ONU limita tamanho de delegações devido aos altos custos de hospedagem

Preços abusivos forçam ONU a pedir redução de delegações enquanto nações pressionam por mudança de sede da conferência climática.

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
6 Min

ONU limita tamanho de delegações devido aos altos custos de hospedagem
Vista aérea de Belém, que enfrenta desafios de hospedagem para receber participantes da COP30 em novembro.

A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), marcada para novembro em Belém, enfrenta sua mais uma grande turbulência antes mesmo de começar. Os valores exorbitantes cobrados pela rede hoteleira da capital paraense provocaram uma reação em cadeia que vai desde pedidos oficiais da ONU para redução de delegações até pressões diplomáticas para transferir o evento para outra cidade.

O secretário-executivo do secretariado climático da ONU, Simon Stiell, tomou uma medida inédita ao solicitar formalmente que organizações do sistema das Nações Unidas "revejam o tamanho de suas delegações na COP30 e reduzam o número onde for possível". A solicitação, publicada no site oficial da UNFCCC, reflete a gravidade da situação enfrentada pela organização, que nunca havia feito pedido similar em conferências anteriores.

O cenário é preocupante: enquanto Belém conta com aproximadamente 18 mil leitos hoteleiros em sua capacidade normal, a expectativa é receber entre 45 mil e 50 mil participantes durante os 11 dias do evento. Essa discrepância entre oferta e demanda criou um ambiente propício para a especulação imobiliária desenfreada, com casos que impressionam pela audácia.

Valores desproporcionais

Um exemplo emblemático da situação é o antigo "Hotel Nota 10", rebatizado para "Hotel COP 30" especificamente para o evento. O estabelecimento, que em 2023 oferecia pernoites por R$ 70, agora cobra diárias de até R$ 7 mil - um aumento superior a 2.800%. Casos como este se multiplicam pela cidade, com estabelecimentos cobrando valores que chegam a 15 vezes o preço normal.

Segundo levantamento realizado em plataformas de reservas, os preços para hospedagem durante a COP30 variam entre R$ 1.446 e R$ 97.509 para 11 diárias, dependendo da localização e infraestrutura do estabelecimento. A média geral situa-se entre US$ 300 e US$ 400 por diária, valores que alguns estabelecimentos chegam a cobrar US$ 700 por pessoa/noite.

Para colocar esses números em perspectiva, durante os Jogos Olímpicos de Paris em 2024, evento de magnitude similar, o pico dos preços hoteleiros atingiu €531 (cerca de R$ 3.252) por dia, representando um aumento de aproximadamente 90% sobre os valores normais. Em Belém, os aumentos chegam a mais de 1.000% em alguns casos.

Pressão internacional aumenta

A crise dos preços hoteleiros não se limita a um problema logístico - tornou-se uma questão diplomática de primeira ordem. Nove países europeus, incluindo Áustria, Bélgica, Canadá, República Tcheca, Finlândia, Holanda, Noruega, Suécia e Suíça, enviaram cartas formais à presidência da COP30 solicitando a transferência da conferência para outra cidade.

O presidente da Áustria, Alexander Van der Bellen, foi além e anunciou oficialmente que o país não participará do evento devido aos "custos particularmente altos" que não se enquadram no orçamento disponível. A Holanda já sinalizou que pode reduzir sua delegação pela metade, de 90 para 45 pessoas, enquanto a Polônia enfrenta dificuldades para encontrar acomodações para sua equipe.

O embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, reconheceu publicamente a gravidade da situação: "De fato, os preços de Belém estão completamente abusivos. São mais de 10 vezes mais caros, 15 vezes o valor que os hotéis normalmente cobram em Belém". Ele destacou que há "uma sensação literalmente de revolta dos países por essa insensibilidade", especialmente entre nações em desenvolvimento.

Desafio do financiamento climático 

A crise hoteleira ganha dimensões ainda mais preocupantes quando analisada no contexto dos desafios já enfrentados pelo financiamento climático internacional. Na COP29, realizada em Baku no ano passado, foi acordado que países desenvolvidos devem destinar US$ 300 bilhões anuais até 2035 para apoiar nações em desenvolvimento no enfrentamento das mudanças climáticas.

Esse valor, no entanto, está muito aquém dos US$ 1,3 trilhão anuais considerados necessários pelos especialistas. Para muitos países em desenvolvimento, a ajuda de custo oferecida pela ONU de US$ 149 por dia é insuficiente para cobrir hospedagens que custam em média US$ 700 por noite em Belém.

A situação coloca em risco a participação de nações que mais precisam dos recursos climáticos, criando um paradoxo: uma conferência sobre justiça climática pode excluir justamente os países mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas.

Esforços brasileiros para contornar a crise

Diante da pressão internacional, o governo brasileiro mobilizou recursos significativos para resolver a situação. Miriam Belchior, secretária-executiva da Casa Civil, esclareceu que o Brasil já arca com custos substanciais para sediar a COP30 - cerca de R$ 4,7 bilhões em investimentos - e tem capacidade limitada para oferecer subsídios adicionais.

O país ofereceu às nações mais pobres quartos com diárias limitadas a cerca de US$ 200, enquanto outros países podem acessar acomodações entre US$ 400 e US$ 500 por noite. Para ampliar a oferta de leitos, duas soluções criativas estão sendo implementadas: dois navios de cruzeiro que permanecerão ancorados no Porto de Outeiro, oferecendo aproximadamente 6 mil leitos, e a construção de três novos hotéis de alto padrão por grupos internacionais.

Plataforma oficial busca organizar mercado

Para tentar trazer transparência e organização ao setor, foi lançada a plataforma oficial cop30.bnetwork.com, que já conta com mais de 2.700 quartos disponíveis em apartamentos, casas por temporada e residências privadas. A iniciativa permite que participantes naveguem pelo mapa e escolham acomodações próximas ao Parque da Cidade, local do evento.

Daniel Farias, sócio da Broker Soluções Imobiliárias de Belém, alerta que "quem cobra esses valores exorbitantes são lobos solitários" que atuam em plataformas de aluguel por temporada. Segundo ele, a orientação é que proprietários sejam realistas: "Vai ser muito bom financeiramente alugar sua casa no período da COP? Vai. Mas ninguém vai ficar rico com isso".

Simbolismo amazônico mantém Belém como sede

Apesar das pressões, o presidente da COP30 descartou categoricamente qualquer mudança de local: "Não há plano B, o plano B é B de Belém". A escolha da capital paraense tem forte simbolismo amazônico, sendo a primeira conferência climática da ONU realizada na maior floresta tropical do mundo.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforçou essa perspectiva: "Uma coisa é discutir a Amazônia no Egito; outra coisa é discutir a Amazônia em Belém. Agora nós vamos discutir a importância da Amazônia dentro da Amazônia".


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