A Equitable Earth, uma das principais fornecedoras de certificação digital para o mercado voluntário de carbono, anunciou nesta semana o fechamento de uma nova rodada de investimentos no valor de €12,6 milhões. O aporte eleva o financiamento total da empresa para mais de €25 milhões e foi liderado por um family office norte-americano, com participação de investidores já existentes como AENU, noa e Localglobe.
O capital será destinado ao fortalecimento da infraestrutura tecnológica da plataforma, expansão das capacidades de certificação e desenvolvimento de novas metodologias para diferentes ecossistemas. A empresa se consolidou como referência em certificação de alta integridade ao ter seu programa reconhecido como elegível pelo Conselho de Integridade para os Princípios Essenciais de Carbono do Mercado Voluntário de Carbono (ICVCM), atualmente o padrão mais rigoroso do setor.
A movimentação ocorre em momento estratégico para o mercado global de carbono, que enfrenta desafios relacionados à confiança na qualidade dos créditos e busca soluções que combinem velocidade operacional, transparência e impacto real verificável.
O mercado voluntário de carbono atravessa uma fase de transformação profunda. Pesquisas recentes apontam que 84% dos créditos disponíveis são considerados de alto risco por especialistas, com casos documentados de projetos que não geram o impacto climático prometido. Essa crise de confiança levou muitos compradores corporativos a reavaliarem suas estratégias de compensação.
A Equitable Earth desenvolveu um modelo de negócio que busca preencher essa lacuna através da padronização da contabilidade e da implementação de ferramentas digitais para medição, relatórios e verificação. Sua plataforma integrada internaliza a contabilidade de carbono e a modelagem de riscos, reduzindo incertezas para desenvolvedores de projetos e evitando processos fragmentados de terceiros que historicamente atrasaram cronogramas.
A Sylvera, empresa independente de classificação de carbono, citou a metodologia de Florestamento, Reflorestamento e Revegetação da Equitable Earth como uma das mais rigorosas do mercado. Analistas esperam avaliações semelhantes para sua metodologia REDD+, que deve ser divulgada ainda em 2025 e é aguardada com expectativa pelo setor.
Diferentemente de modelos tradicionais que tratavam benefícios comunitários e biodiversidade como opcionais ou secundários, a Equitable Earth exige que projetos apresentem resultados mensuráveis em três frentes simultâneas: clima, natureza e meios de subsistência. Essa abordagem tripla reflete mudanças nas expectativas de compradores, agências de classificação e organizações não-governamentais.
A empresa incorpora requisitos estruturados para participação e partilha equitativa de benefícios com povos indígenas e comunidades locais, uma área que tem atraído crescente atenção no debate sobre mercados de carbono. Projetos certificados precisam demonstrar não apenas a captura ou redução de carbono, mas também impactos positivos tangíveis para as populações que vivem nas áreas preservadas.
"A Equitable Earth continua focada em capacitar organizações a proteger e restaurar o mundo natural, certificando projetos de forma confiável e escalável. Esta nova rodada de financiamento nos permite continuar crescendo e nos consolidar como o padrão global para projetos baseados na natureza", afirmou Thibault Sorret, CEO da empresa.
Um dos diferenciais competitivos da Equitable Earth está na velocidade do processo de certificação. A plataforma totalmente digital guia projetos desde a viabilidade inicial até a validação final em 3 a 12 meses, período significativamente menor que os processos tradicionais que podem levar anos.
A empresa utiliza sensoriamento remoto e processos automatizados para estimar remoções e reduções de emissões com custos de monitoramento mais baixos. Essa digitalização não apenas acelera a certificação, mas também aumenta a transparência ao permitir que todas as partes interessadas acompanhem o desenvolvimento dos projetos em tempo real.
Os recursos da nova rodada de investimentos serão direcionados para expansão da arquitetura de dados, das capacidades de modelagem e das ferramentas centradas no usuário, visando acelerar ainda mais a certificação e aumentar a transparência. A empresa planeja recrutar profissionais para equipes de engenharia, pesquisa e desenvolvimento, comercial e certificação, mantendo a produtividade à medida que o volume de projetos aumenta.
