Práticas ESG podem adicionar R$ 247 bi ao agronegócio brasileiro

Estudo da EY lançado na COP30 mostra que setor pode crescer 26,5% com adoção estratégica de critérios ambientais, sociais e de governança, gerando 2 milhões de empregos

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
10 Min

Agronegócio brasileiro apresenta na COP30 potencial de adicionar R$ 247 bilhões anuais com práticas ESG, criando 2 milhões de empregos

A adoção de práticas ambientais, sociais e de governança (ESG) poderia impulsionar o agronegócio brasileiro em 26,5%, percentual equivalente ao crescimento acumulado do setor nos últimos sete anos, segundo dados do Cepea-USP/Esalq.

As informações integram o estudo Impact Edge, da EY-Parthenon, lançado na EY House durante a COP30, em Belém, revelando potencial transformador das iniciativas sustentáveis para a maior cadeia produtiva do país.

O levantamento mostra que os impactos se estendem por toda a economia nacional, com ganhos estimados em R$ 247 bilhões por ano, valor comparável ao PIB de Pernambuco em 2022. A implementação das iniciativas ESG também poderia gerar cerca de 2 milhões de empregos, número próximo à população de Manaus, demonstrando capacidade do setor de conciliar desenvolvimento econômico com responsabilidade socioambiental.

A adoção abrangente de práticas ESG no agronegócio resultaria em R$ 112 bilhões adicionais em arrecadação tributária, recursos suficientes para financiar aproximadamente 700 mil vagas em creches ou 14 mil quilômetros de rodovias duplicadas. Esses números demonstram como investimentos privados em sustentabilidade geram benefícios públicos mensuráveis e significativos.

Somente em 2024, o agronegócio brasileiro registrou um PIB de R$ 2,7 trilhões, representando quase um quarto de tudo que o país produz. Responsável por pelo menos 27% do PIB brasileiro e por garantir a segurança alimentar global, o agronegócio desempenha papel fundamental na geração de empregos e no desenvolvimento econômico do país.

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Em termos ambientais, as práticas ESG poderiam evitar a emissão de 328,6 milhões de toneladas de CO₂, economizar 11,5 trilhões de litros de água, evitar a geração de 29 milhões de toneladas de resíduos e reduzir o consumo de energia em 2,8 TWh. Esses números representam contribuição substancial para as metas climáticas brasileiras e demonstram que sustentabilidade e produtividade não são objetivos contraditórios.

A economia hídrica assume importância crítica considerando que o agronegócio é grande consumidor de recursos hídricos. A preservação de 11,5 trilhões de litros de água através de práticas mais eficientes representa avanço significativo na gestão sustentável desse recurso essencial.

A redução de 328,6 milhões de toneladas de CO₂ contribuiria decisivamente para que o Brasil cumpra seus compromissos no Acordo de Paris e se posicione como liderança climática global, especialmente após sediar a COP30 em Belém.

Impactos sociais e economia para o SUS

No campo social, espera-se a criação de 320 vagas afirmativas em posições de liderança e a prevenção de 1.080 internações hospitalares por ano, o que representaria economia de R$ 43 milhões ao Sistema Único de Saúde. Esses recursos poderiam ser estrategicamente direcionados a outras áreas prioritárias como educação, infraestrutura e segurança.

A prevenção de internações hospitalares reflete impactos positivos na saúde das populações rurais e de comunidades próximas a empreendimentos agropecuários. A redução do uso de defensivos agrícolas, melhor gestão de resíduos e práticas de manejo sustentável do solo contribuem diretamente para ambientes mais saudáveis.

Otavio Lopes, sócio líder de Agronegócios da EY, enfatizou que os números do estudo mostram que a agenda ESG no agronegócio se traduz em ganhos concretos para produtores, sociedade e governo. Segundo ele, ESG é motor de eficiência, inclusão e competitividade, e a adoção de iniciativas em conjunto vai além do setor, gerando retornos que beneficiam toda a economia brasileira.

O crescimento do ESG na agroindústria brasileira em 2024 é uma tendência importante. As empresas do setor estão se comprometendo cada vez mais com práticas sustentáveis e responsáveis, visando não apenas o lucro, mas também a preservação ambiental e o bem-estar social.

Essa mudança de mentalidade representa transição de postura reativa de compliance para estratégias que atacam riscos na origem e desbloqueiam valor comercial e financeiro, posicionando o agronegócio brasileiro como referência global em sustentabilidade.

Desafios estruturais persistentes

O agronegócio brasileiro vem incorporando práticas ESG em suas cadeias produtivas, mas ainda enfrenta desafios estruturais relevantes. Pressões por desmatamento zero e cadeias livres de conversão de vegetação nativa geram barreiras não tarifárias, regras técnicas, sanitárias e socioambientais que podem limitar o acesso a mercados premium internacionais.

No agronegócio brasileiro, embora a implementação de políticas ESG seja desafiadora devido a problemas como corrupção, desmatamento e condições de trabalho, as corporações enfrentam pressão dos consumidores e do mercado financeiro para adotar práticas alinhadas a esses princípios.

Além disso, lacunas na formalização de profissionais, condições de trabalho precárias e dificuldades de engajamento com comunidades vizinhas, somadas à predominância de estruturas familiares e à baixa maturidade em dados e compliance, dificultam a transparência, a rastreabilidade e a atratividade para financiadores e investidores.

Esses desafios elevam riscos operacionais e reputacionais e encarecem capital e seguros, tornando ainda mais estratégica a adoção de práticas ESG robustas e verificáveis.

