão dos EUA se amarra a um fio mais grosso: o governo Trump reabriu o processo de retirada do Acordo de Paris, por meio de ordem executiva assinada em 20 de janeiro de 2025. A mensagem estratégica é cristalina — o país não deseja estar atado a compromissos multilaterais que limitem sua política energética. Na prática, isso esvazia a influência norte-americana na COP e dificulta costuras sobre financiamento, transição energética e mecanismos de mercado. O calendário da retirada ainda tem etapas formais, mas o impacto simbólico já é enorme. 

No caso argentino, o governo Javier Milei tem histórico recente de distanciamento das pautas ambientais e liberalização acelerada de setores intensivos em carbono. Embora o país conste como credenciado, a indefinição sobre envio de nomes com peso político mantém a incógnita. Em linguagem diplomática, é o famoso “vem, mas talvez não venha”; em linguagem climática, é mais uma névoa sobre as negociações num momento em que a América do Sul poderia aparecer coesa, em casa, no coração da Amazônia. 

O que muda na mesa de negociações

A COP30 foi desenhada para ser a conferência da implementação — onde compromissos deixam o PowerPoint e alcançam o chão de fábrica, o campo, a floresta e a rede elétrica. Sem EUA em alto escalão, fica mais difícil amarrar coalizões sobre financiamento climático, especialmente a ampliação de recursos para adaptação e perdas e danos. Os Estados Unidos são um pilar financeiro global: ausência de liderança reduz apetite de outros doadores e dá munição a países reticentes que costumam usar o “exemplo dos grandes” para postergar decisões. 

A Argentina pesa pela vizinhança e pelo setor de energia: gás de xisto de Vaca Muerta, agronegócio exportador e um sistema elétrico em transformação. Ao não se posicionar com clareza, Buenos Aires transmite a imagem de que o debate climático pode ser tratado como “assunto de ocasião”, quando, para a região, ele define competitividade: tarifas de carbono na fronteira, regras de sustentabilidade para cadeias agroindustriais e acesso a capital internacional mais barato. A ausência política vira mensagem às empresas e aos mercados — e dificilmente é uma mensagem de confiança.

191 credenciados… e um vácuo de protagonismo

A diplomacia brasileira tem repetido o número com razão: 191 países credenciados para a COP30. É um feito logístico e político, sobretudo numa conferência fora dos grandes centros, sediada em Belém, porta de entrada da Amazônia. Mas credenciamento não é sinônimo de presença efetiva ou influência. A negociação climática é conduzida por quem aparece com mandato, equipe técnica forte e capacidade de fechar acordos. Sem os EUA na foto principal, fica mais árduo fechar compromissos que, inevitavelmente, passam pelo dólar, pelo Tesouro americano e pela capacidade de mobilizar bancos multilaterais. 

A política climática dos EUA tem sido um pêndulo. Depois do retorno ao Acordo de Paris em 2021, o país aprovou a Inflation Reduction Act, que turbinou investimentos em energia limpa. Em 2025, porém, a nova ordem executiva inverteria a direção e retomaria a saída do Acordo. No curto prazo, a diplomacia ambiental americana tende a operar no modo “mínimos legais”: cumprir formalidades técnicas, evitar compromissos multilaterais rígidos e focar em medidas domésticas acomodadas a interesses do setor de combustíveis fósseis. A ausência de alto escalão na COP30 é, portanto, coerente com a estratégia de esvaziamento do foro multilateral climático. 

Negociações climáticas dependem de credibilidade. Países em desenvolvimento cobram dos ricos os US$ 100 bilhões anuais (meta antiga) e, mais recentemente, trilhões em mobilização para financiar transição energética, adaptação e proteção florestal. Sem os Estados Unidos na mesa com peso político, o discurso de “financiamento em escala” perde ponto de apoio. E quando a promessa vacila, o risco regulatório aumenta, o custo de capital para projetos verdes sobe e a transformação da economia trava. É um efeito dominó: a cadeira vazia de hoje vira turbina desligada amanhã.

