Oxfam expõe desigualdade climática e demonstra urgência das compensações
Concentração extrema de emissões está entre os mais ricos; B4 reforça a necessidade de regras para dar escala e credibilidade ao mercado de carbono
Parcela do 0,1% mais rico esgotou sua cota em apenas 3 dias. O marco foi nomeado como “Dia dos Ricos Poluidores” e destaca a responsabilidade desproporcional na crise climática / Crédito: Freepik
Relatório da Oxfam voltou a escancarar a desigualdade no centro da crise climática global: nos primeiros 10 dias do ano o 1% mais rico da população mundial consumiu, sozinho, toda a sua “cota justa” de emissões de carbono prevista para 2026, caso o planeta queira manter o aquecimento dentro do limite de 1,5°C estabelecido pelo Acordo de Paris.
A constatação reacende o debate sobre responsabilidade climática, justiça social e, sobretudo, sobre a necessidade de mecanismos regulatórios eficazes para controlar, precificar e reduzir emissões de gases do efeito estufa — tema central para empresas que atuam no desenvolvimento do mercado de carbono.
Para Odair Rodrigues, CEO da B4, primeira Bolsa de Ação Climática do Brasil, o estudo da Oxfam comprova um problema estrutural: as emissões seguem altamente concentradas, enquanto os instrumentos de controle e compensação ainda avançam de forma lenta e desigual entre países e setores econômicos.
“O relatório deixa claro que a crise climática não é resultado do comportamento médio da população, mas de um padrão de consumo e emissão. Sem um mercado de carbono regulado, transparente e confiável, continuaremos tratando o problema como se todos fossem igualmente responsáveis, enquanto os dados mostram o contrário”, avalia o profissional.
Estima-se que as emissões geradas pelo 1% mais rico em apenas um ano causarão 1,3 milhão de mortes relacionadas ao calor até o final do século. O consumo excessivo de carbono está causando danos econômicos massivos, principalmente em países de baixa e média-baixa renda, que podem somar US$ 44 trilhões até 2050.
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Rodrigues acredita que esse cenário reforça o papel do mercado de carbono regulado como um instrumento essencial para compensar custos ambientais hoje ignorados, corrigir distorções e direcionar investimentos para atividades de baixo carbono.
Diferente de iniciativas voluntárias isoladas, um mercado regulado estabelece regras claras, critérios de mensuração, verificação independente e limites obrigatórios de emissões, criando incentivos econômicos reais para a descarbonização.
Segurança jurídica e credibilidade são chave“Este é o ano da conformidade. Já temos ferramentas para calcular e conhecer nossas emissões, mas sem regulação, o carbono segue sendo tratado como uma externalidade gratuita. Com regras claras, ele passa a ter preço, responsabilidade e consequência”, defende o profissional.
Para a empresa, um dos principais entraves atuais é a fragmentação regulatória, tanto no Brasil quanto no cenário internacional. A ausência de padrões consolidados abre espaço para insegurança jurídica, greenwashing e perda de credibilidade — problemas que acabam afastando investidores e enfraquecendo o impacto ambiental positivo do mercado.
“Avanços regulatórios são fundamentais para garantir integridade ambiental, rastreabilidade dos créditos e alinhamento com metas climáticas globais, além de proteger o próprio mercado contra práticas oportunistas”, reflete o CEO da B4.
De acordo com dados da Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono, o setor pode elevar o crescimento adicional da economia em quase 6% até 2040 e 8,5% até 2050. Segundo estimativas do Banco Mundial, as emissões de gás carbônico dos setores regulados poderiam cair 21% até 2040 e 27% até 2050.
O preço da tonelada de carbono pode chegar a US$ 30 por tonelada, avançando para US$ 60 numa segunda fase. Em novembro, a secretária Cristina Reis afirmou que o governo pretende publicar todas as normas infralegais necessárias para a adoção do mercado regulado de carbono no País até dezembro de 2026.
O relatório da Oxfam também chama a atenção para o fato de que os impactos mais severos da crise climática recaem sobre populações que menos contribuíram para o problema. O dado reforça que a regulação do mercado de carbono não é apenas uma agenda ambiental, mas também econômica e social, já que pode direcionar recursos para projetos de mitigação, adaptação climática e desenvolvimento sustentável, especialmente em países do sul global, transformando a transição climática em oportunidade econômica e não apenas em custo.
“Discurso não basta. Sem marcos regulatórios robustos, fiscalização efetiva e integração entre políticas públicas e instrumentos de mercado, a desigualdade de emissões tende a se aprofundar e a janela para limitar os danos climáticos vai se fechando”, conclui Rodrigues.
A Bolsa anunciou em dezembro o início da divulgação diária de boletins sobre a flutuação de preços dos ativos sustentáveis listados em seu ambiente de negociação. A proposta é facilitar o acesso à evolução dos ativos considerando tanto as leis de oferta e demanda quanto as variações do dólar no dia. Atualmente, a B4 monitora em tempo real os índices do Programa Brasileiro GHG Protocol, ferramenta criada em 2008 para estimar as emissões de gases do efeito estufa (GEE). As informações estão disponíveis no relógio da Bolsa de Ação Climática.