Transição de compliance para criação de valor

Diante desse cenário, o setor migra de postura reativa de compliance para estratégias que atacam riscos na origem e desbloqueiam valor comercial e financeiro. Os esforços concentram-se em iniciativas alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, especialmente o ODS 13, "Ação Contra a Mudança Global do Clima", em consonância com a agenda climática discutida na COP30.

A agenda ESG tem se tornado cada vez mais central para o agronegócio, pressionando o setor a adotar práticas mais sustentáveis e socialmente responsáveis. Essa pressão vem tanto de consumidores quanto de investidores institucionais que direcionam recursos para empresas com práticas ESG sólidas.

Entre as principais frentes de ação estão desmatamento zero, rastreabilidade ponta a ponta e conservação, com monitoramento por satélite, auditorias, georreferenciamento e blockchain, além da seleção de fornecedores alinhados aos mesmos valores e recuperação de áreas degradadas.

A eficiência energética e o uso de fontes renováveis, como biomassa, biogás e energia solar, visam reduzir custos e emissões de gases de efeito estufa. Essas tecnologias já são economicamente viáveis e proporcionam retorno sobre investimento mensurável além dos benefícios ambientais.

Práticas de manejo de solo e sequestro de carbono, como plantio direto, rotação de culturas e sistemas integrados de lavoura-pecuária-floresta (ILPF), promovem fertilidade, biodiversidade e resiliência climática. O ILPF tem se consolidado como modelo exemplar de produção sustentável, integrando diferentes atividades produtivas de forma sinérgica.

Outras frentes incluem o uso eficiente de defensivos, insumos e biotecnologia, com manejo integrado de pragas, bioinsumos e aplicação localizada de defensivos para reduzir impactos ambientais e aumentar produtividade. A agricultura de precisão permite aplicação direcionada, reduzindo desperdícios e custos.

A gestão de resíduos e logística reversa promove circularidade e produção de biofertilizantes, transformando o que antes seria descarte em insumo produtivo. O uso eficiente da água, com irrigação de precisão, automação e conservação de nascentes, torna-se imperativo em cenário de crescente estresse hídrico.

Com a aproximação do agronegócio com a tecnologia e consolidação da agricultura 4.0, a maioria dessas medidas foi facilitada. A digitalização do setor permite coleta, análise e identificação de padrões em grandes volumes de dados, gerando insights valiosos para tomada de decisões e melhoria da eficiência operacional.

Iniciativas sociais e licença para operar

As iniciativas sociais e fortalecimento comunitário, por meio de programas de educação, saúde preventiva, capacitação técnica e inclusão produtiva, combatem o trabalho análogo à escravidão e ampliam a licença social para operar. Essa dimensão social do ESG é frequentemente negligenciada, mas essencial para sustentabilidade de longo prazo.

O engajamento com comunidades locais não é apenas questão ética, mas estratégica. Produtores que mantêm boas relações com comunidades vizinhas enfrentam menos conflitos, têm operações mais estáveis e constroem reputação que facilita expansões futuras.

Essas ações demonstram impactos concretos sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Desmatamento zero e rastreabilidade garantem proteção, restauração e uso sustentável de ecossistemas terrestres e florestas. Eficiência energética e fontes renováveis ampliam o acesso à energia confiável e moderna e promovem conscientização e capacidade para mitigação das mudanças climáticas.

Manejo de solo e sequestro de carbono reduzem emissões de gases de efeito estufa e restauram ecossistemas degradados, enquanto o uso eficiente de defensivos e biotecnologias promove padrões de consumo e produção sustentáveis e garante saúde e bem-estar.

Gestão de resíduos e logística reversa fortalecem a circularidade na cadeia produtiva, uso eficiente da água assegura disponibilidade e gestão sustentável do recurso, e as iniciativas sociais contribuem para redução da pobreza, promoção de educação inclusiva e diminuição das desigualdades.

Acesso a mercados premium e financiamento

Investidores institucionais e fundos de investimento estão direcionando seus recursos para empresas que adotam práticas ESG sólidas. As empresas que incorporam o ESG podem atrair investimentos mais facilmente e a preços competitivos.

Segundo estudos internacionais, espera-se que até 2025, mais da metade dos recursos alocados em fundos mútuos na Europa estarão em fundos que adotam os princípios ESG. Essa tendência global representa oportunidade significativa para o agronegócio brasileiro que liderar a transição sustentável.

Mercados premium, especialmente na Europa e América do Norte, estabelecem barreiras crescentes para produtos que não demonstrem rastreabilidade e sustentabilidade verificadas. Produtores brasileiros que anteciparem essas exigências garantirão acesso privilegiado a mercados mais rentáveis.

Lançamento estratégico na COP30

O lançamento do estudo Impact Edge durante a COP30 em Belém não foi casual. Com o Brasil posicionando-se como liderança climática global e o agronegócio frequentemente criticado por impactos ambientais, o setor busca demonstrar que pode ser parte fundamental da solução para a crise climática.

O timing reforça compromisso do agronegócio brasileiro com a agenda climática justamente quando o mundo observa as ações do país. A COP30 ofereceu plataforma ideal para apresentar dados concretos que comprovam viabilidade econômica da produção sustentável em larga escala.

O estudo da EY-Parthenon oferece base quantitativa robusta para argumentar que investimentos em ESG no agronegócio não representam trade-off entre economia e meio ambiente, mas sim convergência de interesses que beneficia produtores, trabalhadores, comunidades, meio ambiente, governo e economia nacional como um todo.