Empresas silenciam sobre ESG em meio a pressão política, mas boas práticas resistem

87% das companhias mantêm investimentos em sustentabilidade mas reduzem comunicação pública para evitar backlash

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
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Executivos corporativos navegam dilema entre manter compromissos climáticos e reduzir comunicação pública sobre ESG em ambiente político polarizado. Foto: Canva

Um fenômeno paradoxal está transformando o cenário corporativo global da sustentabilidade. Enquanto a maioria das empresas mantém ou até aumenta seus investimentos em ESG (ambiental, social e governança), um número crescente escolhe deliberadamente silenciar sobre seus avanços. Trata-se do greenhushing, ou "silenciamento verde", que representa o oposto do conhecido greenwashing.

De acordo com pesquisa da EcoVadis divulgada em 2025, 87% das empresas norte-americanas mantiveram ou aumentaram seus investimentos em sustentabilidade. No entanto, 31% dessas companhias reduziram significativamente sua comunicação externa sobre esses esforços. Globalmente, os números são ainda mais reveladores: 58% das empresas admitem praticar greenhushing, mesmo sabendo que a comunicação sobre metas climáticas é positiva para seus negócios.

O termo ESG, introduzido há quase duas décadas em um relatório das Nações Unidas chamado "Who Cares Wins" (Quem se importa, vence), transformou-se em conceito altamente politizado e frequentemente polarizador. O que começou como estrutura para avaliar riscos corporativos tornou-se alvo de decretos executivos, processos judiciais controversos e investigações estaduais nos Estados Unidos.

Polarização política impulsiona silêncio estratégico

A escalada do greenhushing ganhou força particular desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca. O presidente retirou os EUA de organizações e tratados climáticos importantes — incluindo segunda saída do Acordo de Paris —, suspendeu desenvolvimento de energia eólica e interrompeu repasses para programas climáticos.

Trump também assinou ordem executiva visando políticas estaduais sobre clima, emissões e ESG, instruindo a procuradora-geral Pam Bondi a "tomar todas as medidas cabíveis" para impedir sua aplicação. Em julho, o procurador-geral da Flórida intimou a Science Based Targets initiative e o CDP, alegando que os dois organismos sem fins lucrativos faziam parte de um "cartel climático".

Ben Carr, diretor da agência de relações públicas MHP Group, confirma a mudança no comportamento corporativo. "Termos como 'ESG', 'verde' e 'ecológico' foram e continuam sendo suprimidos", explica. "O que estamos vendo é que muitos desses termos estão sendo retirados de partes essenciais dos programas de comunicação."

Dados do Conference Board revelam que apenas 25% das grandes empresas listadas no índice S&P 100 utilizaram o termo "ESG" em seus relatórios anuais de sustentabilidade em 2024, queda acentuada em relação aos 40% de 2023. Entre empresas que divulgaram relatórios até abril de 2025, apenas 6% mencionaram o termo.

Gigantes corporativas enfrentam riscos reputacionais

A BlackRock, maior gestora de ativos dos Estados Unidos, listou "ESG" entre potenciais riscos legais, regulatórios e de reputação em seu relatório 10-K de 2024 à Comissão de Valores Mobiliários (SEC). A gestora afirmou que o aumento do foco em ESG por reguladores, autoridades e clientes poderia "impactar negativamente" sua reputação e negócios.

Grandes corporações como Walmart, Ford e Lowe's abandonaram programas de diversidade, equidade e inclusão (DEI). Bancos de destaque saíram da Net-Zero Banking Alliance, e a Coca-Cola abandonou metas de reciclagem de plástico. A Alphabet, empresa-mãe do Google, removeu referências públicas a "ESG" apesar de manter compromissos climáticos.

Philip Chinitz, vice-presidente da BerlinRosen, observa que o termo ESG tornou-se "símbolo poderoso" em meados e final da década de 2010, mas o uso massivo levou à perda de significado. "Tornou-se um termo abrangente para tudo, e críticos conseguiram capturá-lo e defini-lo em seus próprios termos", explica.

Silêncio estratégico corrói confiança do consumidor

Embora proteja algumas empresas de críticas políticas, o greenhushing apresenta desvantagens significativas. Relatório da GlobeScan, parceira de dados da plataforma Trellis, constatou que o silenciamento impacta o engajamento e afeta a confiança do consumidor.

A pesquisa — que analisou 30 mercados globais — revelou que apenas 36% dos consumidores relataram ter visto "alguma" mensagem de marcas focada em sustentabilidade em 2025, queda em relação aos 49% registrados em 2023. O silenciamento está "erosando a conscientização e a confiança do público, tornando as mensagens de sustentabilidade menos influentes nas escolhas do consumidor".

Estudo da Harvard Business Review com 75 empresas globais descobriu que enquanto 85% mantiveram ou expandiram programas de sustentabilidade, apenas 16% reafirmaram publicamente essas ações. "O que parece recuo é o greenhushing generalizado se enraizando", concluíram os pesquisadores.

Leia Também Investidores continuam priorizando riscos climáticos

Apesar da redução na comunicação pública, investidores não abandonaram considerações climáticas em suas análises. Risco climático permanece fator-chave na avaliação de valor a longo prazo, especialmente com a proliferação de esquemas de precificação de carbono internacionalmente.

