Escopos de Emissões: guia para inventário corporativo

Entenda como as categorias de medição de gases de efeito estufa ajudam empresas brasileiras a cumprir o novo mercado regulado de carbono

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
7 Min

Escopos de Emissões: guia para inventário corporativo
Entenda os escopos de emissões 1, 2 e 3 do GHG Protocol e como empresas brasileiras se preparam para o mercado regulado de carbono a partir de 2026

A classificação das emissões de gases de efeito estufa em três categorias distintas tornou-se essencial para empresas que buscam transparência climática e conformidade com a legislação brasileira. Com a entrada em vigor da Lei 15.042/2024, que estabelece o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), a compreensão dos escopos 1, 2 e 3 deixou de ser opcional para se tornar obrigatória em diversos setores da economia nacional.

O Programa Brasileiro GHG Protocol, desenvolvido pela Fundação Getulio Vargas em parceria com o World Resources Institute, registra atualmente mais de 4.000 inventários corporativos publicados. Segundo dados divulgados em novembro de 2024, o programa capacitou mais de 2.270 profissionais brasileiros na metodologia de contabilização de emissões, evidenciando o crescimento da cultura corporativa de inventário no país.

A metodologia GHG Protocol estabelece uma estrutura padronizada que permite às organizações identificar com precisão de onde vêm suas emissões, quanto controlam diretamente e onde precisam atuar na cadeia de valor para reduções efetivas. Em 2024, o Brasil registrou queda de 16,7% nas emissões brutas de gases de efeito estufa, alcançando 2,145 bilhões de toneladas de CO2 equivalente, segundo o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) do Observatório do Clima.

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Escopo 1: Emissões Sob Controle Direto

O primeiro escopo compreende todas as emissões diretas provenientes de fontes que a empresa possui ou controla operacionalmente. Trata-se da categoria mais visível e, teoricamente, a mais fácil de gerenciar, pois resulta de atividades dentro dos limites organizacionais da companhia.

Entre as fontes típicas estão a queima de combustíveis em caldeiras industriais, fornos e geradores próprios, além das emissões de processos produtivos específicos e da frota de veículos corporativos. No contexto brasileiro, este escopo ganhou relevância adicional com a implementação do SBCE, que estabelecerá tetos de emissão para setores específicos a partir de 2026.

As estratégias de redução para o Escopo 1 geralmente envolvem investimentos em eficiência energética, eletrificação de equipamentos, substituição de combustíveis fósseis por alternativas renováveis e otimização de processos operacionais. Empresas do setor industrial de São Paulo, por exemplo, respondem por 14,9% das emissões estaduais de energia, conforme dados do IEMA (Instituto de Energia e Meio Ambiente).

Escopo 2: Energia Comprada e Consumida

As emissões de Escopo 2 abrangem todas as liberações indiretas associadas à eletricidade, vapor, aquecimento ou refrigeração que a organização adquire de terceiros. Embora fisicamente ocorram nas usinas de geração, são atribuídas à empresa consumidora porque resultam de sua demanda energética.

Este escopo reflete diretamente o quão intensiva em carbono é a matriz energética local. No Brasil, o fator de emissão por megawatt-hora é significativamente menor que em países com matrizes predominantemente fósseis, graças à participação de 49% de fontes renováveis na matriz energética nacional em 2023, segundo o Balanço Energético Nacional.

Escritórios, fábricas, armazéns e centros de dados são os principais consumidores contemplados nesta categoria. A redução das emissões de Escopo 2 passa por melhorias em eficiência energética, aquisição de eletricidade renovável através de contratos de longo prazo, e em alguns casos, pelo uso de certificados de energia renovável verificados.

Escopo 3: Desafio da Cadeia de Valor

O Escopo 3 representa a categoria mais ampla e complexa, englobando todas as demais emissões indiretas ao longo da cadeia de valor da empresa. Para muitas organizações, especialmente no setor de serviços e bens de consumo, este escopo pode representar mais de 70% da pegada de carbono total.

