Brasil quer infraestrutura digital pública global para acelerar enfrentamento à mudança do clima

Proposta do ITS Rio e de Ronaldo Lemos detalha camadas, etapas e entregas do Climate DPI

Por Por Altair Câmara-
7 Min

Brasil quer infraestrutura digital pública global para acelerar enfrentamento à mudança do clima
Climate DPI na COP30: “sistema operacional” global do clima. Foto: Canva

O Brasil levou à COP30 uma proposta com ambição de software de país inteiro — e de planeta inteiro. A pedido do presidente da conferência, embaixador André Corrêa do Lago, o ITS Rio e o pesquisador Ronaldo Lemos apresentaram o Climate DPI, uma Infraestrutura Digital Pública Global para o Clima que pretende organizar, em camadas, a base tecnológica da ação climática.

O documento, elaborado no Conselho Consultivo de Alto Nível em Tecnologia da Presidência da COP30, descreve uma arquitetura modular — o ClimateStack — e articula um plano de trabalho com fases, atores e produtos para destravar coordenação, financiamento e transparência em escala mundial. 

A lógica é simples e, ao mesmo tempo, ousada: assim como rodovias e redes elétricas foram a espinha dorsal do século XX, a infraestrutura digital pública passa a ser a base do século XXI — agora orientada à ação climática. Em vez de projetos isolados, a proposta cria um “sistema operacional do clima”, com padrões abertos, governança ética e interoperabilidade entre identidade digital, pagamentos, dados abertos e aplicações públicas. A ambição é transformar compromissos do Acordo de Paris em resultados mensuráveis, com monitoramento em tempo quase real. 

Para facilitar a vida de quem acompanha a COP e quer clareza de programação, organizamos abaixo o que é, como se estrutura e quando acontece cada parte — do desenho técnico às entregas esperadas como legado digital de Belém.

O que é o limate DPI (e o que ele promete)

O Climate DPI é uma Infraestrutura Digital Pública para interligar dados, finanças e inteligência digital. Ele nasce com quatro objetivos “programáveis”: 1) medir emissões, desmatamento e riscos; 2) financiar ações com rastreabilidade (do aporte ao resultado); 3) coordenar políticas e respostas a desastres; 4) democratizar acesso por múltiplos canais (da web ao SMS e ao rádio comunitário). A proposta prevê integração com sistemas já existentes — GEOSS, Copernicus e INPE/PRODES — para monitorar florestas e mudanças ambientais, evitando reinvenção de roda e fragmentação

No campo das finanças, o Climate DPI incorpora pagamentos interoperáveis e uso de contratos inteligentes para lastrear repasses, compensações e emissão de créditos de carbono, reduzindo assimetria de informação e tempo de resposta. A camada de IA — com foco em previsão de risco, agricultura de precisão e gestão de redes elétricas — vem acompanhada do compromisso com infraestruturas verdes (data centers eficientes e energia 100% renovável). 

A arquitetura por camadas (ClimateStack) e a “grade de programação”

O relatório organiza o ClimateStack em módulos claros — pense em trilhas de uma conferência, com entregas e prazos. A seguir, o “roteiro”:

Camada 1 — Identidade digital climática (fase 1–2): criação de registros únicos para pessoas, organizações e ativos vinculados a projetos climáticos. Serve para rastrear todo o ciclo de uma ação, do investimento à redução de emissões, com confiança e auditoria embutidas. É a base que permite saber quem fez o quê, onde e com que impacto.

Camada 2 — Pagamentos e transações (fase 2–3): adoção de sistemas interoperáveis (instantâneos sempre que possível) e contratos inteligentes para transferências, compensações e créditos de carbono, inclusive com regras de integridade para evitar dupla contagem ou greenwashing. A ideia é transformar metas em fluxos financeiros com rastreabilidade, doador a doador, projeto a projeto.

