A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) removeu discretamente referências fundamentais sobre a contribuição humana às mudanças climáticas de seus portais públicos entre outubro e dezembro de 2025.
O movimento, identificado por cientistas que monitoram informações governamentais, representa uma escalada nas ações de reconfiguração de conteúdo ambiental iniciadas logo após o retorno da administração Trump ao poder em janeiro deste ano.
As modificações afetaram páginas informativas que serviam como referência amplamente utilizada por educadores, pesquisadores e autoridades municipais.
A mais significativa alteração ocorreu na seção intitulada "Causas das Mudanças Climáticas", onde a declaração anterior do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) — afirmando ser "inequívoco que a influência humana aqueceu a atmosfera, oceanos e terra" — foi completamente removida.
No lugar desta afirmação respaldada por consenso científico global, a página agora destaca exclusivamente fenômenos naturais como variações na atividade solar e eruções vulcânicas.
O impacto das mudanças ultrapassa a simples reescrita de alguns parágrafos. Pesquisadores monitorando as alterações identificaram que mais de 80 páginas relacionadas a informações climáticas desapareceram do ecossistema digital da agência.
Seções inteiras dedicadas aos indicadores de mudanças climáticas — incluindo dados sobre níveis do mar, derretimento de geleiras e ondas de calor extremas — foram suprimidas ou tornaram-se inacessíveis.
Uma subdivisão completa que apresentava mais de 100 mapas e gráficos interativos desapareceu dos servidores públicos.
Conforme documentado através do Arquivo da Internet (Wayback Machine), os dados começaram a ser removidos em algum momento posterior a 8 de outubro, consolidando-se em dezembro.
A alteração representou não apenas exclusões, mas a substituição deliberada de conteúdo correto por informação cientificamente imprecisa.
Agora, links que conduziam a informações sobre indicadores, riscos e impactos das alterações climáticas redirecionam para páginas danificadas ou que simplesmente inexistem.
Brigit Hirsch, porta-voz da EPA, respondeu aos questionamentos afirmando que a agência "não mais segue ordens do culto do clima" e que está "focada em proteger a saúde humana e o meio ambiente."
A declaração reposiciona as mudanças como alinhadas com prioridades de saúde pública em detrimento do que caracteriza como "agendas políticas esquerdistas".
A agência justificou as alterações argumentando que as versões anteriores das páginas permanecem disponibilizadas através de arquivos e continuam acessíveis pela Internet Archive.
Contudo, especialistas contestam esta justificativa, apontando que remover informações do site oficial diminui significativamente a acessibilidade para a população geral, educadores e formuladores de políticas que consultam plataformas governamentais como fonte primária de dados.
Rachel Cleetus, diretora sênior de políticas climáticas da União de Cientistas Preocupados, caracterizou as ações como um "ataque à ciência independente".
Segundo ela, a remoção de fatos verificáveis representa não apenas uma questão de disponibilidade de dados, mas um esforço deliberado de suprimir evidências que contradizem agendas políticas específicas.
Independentemente das ações governamentais americanas, o consenso científico sobre a origem humana das mudanças climáticas permanece praticamente universal.
Análises recentes indicam que 99,9% dos artigos científicos revisados por pares publicados entre 2012 e 2020 concordam que atividades humanas são a causa dominante do aquecimento global observado desde meados do século XX.
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, composto por 195 nações e representando o corpo científico mais abrangente sobre o assunto, declara inequivocamente: "As atividades humanas, principalmente através de emissões de gases com efeito estufa, inequivocamente causaram o aquecimento global."
Emissões originadas da queima de combustíveis fósseis — carvão, petróleo e gás natural — correspondem à causa primária identificada.
Modelos climáticos cada vez mais sofisticados, desenvolvidos ao longo de décadas para investigar o funcionamento do sistema climático terrestre, confirmam consistentemente o impacto das emissões humanas de dióxido de carbono nas alterações climáticas contemporâneas. Este resultado se mantém constante através de metodologias distintas, períodos de análise variados e grupos de pesquisadores independentes distribuídos globalmente.
As ações da agência norte-americana ecoam além das fronteiras dos Estados Unidos, criando incertezas nos mercados internacionais de créditos de carbono.
Plataformas como a Portal B4, que operacionalizam a transformação de ativos sustentáveis, dependem de marcos regulatórios claros e de confiança na integridade científica das avaliações ambientais.
O apagamento de informações governamentais alimenta narrativas de desinformação que prejudicam a confiança nos mercados de carbono voluntários e regulados.
Quando órgãos federais responsáveis pela proteção ambiental questionam ou omitem consensos científicos estabelecidos, investidores, empresas e governos enfrentam dificuldades para tomar decisões fundamentadas sobre alocação de recursos em iniciativas climáticas.