A corrida global pela remoção de carbono da atmosfera acaba de ganhar um novo e poderoso aliado. A Airbus, gigante europeia da aviação e aeroespacial, iniciou as operações de um sistema de Captura Direta de Ar (DAC) na instalação Deep Sky Alpha, localizada em Innisfail, Alberta, no Canadá. O módulo, capaz de remover 250 toneladas de CO2 por ano, representa um marco na aplicação de tecnologias derivadas da exploração espacial no combate às mudanças climáticas.
A parceria entre a Deep Sky e a Airbus ilustra uma tendência crescente: a convergência entre inovação aeroespacial e soluções climáticas. A tecnologia empregada no módulo foi originalmente desenvolvida pela Airbus Defence and Space para os sistemas de suporte à vida da Estação Espacial Internacional, sendo adaptada para uso comercial terrestre em 2023. Esse avanço demonstra como investimentos em pesquisa espacial podem gerar benefícios diretos para a sustentabilidade do planeta.
No Brasil, plataformas como a B4 (portalb4.capital), primeira bolsa de ação climática do país, acompanham de perto essas inovações globais. Ao oferecer infraestrutura para a transformação de ativos sustentáveis e a comercialização deles, a B4 conecta investidores brasileiros às melhores práticas internacionais de compensação de emissões, incluindo projetos baseados em tecnologias emergentes como a DAC.
Como funciona a tecnologia de Captura Direta de Ar
O sistema modular da Airbus opera de forma elegantemente simples em seu conceito, mas sofisticada em sua execução. O módulo captura dióxido de carbono diretamente do ar ambiente utilizando um filtro sólido à base de amina. Quando o filtro atinge sua capacidade máxima de absorção, é aquecido para liberar um fluxo de CO2 de alta pureza, enquanto devolve ar com baixo teor de carbono para a atmosfera.
Um diferencial importante do sistema é seu circuito de energia otimizado. A Airbus configurou o módulo para recuperar e reutilizar o calor gerado no processo, reduzindo significativamente a demanda operacional de energia — um dos principais desafios enfrentados pelas tecnologias de captura direta de carbono.
O módulo foi entregue apenas oito meses após o início dos trabalhos de engenharia, ilustrando a rapidez com que as tecnologias derivadas da indústria aeroespacial estão sendo implementadas em projetos de combate às mudanças climáticas.
Deep Sky Alpha: o primeiro centro global de inovação em remoção de carbono
A instalação Deep Sky Alpha posiciona-se como o primeiro centro mundial dedicado exclusivamente à inovação e comercialização de tecnologias de remoção de carbono. O local funciona como um campo de provas para diversos desenvolvedores de DAC, permitindo que diferentes sistemas sejam testados, otimizados e validados em condições consistentes, além de gerar créditos de remoção de carbono para compradores pioneiros.
Alex Petre, CEO da Deep Sky, afirmou que a capacidade de ampliar a captura direta de dióxido de carbono é fundamental para sua missão. "Para que a remoção de dióxido de carbono tenha impacto, precisamos desenvolver tecnologias que possam ser ampliadas rapidamente para remover bilhões de toneladas de CO2 da atmosfera", disse ela.
A Airbus se torna a mais recente empresa a instalar tecnologia na unidade, juntando-se a um ecossistema crescente de desenvolvedores que inclui Airhive, Phlair, MissionZero, Skyrenu, Skytree, Carbon Capture Inc. e GE Vernova. Para investidores e compradores que acompanham o setor, a convergência de múltiplos projetos de captura direta de carbono em um único local operacional oferece um ambiente comparativo raro para avaliar eficiência energética, trajetória de custos e escalabilidade a longo prazo.
Compromissos financeiros impulsionam o setor de remoção de carbono
A implantação da tecnologia Airbus está ancorada em compromissos financeiros robustos garantidos ao longo do último ano. Em dezembro de 2024, a Deep Sky recebeu um aporte de US$ 40 milhões do programa Breakthrough Energy Catalyst — o primeiro investimento da iniciativa em um projeto canadense e também o primeiro apoio a uma tecnologia de Captura Direta de Ar. O programa Catalyst, criado por Bill Gates, é reconhecido por apoiar tecnologias climáticas que exigem grandes aportes de capital iniciais para atingirem escala comercial.
Os compradores corporativos de créditos desempenham papel estratégico nessa equação. A Deep Sky anunciou que o Royal Bank of Canada e a Microsoft se tornaram os compradores fundadores de créditos de remoção de carbono da empresa, comprometendo-se a adquirir 10.000 toneladas de remoção de CO2 ao longo de um período de 10 anos, com opções de expansão para até 1 milhão de toneladas à medida que os projetos amadurecem.
