Sustentabilidade transforma trabalho em metade das empresas

Estudo global do BCG revela que até 50% dos cargos corporativos precisarão desenvolver competências relacionadas ao clima até 2030

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
9 Min

Profissionais de diversas áreas estão incorporando práticas de sustentabilidade em suas rotinas, transformando o mercado de trabalho global.

Uma transformação silenciosa está remodelando o mercado de trabalho global. A sustentabilidade, antes restrita a departamentos específicos, agora permeia quase todas as áreas das organizações.

Um levantamento recente do Boston Consulting Group (BCG) analisou mais de 1 milhão de vagas de emprego e chegou a uma conclusão surpreendente: entre 25% e 50% das posições profissionais em todos os setores econômicos precisarão evoluir para atender às metas de ação climática corporativas.

O estudo, intitulado "The Climate Transition Is Redefining Work. Do You Have the Right Talent Strategy?", investigou empresas líderes em sustentabilidade nos setores de energia, bens industriais, biofarmacêutica, instituições financeiras e construção. A pesquisa utilizou ferramentas de inteligência artificial para identificar funções que envolvem práticas sustentáveis, mesmo quando o termo não aparece explicitamente nas descrições das vagas.

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Os números revelam uma realidade que muitas empresas ainda não compreenderam completamente. Embora apenas 1% das descrições de vagas mencione diretamente a palavra "sustentabilidade", as responsabilidades relacionadas à redução de emissões, conformidade ambiental, uso eficiente de recursos e resiliência climática aparecem em pelo menos um quarto das posições analisadas.

Em alguns setores, essa proporção é ainda maior: na biofarmacêutica e em bens industriais, cerca de 40% dos cargos estão vinculados a objetivos de sustentabilidade. Já na construção civil e energia, essa porcentagem alcança entre 40% e 50%.

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A invisibilidade do trabalho climático

A pesquisa expõe um descompasso crítico entre a realidade das operações empresariais e a percepção sobre quem realmente executa o trabalho de sustentabilidade.

Especialistas defende que focar apenas na contratação de especialistas em sustentabilidade, que representam apenas 5% de todos os cargos relacionados ao tema, cria um "ponto cego" perigoso nas organizações.

As organizações que ignoram a necessidade de capacitar profissionais de áreas como compras, tecnologia, operações e finanças para lidar com questões climáticas terão dificuldades para atingir seus objetivos de forma eficaz e em larga escala.

O levantamento demonstra que a maior parte do trabalho relacionado a ação climática acontece em funções já existentes, não em novos departamentos. Gerentes de operações estão gerenciando a intensidade energética de processos produtivos. Equipes de compras redesenham modelos de incentivo para fornecedores com base em critérios ambientais. Departamentos financeiros recalibram previsões considerando riscos físicos provocados pelas mudanças climáticas.

O Brasil na vanguarda dos empregos verdes

Enquanto o estudo do BCG mapeia as transformações globais, o Brasil se posiciona como protagonista na criação de empregos verdes. Dados recentes do UNICEF apontam que o país já conta com 6,8 milhões de posições relacionadas à sustentabilidade, representando aproximadamente 9% de todos os vínculos empregatícios formais registrados.

Desses, 2 milhões de vagas são ocupadas por jovens entre 14 e 29 anos, equivalendo a 30% do total de trabalhadores nesse setor. A expectativa é que o Brasil crie mais 7 milhões de empregos verdes até 2030, segundo projeções da Agenda Pública em parceria com a Fundação Grupo Volkswagen.

O setor de energia renovável lidera essa expansão. Apenas a energia solar já gerou mais de 1,6 milhão de empregos desde sua implementação no país, com aproximadamente 500 mil novas posições criadas entre janeiro de 2024 e janeiro de 2025. As projeções indicam que até 2030, 3,5 milhões de novos postos de trabalho surgirão especificamente no segmento fotovoltaico.

A mobilidade elétrica também apresenta crescimento expressivo. Com um aumento de 89% nas vendas de veículos elétricos em 2024, o setor demanda engenheiros, técnicos e especialistas em infraestrutura de recarga. Outras áreas em expansão incluem gestão de resíduos, eficiência energética, agricultura sustentável e construção civil verde.

Quatro estratégias para empresas se adaptarem

O estudo do BCG propõe um conjunto de ações estratégicas para que organizações enfrentem essa transformação do mercado de trabalho:

A primeira estratégia envolve estabelecer grupos de funções prioritárias. A análise mostra que entre 50% e 88% das demandas de sustentabilidade concentram-se em um conjunto restrito de áreas profissionais. Operações e logística lideram como foco comum em todos os setores.

