Radiant capta US$300M para produção em massa de microrreatores

Empresa de energia nuclear portátil acelera planos comerciais com novo aporte de capital em seis meses

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
9 Min

Radiant capta US$300M para produção em massa de microrreatores
Representação artística do Kaleidos, microrreator portátil de 1 MW da Radiant, integrado em contêiner de transporte para operações em zonas remotas e infraestruturas críticas. Foto: Divulgação

A empresa estadunidense Radiant, especializada no desenvolvimento de geradores nucleares de pequena escala e alta portabilidade, anunciou na terça-feira (16) o fechamento de uma rodada de financiamento superior a US$ 300 milhões.

Esse novo aporte, concretizado apenas seis meses após a conclusão da rodada Série C no valor de US$ 165 milhões, evidencia a aceleração dos investimentos no setor de microrreatores nucleares (SMR) em nível global, especialmente com o crescimento exponencial da demanda por fontes de energia limpa para operações de data centers alimentadas por inteligência artificial.

A captação foi liderada pelas firmas Draper Associates e Boost VC, com participações adicionais de fundos como Founders Fund, ARK Venture Fund e Chevron Technology Ventures, entre outros. O novo capital será direcionado para potencializar os esforços de comercialização da empresa, ao mesmo tempo em que a Radiant se prepara para iniciar a construção da sua primeira fábrica de produção em massa.

A denominada R-50, localizada em Oak Ridge, Tennessee, representa uma escolha estratégica: a cidade foi historicamente fundamental para o desenvolvimento da indústria nuclear norte-americana. O nome da unidade evoca o objetivo ambicioso de atingir a fabricação de 50 reatores por ano após o início das operações, atualmente projetado para 2028.

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A Trajetória da Radiant 

Fundada em 2020 por Doug Bernauer, a Radiant emergiu no cenário das energias limpas com uma proposta inovadora: construir geradores nucleares que pudessem ser transportados em contêineres padrão, sem necessidade de reabastecimento frequente durante períodos operacionais prolongados. Essa abordagem diferencia-se significativamente dos reatores convencionais de grande porte, que demandam décadas de planejamento, construção complexa e investimentos iniciais bilionários.

O primeiro produto da empresa, denominado Kaleidos, é um microrreator de 1 megawatt (MW) refrigerado a hélio e equipado com combustível TRISO (esferas de grafite e urânio revestidas de cerâmica e carbono), uma tecnologia concebida para oferecer resistência aprimorada contra possíveis falhas.

A capitalização de mercado da Radiant, conforme informações dos últimos ciclos de investimento, ultrapassa US$ 1,8 bilhão, refletindo a confiança do setor de venture capital na viabilidade comercial dos SMRs.

Esse cenário contrasta com os desafios enfrentados por outras abordagens tecnológicas no espaço nuclear: enquanto o mercado global de pequenos reatores modulares foi avaliado em aproximadamente US$ 5,81 bilhões em 2024, projeta-se crescimento até US$ 8,37 bilhões até 2032, expandindo a uma taxa composta anual de cerca de 5%.

Marcos regulatórios 

Um dos destaques da trajetória recente da Radiant foi sua seleção pelo Departamento de Energia dos EUA para conduzir testes de seu Kaleidos na instalação DOME (Demonstration of Microreactor Experiments) do Laboratório Nacional de Idaho.

Os testes estão agendados para começar no verão de 2026, posicionando a Radiant como responsável pelos primeiros testes de um design de reator completamente novo construído nos EUA em décadas. Esse reconhecimento não é trivial: representa a confiança regulatória em uma empresa que alcançou múltiplos marcos de segurança nuclear em período recorde.

A empresa também consolidou acordos comerciais significativos ao longo dos últimos meses. Dentre eles, destaca-se o contrato com Equinix, gigante global de infraestrutura digital, para fornecer vinte unidades do Kaleidos com depósitos iniciais já efetuados. Adicionalmente, a Radiant foi selecionada para o Programa Piloto de Reatores Nucleares do Presidente, permitindo à empresa participar de processos de aprovação regulatória simplificados desenvolvidos pelo Departamento de Energia.

No campo de abastecimento de combustível, a Radiant conquistou posição de destaque ao assinar o primeiro contrato com o Departamento de Energia para combustível HALEU (Uranium de Baixo Enriquecimento Elevado) entre empresas de reatores avançados. A empresa também celebrou acordo com Urenco, principal fornecedor comercial ocidental de serviços de enriquecimento de combustível, marcando a primeira contratação vinculante no mercado privado para esse tipo de serviço especializado.

Tecnologia

O design do Kaleidos incorpora elementos de engenharia provenientes de indústrias desafiadoras como a aeroespacial, onde a confiabilidade em ambientes remotos é crítica. O sistema completo de geração de potência—que inclui o reator nuclear, o sistema de resfriamento, o gerador elétrico e o escudo de proteção—é montado em uma única unidade de contêiner de transporte padrão. Essa configuração viabiliza deployment rápido em locais diversos sem infraestrutura nuclear prévia.