Sediar a COP30 no coração da Amazônia foi escolha com poder simbólico. O Brasil apostou na imagem da floresta como sala de reuniões da humanidade. A ausência dos EUA e a indefinição argentina colidem com essa narrativa e abrem espaço para outros atores tentarem ocupar o holofote — União Europeia, China, Índia e países africanos que vêm articulando uma pauta conjunta de energia, transição justa e biodiversidade. A conferência, no entanto, não é apenas simbolismo: terá dias temáticos, discussões sobre bioenergias e pressão sobre NDCs — as metas nacionais de emissões. Sem Washington, a coreografia fica capenga, mas a música não para.

Argentina: custo de oportunidade na vizinhança

Para a Argentina, a conta pode aparecer rápido. Exportadores dependem de mercados com regras verdes cada vez mais rígidas — da agricultura ao aço, passando por combustíveis de aviação sustentáveis. Estar presente em alto nível na COP é chance de negociar salvaguardas, atrair financiamento climático e participar da escrita das novas regras do jogo. A indefinição transmite o oposto: desalinhamento. Em um momento em que o Brasil tenta projetar liderança regional em clima, a ausência de Buenos Aires em alto escalão também enfraquece a voz sul-americana.

Ao não enviar autoridades de alto escalão, os EUA sinalizam que, por ora, não pretendem arbitrar compromissos sobre financiamento, mercados de carbono e adaptação. Isso não torna a COP irrelevante, mas eleva o custo de coordenação entre os demais. Países emergentes devem usar a lacuna para blindar ganhos: consolidar fundos de risco para adaptação, avançar em padrões de certificação que valorizem ativos sustentáveis e criar mecanismos de transparência que aumentem confiança — especialmente no que diz respeito a mercados e rastreabilidade, tema sensível para florestas tropicais e cadeias agroindustriais. Sem Washington, cresce a responsabilidade de Bruxelas, Pequim e Nova Délhi.

Pressão extra sobre o Brasil anfitrião

Sobra para o Brasil a tarefa de manter a ambição enquanto modera expectativas. A presidência da COP30 precisa equilibrar pragmatismo e urgência: celebrar avanços concretos (financiamento para perdas e danos, metas setoriais de descarbonização, pacotes de bioenergia com salvaguardas sociais) e evitar que a cúpula vire apenas uma feira de anúncios voluntários. O país tem capital político na pauta florestal e de transição energética, mas o sucesso será medido pela capacidade de costurar consensos — e, aqui, a presença de grandes doadores faz falta.

Mesmo com o boicote de alto escalão, a delegação americana técnica pode acompanhar sessões, apresentar posições em grupos de trabalho e monitorar textos. Isso importa porque redações finais de decisões têm longo efeito. Já a Argentina precisa esclarecer quem vem, com que mandato e que compromissos pode assumir. Enquanto isso, o relógio corre: Belém se prepara para receber a comunidade internacional num cenário onde o barulho do vácuo de liderança pode competir com as vozes que pedem pressa, dinheiro e regras claras. 

No balanço, a notícia não é apenas protocolar. É política. E política, na crise climática, significa vidas, empregos e trilhões em investimentos. EUA e Argentina podem até tentar assistir de longe. Mas na COP da Amazônia, distância fala alto — e a mensagem, neste caso, não ajuda a resfriar o planeta.

A UNFCCC e a presidência brasileira confirmam as datas, a estrutura de Líderes nos primeiros dias e os eixos programáticos. A expectativa é de debates fortes sobre bioenergia, transição justa, financiamento e metas atualizadas (NDCs). Mesmo sem Washington no topo da mesa, o cronograma segue, e o texto final da conferência pode ganhar robustez se coalizões temáticas — por exemplo, em energia limpa e florestas — conseguirem amarrar compromissos verificáveis


  • Ir para GoogleNews
Tags »
Notícias Relacionadas »