Na construção, quase 70% das funções estão vinculadas à sustentabilidade. No setor biofarmacêutico, cerca de 20% dessas posições concentram-se em pesquisa e desenvolvimento, relacionadas ao design, formulação e embalagem de produtos. Em instituições financeiras, as áreas de risco e tecnologia dominam, à medida que equipes adaptam estratégias de investimento e desenvolvem estruturas para refletir a exposição ambiental.

A segunda recomendação é priorizar especialistas. Embora representem uma parcela pequena das necessidades relacionadas à sustentabilidade, esses profissionais costumam ser os mais difíceis de contratar, já que empresas de todos os setores competem pelo mesmo grupo limitado de pessoas com expertise em meio ambiente, saúde, segurança e gestão de sustentabilidade.

A terceira estratégia consiste em compreender o que os talentos buscam em seus empregadores. Trabalhadores jovens e em meio de carreira reconhecem seu valor.

Mesmo em um ambiente econômico desafiador, 64% dos profissionais acreditam ter forte posição de negociação e poder escolher entre ofertas de emprego. Além disso, 75% são contatados sobre oportunidades atraentes algumas vezes por ano, e 57% dos especialistas em sustentabilidade estão ativamente explorando novas funções.

Por fim, as empresas precisam criar roteiros de requalificação profissional. Em setores como energia, onde a competição por talentos é intensa, muitas funções-chave exigem aumentos incrementais de capacidade, tornando programas direcionados de qualificação uma solução mais rápida, econômica e sustentável do que a contratação externa.

A pesquisa revela que 57% dos trabalhadores estão abertos à requalificação, com ênfase maior nos mais jovens (63% têm entre 21 e 40 anos) e com formação menos especializada (61% dos bacharéis versus 46% dos doutores).

Pressão de múltiplos stakeholders

O movimento não é opcional. Clientes, compradores, reguladores e investidores estão exigindo dados de emissões e ações concretas das empresas. No Brasil, a aprovação da Lei 15.042/2024, que institui o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), sinaliza a crescente regulamentação do setor.

O Programa Brasileiro GHG Protocol registrou aumento de 24% no número de inventários de emissões de gases de efeito estufa publicados em 2024, segundo balanço do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV.

Uma pesquisa da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e da Nexus demonstra que a população brasileira apoia essa transformação. Para 75% dos entrevistados — três em cada quatro pessoas —, a transição para uma economia sustentável gerará novos empregos. Entre aqueles com ensino superior completo, 79% acreditam que essa mudança será benéfica para a criação de postos de trabalho.

Desafios além dos números

Apesar dos avanços, desafios importantes permanecem. Um estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) revela que embora os empregos verdes apresentem maior qualificação e melhores salários, ainda há reprodução de desigualdades de gênero e raça. Homens brancos predominam em cargos técnicos e de liderança, enquanto homens negros não possuem o mesmo destaque.

Também existem desequilíbrios regionais significativos. Enquanto Sul e Sudeste concentram empregos ligados à manufatura verde e inovação tecnológica, Norte e Centro-Oeste destacam-se nas áreas de energia renovável e preservação florestal.

Os empregos verdes atualmente ocupados no país estão dispersos de forma desigual, com grandes centros urbanos reunindo 53% das vagas sustentáveis, apesar de terem apenas 43% de todos os vínculos empregatícios formais.

Outro obstáculo é a limitada oferta de educação voltada para habilidades verdes. Apesar de esforços crescentes para incluir essas competências na educação profissional, a disponibilidade ainda é restrita e concentrada em regiões específicas, especialmente nos grandes centros urbanos. Isso significa que muitos jovens seguem excluídos do conhecimento que os levaria a acessar empregos verdes.

O momento de agir é agora

Para atrair e reter talentos, os líderes devem ter em mente como a sustentabilidade remodelará o trabalho e ter uma visão clara das habilidades existentes na equipe, revelando talentos subutilizados.

O Brasil, com sua matriz energética predominantemente limpa e vasto potencial em biodiversidade, tem capacidade singular para liderar a descarbonização da economia global.

O governo federal anunciou investimentos de R$ 470 bilhões voltados à bioeconomia e descarbonização, além do Programa Nacional de Crescimento Verde, que prevê até R$ 400 bilhões em financiamentos nos próximos anos.

A transformação do mercado de trabalho impulsionada pela sustentabilidade não representa apenas um desafio, mas uma oportunidade histórica para o país. Com políticas adequadas de qualificação profissional, incentivos fiscais e investimentos em infraestrutura verde, o Brasil pode consolidar sua posição de liderança na economia sustentável global, gerando milhões de empregos qualificados e bem remunerados nas próximas décadas.

O estudo completo do Boston Consulting Group está disponível, em inglês, no site da consultoria.