O Kaleidos opera com ciclo de vida prolongado: uma única carga de combustível oferece autonomia suficiente para cinco anos de operação contínua. Essa característica torna o sistema especialmente atrativo para aplicações em zonas remotas, operações de resposta a desastres, instalações militares estratégicas e, crescentemente, para data centers que necessitam de fornecimento de energia confiável vinte e quatro horas por dia sem interrupções.

Força de trabalho e liderança estratégica

A Radiant reforçou significativamente seu time de liderança durante o período de seis meses que separou as duas rodadas de financiamento. A empresa contratou Dr. Rita Baranwal, ex-Subsecretária de Energia Nuclear do Departamento de Energia dos EUA, como Chief Nuclear Officer, e Dr. Mike Starrett como Chief Revenue Officer. Essas adições de talento sênior, junto com aproximadamente uma dúzia de contratações em níveis de Vice-Presidente e Diretor nas áreas de engenharia, manufatura e cadeia de suprimentos, consolidam uma estrutura organizacional robusta para escalabilidade.

A empresa mantém equipes compostas por profissionais com experiência em laboratórios nacionais, engenheiros anteriormente vinculados à SpaceX, especialistas em reatores navais nucleares (um campo com décadas de histórico operacional bem-sucedido) e profissionais de gestão de suprimentos de classe mundial. Essa composição reflete a estratégia de combinar expertise nuclear consolidada com metodologias de desenvolvimento ágil e voltadas para produção em massa.

Contexto competitivo 

O setor de SMRs experimentou aceleração notável de investimento corporativo ao longo de 2024 e 2025. Gigantes tecnológicas como Google, Amazon e Microsoft assinaram contratos de longo prazo com diversos desenvolvedores de microrreatores, buscando fontes de energia de emissões próximas a zero para alimentar suas crescentes demandas computacionais relacionadas a inteligência artificial.

Google formalizou acordo com Kairos Power para suprimento a partir de 2030. Amazon investiu individualmente US$ 500 milhões em X-energy, outra desenvolvedora de SMRs. Esses acordos corporativos oferecem estabilidade financeira aos desenvolvedores, reduzindo risco de projetos e sinalizando mercado viável em expansão.

Porém, a dinâmica competitiva também revela desafios. O mercado compreende mais de oitenta designs de reatores modulares em desenvolvimento em dezenove países diferentes, segundo dados da Agência Internacional de Energia Atômica. Apenas China e Rusia operacionalizaram com êxito SMRs comerciais até 2023. Nos Estados Unidos, até essa data, nenhum microrreator completamente modular havia iniciado operação comercial, embora múltiplos projetos estejam em fases avançadas de desenvolvimento e aprovação regulatória.

A Radiant mantém cronograma agressivo para implementação comercial. Conforme comunicado, a empresa prevê iniciar as primeiras instalações para clientes em 2028, coincidindo com o início de produção em sua fábrica R-50 em Tennessee. Essa janela de tempo é consistente com os horizontes citados por competidores diretos como NuScale Power e GE-Hitachi, que desenvolvem seus próprios SMRs para mercados similares.

O objetivo intermediário é a realização bem-sucedida dos testes no DOME de Idaho durante o verão de 2026. Caso atingido conforme planejado, esse marco representaria validação técnica essencial para subsequentes aprovações regulatórias estaduais e federais, bem como confiança amplificada entre clientes corporativos e institucionais considerando contratações de longo prazo.

Implicações para transição energética global

O investimento contínuo em empresas como a Radiant reflete reconhecimento crescente de que a descarbonização dos sistemas energéticos globais requer portfólio diversificado de tecnologias. Enquanto fontes renováveis intermitentes como solar e eólica fornecem custo-efetividade crescente, sua variabilidade temporal necessita de complementação com fontes de fornecimento constante. Microrreatores nucleares posicionam-se como componente crucial dessa estratégia, oferecendo flexibilidade de localização não viável com reatores convencionais de escala gigawatt.

No contexto brasileiro, investimentos similares em SMRs estão em fase inicial: o governo brasileiro anunciou em junho de 2025 investimento de R$ 50 milhões no desenvolvimento de microrreatores nacionais, com possível aplicação em regiões da Amazônia para substituição de geradores diesel. A Nuclep, estatal brasileira, e a russa Rosatom celebraram acordo de confidencialidade em 2024 visando cooperação em geração nuclear offshore via SMRs.

Doug Bernauer, CEO e fundador da Radiant, declarou sobre o significado da nova capitalização: "A energia nuclear em microescala, produzida em massa pela primeira vez na história, pode transformar a forma como o público pensa sobre energia nuclear." Essa afirmação sintetiza a aposta central da empresa: que soluções de núcleo compacto, multiplicadas através de manufatura otimizada, constituem caminho viável para democratização de acesso a energia nuclear zero-carbono.

Tim Draper, do fundo Draper Associates que liderou o investimento, complementou: "A energia nuclear portátil fornecerá a maior parte do nosso incremento de energia nos próximos anos e a Radiant está executando com propósito, não apenas para ligar seu primeiro reator, mas para construí-los em escala em meses, não em anos."


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