Airbus leva tecnologia espacial para captura de carbono no Canadá

Sistema derivado da Estação Espacial Internacional remove 250 toneladas de CO2 por ano e atrai gigantes como Microsoft e RBC

Por Por Altair Câmara-
9 Min

Airbus leva tecnologia espacial para captura de carbono no Canadá
ódulo de Captura Direta de Ar da Airbus instalado na Deep Sky Alpha, no Canadá, utiliza tecnologia derivada da Estação Espacial Internacional para remover CO2 da atmosfera. Foto: Divulgação

A corrida global pela remoção de carbono da atmosfera acaba de ganhar um novo e poderoso aliado. A Airbus, gigante europeia da aviação e aeroespacial, iniciou as operações de um sistema de Captura Direta de Ar (DAC) na instalação Deep Sky Alpha, localizada em Innisfail, Alberta, no Canadá. O módulo, capaz de remover 250 toneladas de CO2 por ano, representa um marco na aplicação de tecnologias derivadas da exploração espacial no combate às mudanças climáticas.

A parceria entre a Deep Sky e a Airbus ilustra uma tendência crescente: a convergência entre inovação aeroespacial e soluções climáticas. A tecnologia empregada no módulo foi originalmente desenvolvida pela Airbus Defence and Space para os sistemas de suporte à vida da Estação Espacial Internacional, sendo adaptada para uso comercial terrestre em 2023. Esse avanço demonstra como investimentos em pesquisa espacial podem gerar benefícios diretos para a sustentabilidade do planeta.

No Brasil, plataformas como a B4 (portalb4.capital), primeira bolsa de ação climática do país, acompanham de perto essas inovações globais. Ao oferecer infraestrutura para a transformação de ativos sustentáveis e a comercialização deles, a B4 conecta investidores brasileiros às melhores práticas internacionais de compensação de emissões, incluindo projetos baseados em tecnologias emergentes como a DAC.

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Como funciona a tecnologia de Captura Direta de Ar

O sistema modular da Airbus opera de forma elegantemente simples em seu conceito, mas sofisticada em sua execução. O módulo captura dióxido de carbono diretamente do ar ambiente utilizando um filtro sólido à base de amina. Quando o filtro atinge sua capacidade máxima de absorção, é aquecido para liberar um fluxo de CO2 de alta pureza, enquanto devolve ar com baixo teor de carbono para a atmosfera.

Um diferencial importante do sistema é seu circuito de energia otimizado. A Airbus configurou o módulo para recuperar e reutilizar o calor gerado no processo, reduzindo significativamente a demanda operacional de energia — um dos principais desafios enfrentados pelas tecnologias de captura direta de carbono.

O módulo foi entregue apenas oito meses após o início dos trabalhos de engenharia, ilustrando a rapidez com que as tecnologias derivadas da indústria aeroespacial estão sendo implementadas em projetos de combate às mudanças climáticas. 

Deep Sky Alpha: o primeiro centro global de inovação em remoção de carbono

A instalação Deep Sky Alpha posiciona-se como o primeiro centro mundial dedicado exclusivamente à inovação e comercialização de tecnologias de remoção de carbono. O local funciona como um campo de provas para diversos desenvolvedores de DAC, permitindo que diferentes sistemas sejam testados, otimizados e validados em condições consistentes, além de gerar créditos de remoção de carbono para compradores pioneiros.

Alex Petre, CEO da Deep Sky, afirmou que a capacidade de ampliar a captura direta de dióxido de carbono é fundamental para sua missão. "Para que a remoção de dióxido de carbono tenha impacto, precisamos desenvolver tecnologias que possam ser ampliadas rapidamente para remover bilhões de toneladas de CO2 da atmosfera", disse ela. 

A Airbus se torna a mais recente empresa a instalar tecnologia na unidade, juntando-se a um ecossistema crescente de desenvolvedores que inclui Airhive, Phlair, MissionZero, Skyrenu, Skytree, Carbon Capture Inc. e GE Vernova. Para investidores e compradores que acompanham o setor, a convergência de múltiplos projetos de captura direta de carbono em um único local operacional oferece um ambiente comparativo raro para avaliar eficiência energética, trajetória de custos e escalabilidade a longo prazo.

Compromissos financeiros impulsionam o setor de remoção de carbono

A implantação da tecnologia Airbus está ancorada em compromissos financeiros robustos garantidos ao longo do último ano. Em dezembro de 2024, a Deep Sky recebeu um aporte de US$ 40 milhões do programa Breakthrough Energy Catalyst — o primeiro investimento da iniciativa em um projeto canadense e também o primeiro apoio a uma tecnologia de Captura Direta de Ar. O programa Catalyst, criado por Bill Gates, é reconhecido por apoiar tecnologias climáticas que exigem grandes aportes de capital iniciais para atingirem escala comercial.

Os compradores corporativos de créditos desempenham papel estratégico nessa equação. A Deep Sky anunciou que o Royal Bank of Canada e a Microsoft se tornaram os compradores fundadores de créditos de remoção de carbono da empresa, comprometendo-se a adquirir 10.000 toneladas de remoção de CO2 ao longo de um período de 10 anos, com opções de expansão para até 1 milhão de toneladas à medida que os projetos amadurecem. 

