O mercado global de créditos de carbono para agricultura, silvicultura e uso da terra está preparado para um crescimento exponencial, segundo relatório divulgado pela Research and Markets em janeiro de 2026.
A projeção aponta expansão de US$ 7,51 bilhões em 2025 para US$ 9,67 bilhões em 2026, alcançando US$ 26,35 bilhões até 2030 – uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 28,5%.
O crescimento acelerado é impulsionado por compromissos corporativos de emissões líquidas zero, demanda crescente por créditos de remoção de carbono de alta qualidade e avanços em ferramentas digitais de Monitoramento, Relato e Verificação (MRV). As principais tendências incluem maior adoção de projetos de remoção de carbono baseados na natureza, expansão da agricultura regenerativa e crescente participação de agricultores em programas de crédito.
Entre 2025 e 2026, o mercado deve crescer US$ 2,16 bilhões, refletindo uma CAGR de 28,8%. Esse salto é sustentado por iniciativas que promovem reflorestamento, conscientização sobre impactos climáticos e o surgimento de mercados voluntários de carbono com programas governamentais robustos.
Brasil emite primeiros créditos por agricultura regenerativa
O Brasil conquistou posição de destaque ao emitir os primeiros créditos de carbono por agricultura regenerativa nas Américas, certificados pela Verra em julho de 2025. A certificação histórica marca o início de uma nova era para o setor agropecuário brasileiro, que responde por parcela significativa das emissões nacionais pela gestão do uso da terra.
O projeto foi desenvolvido pela climate tech anglo-brasileira NaturAll Carbon e segue a metodologia Agriculture Land Management, sendo o segundo do mundo deste tipo, apenas atrás de um recente na Romênia. A Fazenda Flórida, localizada no Mato Grosso do Sul, foi a primeira propriedade contemplada por suas práticas regenerativas.
Com cerca de 3 mil hectares e histórico de pecuária extensiva, a propriedade comprovou ser possível remover carbono da atmosfera de forma mensurável, permanente e replicável. A certificação demonstra que o modelo brasileiro de agricultura regenerativa tem potencial para escala e pode transformar o país em referência global nesse segmento.
Tecnologia DayCent e monitoramento por satélite
Para quantificar os créditos, foi utilizada a tecnologia DayCent, considerada a principal para simulações de carbono em solos agrícolas. O monitoramento é realizado por sensoriamento remoto, imagens de satélite e uma base de dados geoespacial robusta.
Segundo a NaturAll Carbon, o diferencial do projeto está em sua estrutura como agrupamento de propriedades rurais elegíveis. A configuração permite que novas fazendas sejam incluídas a qualquer momento, mediante confirmação de elegibilidade e sem necessidade de um novo processo de validação. Isso significa que o modelo é altamente escalável, inclusivo e replicável.
Com atuação em vários estados brasileiros e foco no Cerrado na zona de transição com a Amazônia, o objetivo é contemplar fazendas privadas que adotam práticas como recuperação de pastagens degradadas, rotação de culturas e Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF).
Projeto de lei permite uso de créditos para abater impostos
A Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados aprovou em maio de 2025 o Projeto de Lei 1436/24, que permite o uso de créditos de carbono para pagamento de impostos relativos à agropecuária. A medida recebeu parecer favorável do relator, deputado Tião Medeiros (PP-PR), com alteração para reconhecer a produção de créditos de carbono como atividade rural.
Com a mudança, os créditos de carbono passam a integrar a receita da atividade rural, o que permitirá a dedução das despesas e investimentos realizados para sua geração. A alteração tem potencial para incentivar práticas sustentáveis no campo, como manejo adequado do solo, preservação de florestas e reaproveitamento de resíduos.
Produtores rurais poderão utilizar créditos certificados, provenientes da preservação ou recuperação de florestas nativas e reflorestadas, para quitar tributos vinculados à produção agropecuária. A iniciativa concilia preservação ambiental com justiça tributária, oferecendo alívio fiscal aos produtores que adotam práticas sustentáveis.
Brasil ocupa 7º lugar no ranking mundial
O Brasil atualmente ocupa a sétima posição no ranking mundial de geração de créditos de carbono, com cerca de 4,6 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, atrás de países como Índia, Estados Unidos e China. No entanto, o potencial brasileiro é significativamente maior.
Segundo estudo da WayCarbon encomendado pela Câmara de Comércio Internacional (ICC Brasil), o país pode gerar cerca de US$ 100 bilhões em receitas de créditos de carbono até 2030, com destaque para oportunidades nos setores agropecuário e de energia.
Um estudo recente do Boston Consulting Group (BCG) demonstrou que o Cerrado sozinho pode gerar US$ 100 bilhões ao PIB brasileiro com agricultura de baixo carbono, por meio de ações que conciliam aumento de produtividade com sustentabilidade.
Agricultura regenerativa transforma o setor
A agricultura regenerativa se destaca por associar práticas sustentáveis à produção e promover maior absorção de CO₂ da atmosfera, contribuindo diretamente para a redução do gás responsável pelo efeito estufa. O método tem atraído atenção de multinacionais e produtores sustentáveis, que veem nesta prática uma forma de aliar produtividade e preservação ambiental.