Camada 3 — Dados abertos (fase 1–contínua): integração de satélites, sensores e observações locais em data lakes climáticos com padrões abertos e governança ética. Aqui entram, por exemplo, Copernicus (UE), GEOSS (rede global) e INPE/PRODES (Brasil) — fontes que já monitoram florestas, emissões e uso da terra, fundamentais para medir impacto e verificar resultados.

Camada 4 — Aplicações públicas (fase 3–5): conjunto de serviços digitais para governos e sociedade: alertas de desastres, mercados de carbono com transparência de dados, monitoramento de florestas e sistemas de previsão de risco. Tudo construído como bens digitais públicos (código aberto) para reduzir custo e acelerar adoção

Camada 5 — Acesso universal (fase 1–contínua): garantir multicanaisweb, aplicativos, SMS, rádio comunitária e línguas locais — para levar ferramentas a populações vulneráveis. Sem inclusão, o melhor algoritmo vira luxo de poucos.

Linha do tempo sugerida: do anúncio ao legado digital da COP30

A proposta crava um momento político: lançar oficialmente o Climate DPI como legado da COP30 — presidida por André Corrêa do Lago — e abrir, em seguida, um ciclo técnico com países, bancos multilaterais e redes de pesquisa para pilotos regionais e padrões comuns. Em Belém, a apresentação pública do conceito sinaliza compromissos de governança, financiamento inicial e infraestrutura compartilhada; nos meses seguintes, viria a seleção de casos de uso prioritários (alertas, florestas, transparência de mercados) e a definição de métricas para avaliação. 

Em termos de entregas programadas, o relatório aponta metas como monitoramento em tempo quase real de emissões/desmatamento, maior transparência em mercados de carbono e redução de até 40% no tempo de resposta a desastres quando sistemas de alerta, dados e pagamentos atuam integrados — números que a implementação deverá auditar com metodologias públicas. 

Quem faz o quê: papéis na “produção”

  • Presidência da COP30: patrocina o lançamento político e convoca países e instituições para o co-desenho técnico. Reuters

  • ITS Rio / Conselho de Tecnologia: coordena a arquitetura do ClimateStack e mantém o repositório de padrões e guias. ITS Rio

  • Países e cidades: escolhem casos de uso (florestas, riscos, energia) e aderem a padrões e práticas de dados. UNDP Climate Promise

  • Bancos multilaterais: ancoram financiamento e governança de risco, conectando o DPI a fontes de capital. World Bank

  • Academia e comunidades locais: validam dados (ground truth), promovem ciência cidadã e diversidade linguística. UNDP Climate Promise

A grande dor das políticas climáticas é a fragmentação: cada país ou projeto com sua planilha, método e plataforma, o que encarece e atrasa a execução. O Climate DPI responde com padrões de base (à la DPI de identidade/pagamentos/dados), reconhecidos pelo Banco Mundial e PNUD como chaves para escalar serviços públicos digitais com inclusão, privacidade e governança. Na agenda climática, isso significa comparabilidade, rastreabilidade e auditoria desde o desenho do dado à aplicação que o usa. 

O que observar na COP30: marcos “programáveis”

  1. Anúncio político: reconhecimento do Climate DPI como legado e convite formal a países/instituições para o consórcio de implementação.

  2. Guia técnico v1: publicação do esqueleto do ClimateStack (padrões, APIs, requisitos de governança de dados). 

  3. Roadmap de pilotos: seleção de projetos âncora em florestas, alertas e mercados, com cronograma e métricas. 

  4. Coalizão de dados: acordos para interconectar bases como Copernicus, GEOSS e INPE/PRODES dentro de um modelo de dados abertos e ética.

  5. Governança e financiamento: desenho de instância multilateral que dê previsibilidade a recursos e segurança jurídica a quem adere ao padrão. 

No fim do dia, a pergunta é pragmática: como sair do PDF para o produto? O Climate DPI aposta que a resposta passa por infraestrutura pública digital, com código aberto, padrões globais e implementação incremental — porque o clima não espera a versão perfeita. O que a COP30 decide agora afetará custos de transação, velocidade de entrega e confiança no ecossistema climático pelos próximos anos. 


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