O reconhecimento pela ICVCM coloca a Equitable Earth em posição privilegiada no mercado. O Integrity Council for the Voluntary Carbon Market estabeleceu em 2023 os Core Carbon Principles (CCP), dez princípios fundamentais baseados em ciência para identificar créditos de carbono de alta qualidade que criam impacto climático real e verificável.
Créditos que atendem a esses princípios recebem um selo CCP nos registros como Verra e Gold Standard, sinalizando que passaram por testes rigorosos de adicionalidade, permanência, quantificação e transparência. Até o final de 2025, a ICVCM havia aprovado 7 programas principais de créditos de carbono e 36 metodologias, elevando os padrões para governança, design de projetos e implementação.
Dados de mercado confirmam a valorização de créditos certificados. A S&P Global registrou que categorias aprovadas pelo CCP, como gás de aterro sanitário, viram preços subirem cerca de 35% no segundo semestre de 2024, com volumes aumentando 149% ano a ano conforme compradores buscam qualidade. O próprio relatório de impacto da ICVCM de 2025 cita um prêmio médio de preço de 25% para créditos com selo CCP.
Compradores corporativos que buscam cumprir as Metas Baseadas na Ciência (Science Based Targets) ou compromissos de emissões líquidas zero tornaram-se mais seletivos. O aumento dos riscos reputacionais e regulatórios associados a créditos de baixa qualidade forçou empresas a priorizarem certificações robustas.
Na Europa, a Diretiva de Capacitação do Consumidor da União Europeia proíbe alegações genéricas de "neutralidade climática" a partir de setembro de 2026, obrigando empresas a fundamentarem suas declarações ambientais com evidências verificáveis. Na França, 17 empresas lançaram a Carta de Crédito de Carbono comprometendo-se a usar apenas créditos alinhados aos Core Carbon Principles.
Essa pressão regulatória e de mercado cria demanda crescente por certificadoras que ofereçam metodologias transparentes e auditáveis. Empresas do índice DAX40 alemão, por exemplo, têm sido criticadas por alocações em projetos de baixo impacto, com pesquisas indicando que 68% delas compraram créditos questionáveis.
O mercado global voluntário de crédito de carbono movimenta atualmente cerca de US$ 2,5 bilhões anuais, segundo dados da Verra, maior certificadora global do setor. Com 500 milhões de créditos transacionados globalmente, o mercado compensa apenas 1% das emissões mundiais, evidenciando enorme potencial de expansão.
Projeções apontam que o mercado deve crescer para US$ 16,38 bilhões até 2035, com taxa de crescimento anual composta de 20,59%. Mais de 62% dos compradores já priorizam créditos de remoção de carbono, enquanto 48% transferem investimentos para soluções baseadas na natureza e 41% buscam melhor alinhamento com critérios ESG (ambientais, sociais e de governança).
Na Ásia-Sudeste, onde pelo menos 22 projetos já adotaram metodologias aprovadas pelos Core Carbon Principles, o mercado regional pode atingir US$ 3 trilhões até 2050, criando 13,7 milhões de empregos e reduzindo 1,1 bilhão de toneladas métricas de emissões de carbono anualmente. Em novembro de 2025, o Ministério das Florestas da Indonésia assinou memorando com o Integrity Council para fortalecer o desenvolvimento de seu mercado de alta integridade.
Para economias emergentes, onde pressões sobre biodiversidade e desmatamento se chocam com espaço fiscal limitado, créditos de carbono padronizados e de alta integridade podem desbloquear financiamento climático rapidamente, canalizar benefícios para comunidades e proteger ecossistemas com alto valor de carbono e biodiversidade.
No Brasil, o mercado de carbono apresenta potencial estimado de movimentar US$ 120 bilhões até 2030, segundo projeções do setor. A recente aprovação da Lei 15.042/2024, que institui o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE), representa avanço regulatório importante que deve atrair investimentos estrangeiros e fortalecer o mercado voluntário.
Cerca de 75% dos créditos de carbono globais são originados por projetos de fontes renováveis de energia e REDD+, com destaque para América do Sul. Brasil, Peru e Colômbia lideram na geração de créditos florestais, aproveitando suas vastas áreas preservadas e legislação ambiental consolidada.