O sistema de geração de créditos de carbono na agricultura se soma a outras duas modalidades já existentes: conservação de florestas e áreas protegidas, e reflorestamento. Nos Estados Unidos, produtores associados a empresas de soluções biológicas conseguiram arrecadar mais de 600 mil dólares em créditos com a safra 2024/2025, com previsão de ultrapassar 1 milhão de créditos na safra 2025/2026.
As práticas regenerativas podem tornar produções de milho, soja e algodão mais sustentáveis. No Brasil, especialistas apontam que o potencial para geração de créditos neste modelo é imenso, devido à dimensão continental da agricultura nacional e às características únicas dos biomas brasileiros.
Ferramentas digitais revolucionam MRV
Empresas líderes estão desenvolvendo proativamente soluções tecnológicas inovadoras para aprimorar suas ofertas. Em setembro de 2023, a CERO Technologies lançou uma plataforma SaaS de geração de créditos de carbono utilizando uma abordagem digital de MRV (Monitoramento, Relato e Verificação), solucionando restrições de oferta do mercado.
As tecnologias-chave incluem blockchain para rastreabilidade e transparência, inteligência artificial para análise de dados, Internet das Coisas (IoT) para monitoramento em tempo real e big data para processar grandes volumes de informações geoespaciais. Essas inovações reduzem custos de certificação e aumentam a confiabilidade dos créditos gerados.
A crescente integração de créditos de carbono em estratégias de sustentabilidade corporativa impulsiona a demanda por sistemas digitais robustos. O desenvolvimento de protocolos padronizados de medição e verificação facilita a entrada de novos participantes no mercado, especialmente pequenos e médios produtores.
Fusões e aquisições moldam o setor
Fusões e aquisições estratégicas estão moldando o cenário do setor. Em março de 2024, a TÜV SÜD adquiriu a FRST Corp, ampliando sua expertise na validação e verificação de projetos de proteção climática e sustentabilidade florestal, buscando oferecer suporte abrangente aos objetivos de sustentabilidade de seus clientes.
Entre os principais participantes desse mercado dinâmico, destacam-se Cargill Incorporated, Bayer AG, Verra, Conservation International, Indigo AG, Gold Standard, entre outras. Essas empresas lideram o desenvolvimento de metodologias, certificação de projetos e comercialização de créditos em escala global.
A Verra, maior certificadora internacional, continua sendo referência no mercado voluntário com seu programa Verified Carbon Standard (VCS), apesar da crescente diversificação do setor com a entrada de novos certificadores.
Ásia-Pacífico lidera participação regional
A região Ásia-Pacífico liderou o mercado em 2025, respondendo pela maior participação regional. O mercado abrange créditos de carbono voluntários e obrigatórios, cada um direcionado a diferentes tipos de projetos, como silvicultura, uso da terra e agricultura, em diversas regiões do mundo.
As fontes de receita neste mercado provêm de uma gama de serviços, incluindo contabilidade de carbono, verificação e gestão de projetos. A perspectiva econômica, impactada pela dinâmica comercial em constante evolução, exige estratégias adaptáveis para que as empresas aproveitem oportunidades e superem desafios.
As tarifas sobre equipamentos e tecnologias importados podem representar desafios em algumas regiões, mas também estimulam a inovação em sistemas locais de monitoramento ambiental e capacidades de certificação.
Compromissos globais impulsionam demanda
O esforço para reduzir emissões de carbono contribui significativamente para o crescimento do mercado. Em setembro de 2023, segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, 97 Partes, representando 81% das emissões globais de GEE, comprometeram-se com metas de emissões líquidas zero, com planos que se estendem até 2050 e além.
Esses compromissos criam demanda crescente por créditos de remoção de carbono de alta qualidade, especialmente aqueles baseados em soluções naturais. Empresas buscam não apenas compensar emissões, mas também contribuir para co-benefícios como preservação da biodiversidade, segurança hídrica e desenvolvimento de comunidades locais.
O mercado voluntário cresceu impressionantes 236% em volume em 2021, segundo dados da Fundação Getulio Vargas (FGV), e a tendência de alta continua. A crescente participação de agricultores e proprietários de terras em programas de crédito de carbono democratiza o acesso a esse mercado emergente.
Desafios e oportunidades para pequenos produtores
Segundo especialistas, um projeto de carbono custa, em média, R$ 900 mil e leva pelo menos seis meses para gerar créditos. O que inviabiliza a participação do pequeno produtor são as grandes certificadoras internacionais, que ainda não demonstram interesse pleno pelo mercado brasileiro, além do custo alto de investimento inicial.
Uma possibilidade para pequenos e médios produtores é a organização em associações ou cooperativas. Com o avanço do mercado regulado brasileiro através do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), a tendência é que produtores associados a empresas maiores sejam absorvidos pelo processo.
Para 2026, as perspectivas incluem maior apoio regulatório, desenvolvimento de metodologias simplificadas para pequenos projetos e expansão de programas de capacitação técnica. A realização da COP30 em Belém em novembro de 2025 colocou o Brasil no centro das discussões globais sobre mercado de carbono, criando oportunidades únicas para o país se destacar.