Esses acordos de longo prazo proporcionam o tipo de certeza de demanda que investidores e fornecedores de tecnologia buscam cada vez mais ao avaliar empreendimentos de tecnologia climática. No Brasil, a B4 opera com modelo semelhante, conectando projetos de ação climática a investidores e empresas comprometidas com a neutralidade de carbono, utilizando a tecnologia blockchain para garantir a rastreabilidade e integridade de cada transação.

A urgência da remoção de carbono segundo o IPCC

A relevância estratégica da tecnologia DAC torna-se evidente quando analisamos os números apresentados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Será necessário eliminar, ou seja, capturar na atmosfera e armazenar de forma sustentável, entre 7 e 9 bilhões de toneladas de CO2 por ano até 2050, segundo relatório interdisciplinar coordenado pela Universidade de Oxford.

Atualmente são eliminados cerca de 2 bilhões de toneladas, sobretudo graças ao reflorestamento, enquanto 40 bilhões de toneladas foram emitidos no mundo em 2023. Essa disparidade evidencia a necessidade urgente de escalar tecnologias complementares às soluções naturais.

Evitar que as temperaturas subam 2°C provavelmente exigirá a remoção de até 11 bilhões de toneladas de CO2 por ano até 2050 e 20 bilhões até 2100. Diante dessa demanda colossal, a unidade DAC da Airbus, embora pequena em escala absoluta, representa uma mudança significativa: empresas de tecnologia climática estão passando de protótipos de laboratório para integração industrial em um ritmo sem precedentes.

Desafios e oportunidades para a escala global

De acordo com a AIE, a capacidade global de DAC continua baixa — apenas mais de 10.000 toneladas por ano em 2023 —, mas mais de 130 novas instalações estão em andamento, sinalizando uma trajetória de aumento drástico.

Segundo o cenário da IEA, Net Zero Emissions by 2050, será exigido um rápido aumento de escala da DAC, saindo da capacidade atual de 0,01 MtCO2/ano e chegando a 85 MtCO2/ano em 2030 e 980 MtCO2/ano em 2050.

O principal obstáculo para essa escalada permanece sendo o custo. A tecnologia precisaria ter um custo de 100 a 200 dólares por tonelada de CO2 retirado da atmosfera, mas hoje o custo é cerca de 1.000 dólares.  Essa redução de custo dependerá de inovação tecnológica contínua, políticas de incentivo governamental e expansão da demanda corporativa por créditos de remoção permanente.

O papel do Brasil na economia global de carbono

Enquanto o Canadá se posiciona como polo norte-americano para tecnologias de remoção de carbono, o Brasil desponta como potência global na geração de créditos de carbono baseados em soluções naturais e transição energética. Com potencial estimado de até US$ 120 bilhões em receitas até 2030 e a recente aprovação da Lei 15.042/2024, que instituiu o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), o país consolida sua posição estratégica na economia verde mundial.

A B4 atua como ponte entre essas duas frentes: de um lado, oferece acesso a projetos brasileiros de reflorestamento, conservação e transição energética; de outro, acompanha as inovações tecnológicas globais que podem complementar as soluções naturais na corrida pela descarbonização. Com seu rigoroso processo de aprovação de projetos — que resulta em uma taxa de aprovação de apenas 10% — e a utilização de Certificados de Ação Climática em formato NFT, a plataforma garante que investidores tenham acesso a ativos sustentáveis de alta integridade.

Novas parcerias ampliam o ecossistema de remoção de carbono

A Deep Sky e a DACMA, empresa alemã de captura direta de ar, anunciaram um acordo de desenvolvimento conjunto de longo prazo que formará a base para a implantação da tecnologia de remoção de carbono de alta qualidade no Canadá. 

A primeira unidade DACMA em uma instalação da Deep Sky terá capacidade de remoção de 600 toneladas de CO₂ por ano, com perspectiva de crescimento para instalações de grande escala até 2027.As instalações da Deep Sky estão direcionadas para alcançar um milhão de toneladas de remoção de CO₂ por ano.

Essa expansão demonstra que o setor de remoção de carbono está amadurecendo rapidamente, com múltiplos desenvolvedores de tecnologia convergindo para criar um ecossistema diversificado e competitivo. A competição entre diferentes abordagens tecnológicas deve acelerar a redução de custos e a melhoria de eficiência, tornando a captura direta de ar cada vez mais viável economicamente.

Implicações para mercados de capitais e sustentabilidade corporativa

Para líderes de sustentabilidade corporativa, o projeto Deep Sky Alpha serve como exemplo de como portfólios diversificados de DAC podem evoluir. A operação de múltiplas tecnologias em um mesmo local permite avaliação mais precisa da eficiência operacional, o que contribui para mercados de crédito de remoção de carbono mais transparentes.

Para formuladores de políticas, a implantação demonstra como modelos de financiamento público-privado — subsídios, contratos de longo prazo e parcerias para desenvolvimento de tecnologia — podem acelerar os segmentos mais intensivos em capital da infraestrutura climática. 


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