As 15 categorias do Escopo 3 incluem desde a fabricação de insumos por fornecedores até o transporte e logística, viagens corporativas, deslocamento de funcionários, uso de produtos pelos clientes e tratamento de resíduos no fim da vida útil. A GS Inima Brasil, empresa de saneamento que conquistou o Selo Ouro do GHG Protocol em 2024, registrou que seu Escopo 3 representou 34% das emissões totais, totalizando 18.750 toneladas de CO2 equivalente.

Embora estejam fora do controle operacional direto, as emissões de Escopo 3 são crescentemente reconhecidas como essenciais para compreender o impacto climático real de uma organização. A gestão efetiva desta categoria exige engajamento sistemático com fornecedores, redesenho de produtos, mudanças nas estratégias de aquisição e colaboração profunda em toda a cadeia de valor.

Por Que a Classificação Importa Para o Mercado Brasileiro

A distinção entre os três escopos vai além de questões técnicas e influencia diretamente como empresas brasileiras definem metas de descarbonização, priorizam investimentos e respondem às crescentes exigências regulatórias. Com o SBCE entrando em operação, organizações de setores regulados terão que demonstrar não apenas suas emissões diretas, mas também sua estratégia de gestão climática abrangente.

O padrão IFRS S2, adotado em estruturas regulatórias no Brasil, exige que empresas divulguem suas emissões dos três escopos de acordo com o GHG Protocol. Estima-se que esta norma alcance entre 100 mil e 130 mil empresas globalmente, com impacto direto no mercado brasileiro.

Concentrar esforços apenas nas emissões diretas pode subestimar significativamente o risco climático e o impacto real de uma organização. Um estudo da InfluenceMap revelou que apenas 57 grandes empresas globais de combustíveis fósseis e cimento respondem por 80% das emissões mundiais desde 2016, demonstrando como a concentração de emissões na cadeia de valor pode ser surpreendente.

Da Medição à Ação Climática

O Brasil, como quinto maior emissor de gases de efeito estufa do planeta, tem potencial para movimentar até US$ 120 bilhões no mercado de carbono até 2030. A compreensão dos escopos de emissão representa apenas o ponto de partida desta jornada de descarbonização.

O verdadeiro valor da estrutura do GHG Protocol reside em sua capacidade de orientar ações concretas, alinhar equipes internas e engajar fornecedores e parceiros em reduções significativas. Cerca de 1.800 empresas procuraram plataformas especializadas entre novembro de 2023 e janeiro de 2024 apenas para solicitar inventários de pegada de carbono, segundo dados do mercado.

A Lei 15.042/2024 estabelece que seguradoras e entidades de previdência devem investir ao menos 1% de suas reservas técnicas em ativos ambientais ou fundos correlatos. Esta exigência demonstra como o mercado regulado de carbono está se consolidando rapidamente no país, com o governo criando inclusive a Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono em outubro de 2025.

Desafios e Oportunidades Para Empresas Brasileiras

À medida que regulamentações climáticas e o escrutínio de investidores se intensificam, organizações que compreendem e gerenciam claramente suas emissões nos três escopos ganham vantagem competitiva. A transparência nos dados de emissões, garantida por tecnologias como blockchain em plataformas de ativos sustentáveis, fortalece a confiança de investidores e consumidores.

O setor de transportes brasileiro bateu recorde histórico em 2023, com 44% das emissões do setor energético, totalizando 223,8 milhões de toneladas de CO2 equivalente. Este dado evidencia onde estão as maiores oportunidades de redução para empresas que dependem de logística e deslocamento.

Organizações que implementam inventários completos, incluindo verificação por terceiros acreditados pelo Inmetro, podem obter o Selo Ouro do Programa Brasileiro GHG Protocol. Esta certificação representa não apenas conformidade técnica, mas compromisso verificável com a gestão climática responsável.

A compreensão profunda dos escopos de emissão capacita empresas brasileiras a construir estratégias de descarbonização mais eficazes, reduzir custos operacionais através de eficiência energética e posicionar-se adequadamente no emergente mercado regulado de carbono nacional. Com a COP30 programada para Belém em 2025, o Brasil tem oportunidade única de demonstrar liderança climática através da transparência corporativa e ação mensurável.


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