Pesquisa da EcoVadis mostra que 60% dos executivos C-level e 65% de diretores e vice-presidentes afirmam que perseguir objetivos ESG ajuda a atrair e reter clientes. Adicionalmente, 65% dos participantes indicaram que esforços de sustentabilidade proporcionam vantagem competitiva significativa em cadeias de suprimentos.

Inversamente, quase metade dos executivos C-level afirmaram que eliminar supervisão ESG aumentaria disrupções na cadeia de suprimentos e afetaria negativamente o fluxo de mercadorias. Esses dados sugerem que, para muitas empresas, sustentabilidade não é marketing — é gestão de risco essencial.

Compromissos climáticos continuam crescendo silenciosamente

Contrariando a percepção pública de recuo corporativo, os números revelam manutenção ou aceleração de compromissos. Relatório da Accenture constatou que 41% das 2.000 maiores empresas mundiais (G2000) tinham metas de emissões líquidas zero para toda cadeia de valor, aumento em relação aos 27% de 2024.

A análise revelou que empresas tomaram mais medidas para atingir essas metas, com o G2000 adotando em média 13 das 21 alavancas de descarbonização, incremento sobre a média de 11,5 de 2024. Mais de 4.000 empresas reportaram metas ao Climate Disclosure Project em 2024, nove vezes mais que cinco anos atrás.

Renee Morin, diretora de sustentabilidade do eBay, observa que "os números reais mostram que as pessoas estão mantendo o rumo, ou até mesmo aumentando-o". A plataforma de comércio eletrônico lançou seu primeiro plano de transição climática em janeiro, delineando estratégia para atingir emissões líquidas zero em toda cadeia de suprimentos até 2045.

Especialistas recomendam comunicação estratégica

Profissionais de comunicação aconselham empresas a reformular estratégias em vez de silenciar completamente. "Certamente, aconselho [clientes] a não praticarem o greenhushing", afirma Chinitz. "No fim das contas, o impacto é o que realmente importa… empresas não devem esconder quem são ou o que estão tentando fazer."

Carr sugere recalibração para empresas que reformulem estratégia de sustentabilidade de maneira que "se conecte diretamente à estratégia de negócios". "Em vez de falar sobre fazer isso porque é a coisa certa a fazer, [empresas podem] falar mais sobre como integrar emissões líquidas zero e sustentabilidade ao crescimento, competitividade e inovação", explica.

Esse tipo de mensagem tende a ter melhor aceitação pública e reduz polarização. A redução de riscos vem da vinculação direta de objetivos sustentáveis a mensagens que representam "o período normal dos negócios".

Consequências coletivas do silêncio verde

O greenhushing não afeta apenas empresas individuais — impacta todo o ecossistema de ação climática. Quando líderes setoriais silenciam sobre progresso climático, a pressão entre pares dissipa, levando a regressão em larga escala na ação climática global.

"Se você não está estabelecendo e comunicando ambição, é muito difícil obter momentum interno", alerta Alison Taylor, professora da Universidade de Nova York. Quando uma empresa recua ou permanece silenciosa, a pressão sobre rivais diminui. A dinâmica explica por que duas iniciativas climáticas significativas nos EUA enfrentam dificuldades.

Para investidores, clientes e parceiros em potencial, o silêncio corrói a confiança que alimenta criação de valor a longo prazo. Empresas com credenciais ESG robustas são mais atrativas para investidores, parceiros e compradores — vantagem perdida no silêncio.

Brasil e mercados emergentes mantêm transparência

Enquanto empresas norte-americanas e europeias adotam greenhushing, mercados emergentes como o Brasil mantêm trajetória de transparência em ativos sustentáveis. A B4, primeira Bolsa de Ação Climática do Brasil, exemplifica compromisso com transparência através de tecnologia blockchain.

A plataforma oferece rastreabilidade completa em negociações de créditos de carbono, combatendo fraudes através da transformação de ativos. Compradores recebem Certificados de Ação Climática em formato NFT, proporcionando comprovação digital irrefutável de compensações realizadas.

Com a regulamentação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) pela Lei 15.042/2024, o Brasil posiciona-se como líder em governança climática transparente. Cerca de cinco mil empresas do setor industrial terão metas obrigatórias de descarbonização, criando demanda estrutural por créditos certificados.

Caminho à frente exige equilíbrio

"Empresas maduras percebem que a transição global é inevitável", afirma Carr. "Ela vai acontecer independentemente da política, dos políticos no poder e das agendas governamentais. [Empresas] sabem que a direção da economia global está caminhando para uma economia de baixo carbono."

O desafio agora é encontrar equilíbrio entre proteção contra backlash político e manutenção de transparência essencial para credibilidade. Greenhushing como tática de curto prazo pode ser compreensível, mas como estratégia de longo prazo representa risco tanto para empresas individuais quanto para progresso climático coletivo.

A solução não está no silêncio, mas na comunicação disciplinada, baseada em dados, focada em impactos materiais e alinhada com estratégias de negócio. Quando empresas líderes voltarem a falar, deverão fazê-lo com credibilidade renovada e resultados comprováveis.