Especialistas advertem que soluções climáticas baseadas na natureza não atingirão seu potencial global sem nova infraestrutura de certificação e desempenho social e ecológico mensurável. Embora reflorestamento, prevenção do desmatamento, restauração de turfeiras e conservação da paisagem estejam entre as intervenções climáticas mais rápidas e economicamente eficazes disponíveis, os investimentos ainda ficam aquém das prioridades científicas e políticas.
A restrição não tem sido apenas financeira, mas também relacionada à confiança na qualidade do crédito, na permanência das reduções de emissões, na adicionalidade real e nos benefícios genuínos para comunidades. O modelo da Equitable Earth representa tentativa de superar essas barreiras através da combinação de rigor científico, governança transparente e ferramentas digitais de ponta.
Arjun Jairaj, da noa, um dos investidores da rodada, comentou: "Os mercados de carbono precisam de projetos escaláveis e confiáveis que gerem resultados climáticos, ecológicos e sociais reais. Este financiamento ajuda a Equitable Earth a atender a essa demanda, consolidando sua posição como líder de mercado em certificação de alta integridade e baseada na natureza".
O contexto mais amplo envolve processos das conferências climáticas da ONU (COPs) que continuam debatendo regras de mercado sob o Artigo 6 do Acordo de Paris. Este artigo estabelece mecanismos de cooperação internacional para transferência de resultados de mitigação entre países, permitindo que nações usem créditos internacionais para cumprir suas contribuições nacionalmente determinadas.
Enquanto autoridades nacionais avaliam diretrizes para mercados voluntários dentro das estratégias climáticas nacionais, espera-se que à medida que as normas de qualidade se tornem mais rigorosas, soluções climáticas naturais capturem parcela maior do financiamento, desde que os sistemas de certificação e monitoramento acompanhem o ritmo.
A COP30, que ocorrerá em Belém em novembro de 2025, deve trazer avanços importantes nas negociações sobre mercados de carbono. O Brasil propõe iniciativas como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), que busca mobilizar US$ 125 bilhões para remunerar países tropicais pela manutenção de florestas, e a Coalizão Aberta para Integração dos Mercados de Carbono, que tenta definir padrões internacionais.
A digitalização e a transformação de ativos ambientais estão redesenhando o mercado de carbono. Plataformas que utilizam tecnologia blockchain, como a B4, primeira bolsa de ação climática do Brasil, oferecem rastreabilidade completa dos ativos sustentáveis, da origem até o comprador final, impedindo fraudes e duplicidade de certificados.
Os Certificados de Ação Climática em formato NFT representam uma evolução na forma de comprovar compensações de carbono. Estes certificados digitais únicos impossibilitam fraudes e facilitam auditorias, aumentando a confiança de investidores e reguladores. A transformação digital também democratiza o acesso ao mercado de carbono, permitindo que pequenos produtores rurais e comunidades tradicionais participem através de plataformas que fracionam os créditos.
A Equitable Earth pretende certificar milhões de hectares adicionais e ampliar suas metodologias para abranger mais ecossistemas. Se o modelo for escalável conforme planejado, poderá influenciar a forma como desenvolvedores estruturam projetos, como empresas obtêm créditos e como órgãos reguladores pensam sobre interoperabilidade entre regimes voluntários e de conformidade.
O mercado ainda está em transição, mas a direção é clara: qualidade está se tornando fator determinante de investimento, verificação está se tornando digital e resultados para comunidades estão se tornando essenciais para alegações de integridade. É improvável que créditos de carbono de origem natural atendam à demanda global sem nova infraestrutura de certificação robusta.
O financiamento mais recente da Equitable Earth reflete a convicção dos investidores de que essas capacidades podem ser desenvolvidas e escaladas. Os próximos anos testarão a rapidez com que a oferta pode ser ampliada, como compradores reagem ao endurecimento dos padrões e como estruturas de governança evoluem além das fronteiras nacionais.
As respostas a essas questões determinarão se soluções baseadas na natureza alcançarão seu potencial climático global. Com certificação digital rigorosa, metodologias científicas robustas e compromisso com benefícios comunitários verificáveis, empresas como a Equitable Earth estão construindo a infraestrutura necessária para que o mercado voluntário de carbono cumpra seu papel na transição para uma economia de baixo carbono.