Esses acordos de longo prazo proporcionam o tipo de certeza de demanda que investidores e fornecedores de tecnologia buscam cada vez mais ao avaliar empreendimentos de tecnologia climática. No Brasil, a B4 opera com modelo semelhante, conectando projetos de ação climática a investidores e empresas comprometidas com a neutralidade de carbono, utilizando a tecnologia blockchain para garantir a rastreabilidade e integridade de cada transação.
A urgência da remoção de carbono segundo o IPCC
A relevância estratégica da tecnologia DAC torna-se evidente quando analisamos os números apresentados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Será necessário eliminar, ou seja, capturar na atmosfera e armazenar de forma sustentável, entre 7 e 9 bilhões de toneladas de CO2 por ano até 2050, segundo relatório interdisciplinar coordenado pela Universidade de Oxford.
Atualmente são eliminados cerca de 2 bilhões de toneladas, sobretudo graças ao reflorestamento, enquanto 40 bilhões de toneladas foram emitidos no mundo em 2023. Essa disparidade evidencia a necessidade urgente de escalar tecnologias complementares às soluções naturais.
Evitar que as temperaturas subam 2°C provavelmente exigirá a remoção de até 11 bilhões de toneladas de CO2 por ano até 2050 e 20 bilhões até 2100. Diante dessa demanda colossal, a unidade DAC da Airbus, embora pequena em escala absoluta, representa uma mudança significativa: empresas de tecnologia climática estão passando de protótipos de laboratório para integração industrial em um ritmo sem precedentes.
Desafios e oportunidades para a escala global
De acordo com a AIE, a capacidade global de DAC continua baixa — apenas mais de 10.000 toneladas por ano em 2023 —, mas mais de 130 novas instalações estão em andamento, sinalizando uma trajetória de aumento drástico.
Segundo o cenário da IEA, Net Zero Emissions by 2050, será exigido um rápido aumento de escala da DAC, saindo da capacidade atual de 0,01 MtCO2/ano e chegando a 85 MtCO2/ano em 2030 e 980 MtCO2/ano em 2050.
O principal obstáculo para essa escalada permanece sendo o custo. A tecnologia precisaria ter um custo de 100 a 200 dólares por tonelada de CO2 retirado da atmosfera, mas hoje o custo é cerca de 1.000 dólares. Essa redução de custo dependerá de inovação tecnológica contínua, políticas de incentivo governamental e expansão da demanda corporativa por créditos de remoção permanente.
O papel do Brasil na economia global de carbono
Enquanto o Canadá se posiciona como polo norte-americano para tecnologias de remoção de carbono, o Brasil desponta como potência global na geração de créditos de carbono baseados em soluções naturais e transição energética. Com potencial estimado de até US$ 120 bilhões em receitas até 2030 e a recente aprovação da Lei 15.042/2024, que instituiu o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), o país consolida sua posição estratégica na economia verde mundial.
A B4 atua como ponte entre essas duas frentes: de um lado, oferece acesso a projetos brasileiros de reflorestamento, conservação e transição energética; de outro, acompanha as inovações tecnológicas globais que podem complementar as soluções naturais na corrida pela descarbonização. Com seu rigoroso processo de aprovação de projetos — que resulta em uma taxa de aprovação de apenas 10% — e a utilização de Certificados de Ação Climática em formato NFT, a plataforma garante que investidores tenham acesso a ativos sustentáveis de alta integridade.
Novas parcerias ampliam o ecossistema de remoção de carbono
A Deep Sky e a DACMA, empresa alemã de captura direta de ar, anunciaram um acordo de desenvolvimento conjunto de longo prazo que formará a base para a implantação da tecnologia de remoção de carbono de alta qualidade no Canadá.
A primeira unidade DACMA em uma instalação da Deep Sky terá capacidade de remoção de 600 toneladas de CO₂ por ano, com perspectiva de crescimento para instalações de grande escala até 2027.As instalações da Deep Sky estão direcionadas para alcançar um milhão de toneladas de remoção de CO₂ por ano.
Essa expansão demonstra que o setor de remoção de carbono está amadurecendo rapidamente, com múltiplos desenvolvedores de tecnologia convergindo para criar um ecossistema diversificado e competitivo. A competição entre diferentes abordagens tecnológicas deve acelerar a redução de custos e a melhoria de eficiência, tornando a captura direta de ar cada vez mais viável economicamente.
Implicações para mercados de capitais e sustentabilidade corporativa
Para líderes de sustentabilidade corporativa, o projeto Deep Sky Alpha serve como exemplo de como portfólios diversificados de DAC podem evoluir. A operação de múltiplas tecnologias em um mesmo local permite avaliação mais precisa da eficiência operacional, o que contribui para mercados de crédito de remoção de carbono mais transparentes.
Para formuladores de políticas, a implantação demonstra como modelos de financiamento público-privado — subsídios, contratos de longo prazo e parcerias para desenvolvimento de tecnologia — podem acelerar os segmentos mais intensivos em capital da infraestrutura climática.